Ucrânia abre nova investigação criminal contra Yulia Tymoshenko

Dois dias depois de ser condenada a sete anos de prisão, ex-premiê é acusada de má administração do dinheiro público

iG São Paulo |

O Serviço de Segurança ucraniano (SBU) anunciou nesta quinta-feira a abertura de uma nova investigação judicial contra a opositora e ex-primeira-ministra Yulia Timoshenko por suposta má administração de US$ 450 milhões dos fundos públicos no final dos anos 1990.

AFP
Yulia Tymoshenko fala enquanto juiz Rodion Kireyev lê veredicto contra ela em Kiev, Ucrânia (11/10)

Marina Ostapenko, porta-voz do SBU, disse que enquanto primeira-ministra, Tymoshenko transferiu as dívidas de uma empresa de energia que ela dirigiu na década de 1990 para o governo. Perguntada sobre como isso foi feito, Ostapenko afirmou somente que "como primeira-ministra, ela podia fazer qualquer coisa".

O principal assessor da ex-premiê, Oleksandr Turhchynov classificou as novas acusações como "absurdas" e disse que o caso mais recente foi destinado apenas para garantir que Tymoshenko, detida desde agosto, permaneça na prisão.

Na terça-feira, ela foi condenada a sete anos de prisão por abuso de poder em um acordo de gás natural feito em 2009 com a Rússia. Yulia também foi condenada a pagar uma multa de US$ 200 milhões por danos e desabilitada de exercer cargos públicos por três anos.

Os partidários da ex-premiê anunciaram seu plano de questionar essa decisão em apelação e perante à Justiça europeia, ao mesmo tempo em que convocaram a luta contra o autoritarismo na Ucrânia. Os EUA e a União Europeia condenaram a sentença de sete anos dada a Tymoshenko.

Em resposta às críticas ocidentais, o presidente Viktor Yanukovych afirmou nesta quinta-feira que apoia as mudanças na legislação que poderiam libertá-la da prisão. Ele afirmou que a lei da era soviética, que serviu como base para a condenação de Tymoshenko, é obsoleta e precisa de mudanças.

Ele sugeriu que as alterações sejam adotadas a tempo para um tribunal de apelação revisar o caso. "Se os pontos relevantes forem passados antes da audiência, o tribunal vai certamente levá-los em conta ao ouvir o caso."

O Parlamento começou a aprovar as medidas que descriminalizam alguns delitos econômicos, mas tal lei não faz menção à razão pela qual Tymoshenko foi acusada. O Parlamento vai tratar da medida na semana que vem e alguns analistas acreditam que ela poderia ser alterada para incluir o caso da ex-premiê.

Yulia Tymoshenko

A vida dessa economista ucraniana, que tem uma trança loira em forma de coroa como sua principal marca, foi uma autêntica montanha-russa desde que foi escolhida deputada em 1998. Quanto presidia o comitê de orçamentos da Rada Suprema (legislativo ucraniano), o então primeiro-ministro reformista Viktor Yushchenko a nomeou vice-primeira-ministra de Energia.

Durante um ano e meio em que exerceu o cargo, Yulia tentou "pôr ordem" em um terreno minado pela corrupção e roubo de matérias-primas e também solucionar o problema da dívida com a Rússia, o que lhe valeu o apelido de "Princesa do Gás".

No entanto, sua gestão não foi vista com bons olhos pelo presidente Leonid Kuchma, que conseguiu sua destituição em janeiro de 2001 com acusações de "fraude, contrabando e evasão de impostos". Ela foi detida em duas ocasiões e cumpriu várias semanas de prisão preventiva sob suspeita de crimes financeiros, mas a Justiça desprezou as acusações sem sequer chegar a julgamento.

Desde então, a carismática líder política dedicou todas as suas energias para criticar Kuchma e o premiê Yanukovich. Após as eleições presidenciais de novembro de 2004, Yulia incentivou as massas nas ruas de Kiev a apoiar Yushchenko e denunciar a fraude, movimento popular de protesto que ficou conhecido como Revolução Laranja.

Com a vitória final de Yushchenko nas eleições, Yulia se transformou na principal candidata a dirigir o novo governo pró-Ocidente. Entretanto, ela só ocupou o cargo de primeira-ministra de 4 de fevereiro a 7 de setembro de 2005, quando foi destituída por Yushchenko e substituída por Yuri Yekhanurov.

A destituição aconteceu depois que vários colaboradores de Yushchenko foram acusados de corrupção e tráfico de influência, e depois que a gestão de Yulia foi duramente criticada.

Mais tarde, o trabalho incansável de oposição dela deu frutos. Nas eleições legislativas antecipadas de setembro de 2007, Yulia foi a segunda mais votada com mais de 30% dos votos. Após várias semanas de consultas, seu partido criou uma nova maioria parlamentar laranja com a formação presidencialista "Nossa Ucrânia - Autodefesa Popular", que permitiu a Yulia ser aprovada como primeira-ministra.

Depois de alguns meses de gestão, ela rompeu definitivamente relações com Yushchenko, então presidente, que lhe acusou de má gestão econômica durante a crise.

No entanto, sua ambição era se transformar em presidente, por isso ela decidiu se candidatar às eleições presidenciais de 2010, quando foi derrotada no segundo turno por Yanukovich. Desde então começaram os problemas para Yulia, que tentou unir as forças da oposição para causar dificuldades ao governo do primeiro-ministro pró-Rússia Nikolai Azárov.

Em maio de 2010 foi aberto um processo penal contra Yulia pelo desvio de bilhões de euros em fundos públicos e, um ano depois, ela foi acusada de se exceder em suas funções ao assinar em 2009 um contrato de gás com a Rússia.

O processo judicial contra Yulia começou em maio e durante esses meses a ex-primeira-ministra acusou Yanukovich de realizar uma "campanha de perseguição política" contra ela. Em 5 de agosto, Yulia esgotou a paciência do juiz e foi enviada à prisão preventiva por desacato ao tribunal, decisão que foi condenada de forma unânime pela comunidade internacional.

De acordo com pessoas próximas a Yulia, sua saúde piorou consideravelmente durante o período atrás das grades, mas isso não abrandou o juiz, que ditou a sentença condenatória nesta terça-feira.

Yulia se casou em 1979 com Aleksandr Tymoshenko, com quem tem uma filha, Yevgenia, nascida em 1985.

Com AP, AFP, EFE e Reuters

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