Papa pede a alemães que não deixem a Igreja por causa de abusos

Bento 16 inicia viagem oficial e pastoral de quatro dias a seu país natal; em 2010, 181 mil católicos alemães abandonaram Igreja

iG São Paulo |

O papa Bento 16 fez um apelo aos católicos alemães para que não deixem a Igreja ao chegar nesta quinta-feira para uma visita de quatro dias à Alemanha, onde um número recorde de fiéis vem abandonando a instituição em protesto contra os escândalos de abusos sexuais envolvendo padres.

Essa é a terceira e a mais desafiadora visita do papa à sua terra natal. No voo que o levou de Roma, ele disse aos repórteres que compreendia por que algumas pessoas, especialmente vítimas e seus parentes e amigos, podiam dizer "essa não é mais minha Igreja".

Mas ele fez um apelo aos católicos para que vejam que a Igreja foi feita tanto do bom quanto do ruim e que está se empenhando para consertar os erros cometidos em seus quadros.

A Alemanha foi abalada pelos escândalos de abusos sexuais do clero que despontaram pela Europa há dois anos. "A Igreja é uma rede do Senhor que pega peixes bons e peixes ruins", disse. "Temos de aprender a viver com os escândalos e trabalhar contra os escândalos desde o interior da grande rede da Igreja."

No ano passado, 181 mil católicos alemães, um número recorde, deixou oficialmente a Igreja, cifra pela primeira vez mais elevada do que a de protestantes que se desligam de suas igrejas e dos batismos no catolicismo.

O papa chegou a Berlim às 10h30 locais (5h30 de Brasília), e foi recebido ainda na pista do aeroporto pelo presidente da Alemanha, Christian Wulff, e a chanceler federal, Angela Merkel. A visita oficial e pastoral inclui atividades políticas e ecumênicas, mas também deve enfrentar algumas dificuldades. A viagem inclui três etapas - Berlim, Erfurt e Freiburg -, com uma agenda pesada para o pontífice de 84 anos. Ele pronunciará 19 discursos, incluindo o que fez no Parlamento alemão, o célebre Bundestag, onde foi aplaudido por 1,5 minuto.

Em seu primeiro discurso no país, no castelo Bellevue de Berlim, foi recebido por Wulff com honras militares. "Não vim aqui fundamentalmente por determinados interesses políticos ou econômicos, como fazem outros homens de Estado, e sim para ver as pessoas e falar de Deus", declarou.

"No que diz respeito à religião, assistimos a uma crescente indiferença na sociedade que, em suas decisões, considera a questão da verdade mais como um obstáculo, e dá pelo contrário prioridade às considerações utilitaristas."

O primeiro papa alemão em 500 anos também fez referência ao passado nazista do país. "Olhar claro sobre as páginas escuras do passado nos permite aprender e receber impulsos para o presente", declarou.

O presidente alemão pediu à Igreja Católica que viva na realidade e de acordo com sua época. "A Igreja e o Estado estão separados em nosso país, com boas razões. Mas a Igreja não é uma sociedade paralela. Vive nesta sociedade, neste mundo e nesta época. É por isso que ela também deve enfrentar novas questões", disse o católico Wulff.

Na quarta-feira, Wulff afirmou que a Igreja deveria ter mais compreensão com os divorciados. O presidente alemão se divorciou em 2007 e voltou a casar no ano seguinte. O Vaticano não reconhece o divórcio.

Posteriormente, o papa se reuniu com representantes da comunidade judaica em Berlim, ocasião em que voltou a condenar o nazismo, classificando o Holocausto como uma "lembrança espantosa" em cuja origem se encontra o "rechaço de Deus". "O onipotente Adolf Hitler era um ídolo pagão, que queria se colocar como substituto do Deus bíblico, criador e pai de todos os homens", disse Bento 16 perante a delegação liderada por Dieter Graumann, presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, no Reichstag, o palácio que sedia o Parlamento Alemão.

Protestos

Uma série de manifestações de protestos, convocadas pelas vítimas de padres pedófilos, foi organizada nas três cidades que o papa visitará, principalmente em Berlim.

Deputados da oposição, homossexuais, vítimas de abusos sexuais em escolas religiosas e católicos críticos marcharam nesta quinta-feira por Berlim sob o lema "Keine Macht den Dogmen" (Nenhum poder aos dogmas). Um caminhão equipado com uma potente aparelhagem de som abriu passagem à manifestação, a maior das seis convocadas contra o discurso de Bento 16 no Bundestag.

Cerca de 20 deputados - entre os quase 100 que boicotaram o discurso por considerar que quebra o princípio de neutralidade religiosa - se misturaram à colorida passeata, integrada por aproximadamente 15 mil manifestantes de todas as idades e ideologias. "Somos contra a falsa moral sexual do Vaticano", afirmou Wiltrud Schenk, de 65 anos e fantasiada de preservativo lilás.

"As desculpas protocolares não apagarão os 14 anos de abusos sexuais sofridos como coroinha", afirmava Eckhard O., de 62 anos, ao lado de um cartaz que denunciava os estupros em orfanatos.

Quase 500 anos depois que outro alemão, Lutero, cravou em 31 de outubro de 1517 suas teses na igreja de Wittenberg, dando origem à reforma protestante, os católicos críticos exigem um esforço maior rumo ao ecumenismo.

"O papa chegou se queixando da crescente indiferença religiosa. Não é justo. Deveria interpretar essa manifestação como prova de respeito, pelo menos nós não o ignoramos", dizia James, um transexual americano maquiado como Freddy Mercury.

Apesar de as denúncias contra padres pedófilos serem menores que as registradas em países como Irlanda e EUA, inúmeros católicos alemães decidiram abandonar a Igreja católica para manifestar sua indignação. "Não deveria causar estranhamento o fato de haver mais apóstatas (pessoas que abandonam a vida religiosa) do que batismos", disse a manifestante Christa Eichinger.

Fontes vaticanas não excluem que o papa acabe recebendo algumas vítimas dos abusos sexuais cometidos por padres, como já o fez em outras viagens, um gesto que sempre é apreciado.

A associação de vítimas de padres católicos pedófilos, a SNAP, fundada nos EUA, avivou o tema na semana passada, depois de apresentar uma denúncia contra o papa e outros três hierarcas da Igreja ante o Tribunal Penal Internacional por "crimes contra a humanidade", uma ação basicamente simbólica, mas que poderá ofuscar a visita papal.

*Com Reuters, AFP e EFE

    Leia tudo sobre: papabento 16vaticanoalemanhapedofiliacatolicismo

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG