Após desembarcar, pontífice alertou para riscos da passagem à 'modernidade', incluindo a 'submissão às leis do mercado ou das finanças'

O papa Bento 16, de 84 anos, chegou nesta sexta-feira a Cotonou, capital política e econômica do Benin, país do oeste da África considerado berço do vodu, onde permanecerá até domingo. A visita de três dias tem como objetivo a entrega aos bispos africanos da Exortação Apostólica do Sínodo de Bispos para a África realizado em 2009 no Vaticano.

Presidente do Benin, Thomas Yayi Boni (E), cumprimenta papa Bento 16 em sua chegada a Cotonou
AFP
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O papa foi recebido pelo presidente do Benin, Thomas Boni Yayi, sua esposa e pelo arcebispo de Cotonou e presidente da Conferência Episcopal do Benin, Antoine Ganyé. No discurso que fez após desembarcar, Bento 16 alertou para os riscos da passagem à "modernidade", incluindo a "submissão incondicional às leis do mercado ou das finanças".

Ao iniciar a visita, Bento 16 prestou homenagem aos "chefes tradicionais", sublinhando seu papel na passagem à modernidade. "Sua contribuição é importante para construir o futuro do país. Desejo encorajá-los a participar, com sua sabedoria, inteligência e costumes, da passagem delicada que se opera atualmente entre a tradição e a modernidade", declarou.

Durante os três dias no país, Bento 16 - guia de 1,181 bilhão de católicos no mundo - permanecerá duas noites na capital. O único deslocamento previsto será uma viagem de ida e volta no sábado para a cidade litorânea de Ouidah, a 40 km a oeste da capital, onde há um museu de um culto animista, o vodu. Na cidade, celebra missa no grande estádio local.

Embora o número de católicos em Benin cresça rapidamente, 40% da população de 9 milhões segue o vodu, que foi levado por escravos ao Caribe. Cerca de 27% se descrevem como cristãos, enquanto 22% dizem ser muçulmanos, mas estima-se que muitas dessas pessoas combinem as práticas do vodu com de outras religiões.

Durante o voo para o país africano, o papa expressou sua preocupação pelo auge das igrejas evangélicas na América Latina e África. Em conversa com jornalistas, ele afirmou que, perante esse desafio, a Igreja Católica tem de oferecer uma mensagem simples, profunda e compreensível.

O papa afirmou que as igrejas evangélicas crescem porque expõem uma mensagem aparentemente compreensiva e uma liturgia participativa que, na realidade, consiste no "sincretismo de religiões".

África e aids

Essa é a 22ª viagem do papa Bento 16 em seus seis anos de pontificado. Também é a segunda vez que o papa visita a África, onde já esteve em 2009, quando viajou para Camarões e Angola e causou protestos mundiais quando sugeriu que a distribuição de preservativos agravou o problema da aids .

Desde então, o pontífice parece ter suavizado essa postura, afirmando em um livro, publicado no ano passado, que o uso do preservativo é aceitável "em alguns casos" , principalmente para reduzir o risco de infecções por HIV.

Não é de hoje que os católicos africanos se veem divididos entre a doutrina da Igreja e a realidade de uma doença mortal, que castiga milhões. É na África subsaariana que estão concentrados quase 70% dos casos de HIV no mundo.

"O que o papa disse é o ideal", explicou Lea Glago, jornalista e católica de 28 anos de Benin, referindo-se aos comentários feitos em 2009. "Mas, para ser honesta com você, não respeito isso e acho difícil respeitar. Não conheço ninguém ao meu redor que o faça", acrescentou.

Organizações católicas de caridade são responsáveis por oferecer grande parte dos cuidados para as vítimas da aids na África subsaariana, onde vivem 22 milhões de soropositivos. O pragmatismo às vezes tem precedência sobre a análise do significado dos pronunciamentos do Vaticano.

No pequeno reino da Suazilândia, na África Austral, país com a pior taxa de prevalência de HIV, com cerca de 26% da população adulta soropositiva, alguns missionários católicos dizem preferir se concentrar em salvar vidas.

"Como um homem da Igreja, grande parte do que é feito não é oração. É uma resposta à crise", explicou o padre Martin McCormick, missionário e fundador da Hope House (Casa da Esperança), um abrigo para pacientes com aids e seus familiares.

McCormick também supervisiona 60 escolas católicas, onde os 8 mil estudantes são órfãos da aids. "Se você tem 8 mil crianças famintas, não se volta para o Vaticano. Pensa em dar uma 'resposta humana' ao que vê à sua frente. Não penso em políticas ou filosofias", afirmou.

No mesmo país, a irmã Diane Dalle Molle, uma freira católica que há oito anos aconselha e examina pessoas para detecção do HIV, afirmou: "Podemos dizer a eles o que está disponível lá fora. Não fornecemos preservativos, mas eles sabem onde consegui-los", explicou.

Alguns, no entanto, decidem se ater ao dogma. Gift Mambipiri, líder do movimento estudantil católico do Zimbábue, afirmou que "a Igreja trata da vida e de salvar vidas. A abordagem holística prega abstinência e fidelidade total".

Na Nigéria, o país mais populoso da África, o diretor da agência nacional antiaids, chamou a postura da Igreja Católica com relação aos preservativos de "irrealista". "Na realidade, muitos compreendem (o uso do preservativo), mas não querem ir contra a doutrina", explicou John Idoko, diretor da agência nigeriana de controle contra a aids.

Ele disse que no ano passado um grupo de católicos "fanáticos" levou sua agência, o Ministério da Saúde e uma agência de controle de drogas à Justiça por promover o uso de preservativos, alegando que distribuíam camisinhas com buracos e incentivavam a disseminação do HIV. O caso foi arquivado depois que os pleiteantes fracassaram em provar suas alegações.

Na África do Sul, país com o maior número de casos de HIV do mundo, a Igreja Católica e suas clínicas, abrigos, programas de cuidados domésticos e orfanatos se viram na frente de batalha do combate à aids.

Policiais montam guarda enquanto fiéis se reúnem para ver missa de papa em igreja em Cotonou, Benin
AFP
Policiais montam guarda enquanto fiéis se reúnem para ver missa de papa em igreja em Cotonou, Benin
No gabinete da Conferência dos Bispos Católicos Sul-africanos, a irmã Victoria explicou que o Programa de Educação para a Vida se baseia na promoção da abstinência. "Não somos permitidos a ensinar sobre os preservativos", afirmou. "Sexo é para o casamento. Tentamos encorajar a abstinência. Enfrentamos a realidade, mas precisamos dizer a verdade", afirmou.

*Com AFP, EFE e BBC

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