No Egito, apelo conservador transcende religião

Para muitos egípcios pobres, salafistas são uma alternativa às elites condescendentes e à Irmandade Muçulmana

The New York Times |

Os eleitores que participem de um comício político ultraconservador realizado por xeque islâmicos podem esperar uma convocação impiedosa por um controle religioso mais rígido - que proíba o álcool, crie restrições para as roupas das mulheres e corte as mãos dos ladrões.

Mas quando algumas centenas de homens se reuniram na semana passada em um beco entre prédios de concreto desta vila perto do Cairo, o que eles presenciaram foi um ataque populista contra a elite liberal do país.

"Eles pensam que são eles, e apenas eles, que nos representam e falam por nós", disse o xeque Shaaban Darwish por meio de altos falantes de pouca potência. "Eles não vêm para as nossas ruas, não vivem nas nossas aldeias, não andam nas nossas calçadas, não usam nossas roupas, não comem nosso pão de cada dia, não bebem nossa água poluída, não vivem no esgoto em que vivemos e não tem noção da vida miserável e sofrida do nosso povo."

"Irmãos", continuou ele, "nós, os salafistas, os fundadores do partido Al Nour, fazemos parte da maioria calada."

AP
Mulheres votam no 2º turno da eleição egípcia em Nasr City, um bairro do Cairo (05/12)

Dez meses depois dos movimentos populares derrubarem o ex-presidente Hosni Mubarak, a nova espécie de populismo religioso dos salafistas impulsionou o partido Al Nour e seus aliados a reivindicar mais de um quarto dos votos no primeiro turno das eleições parlamentares, surpreendendo até mesmo os mais experientes analistas egípcios e diplomatas ocidentais. Os salafistas ultrapassaram os liberais para emergir como o principal rival - ou como um potencial parceiro - da Irmandade Muçulmana, o grupo dominante islâmico cujo partido conquistou 40% dos votos e está posicionado para liderar o Parlamento.

Com o resultado disso, os liberais egípcios, israelenses e algumas autoridades ocidentais levantam suspeitas de que a revolução possa se tornar uma versão mais demorada de 1979, quando derrubaram o xá do Irã, um movimento popular que marcou o início de uma teocracia conservadora. Faltando duas rodadas de votos, os governantes militares do Egito já tentaram usar a desculpa da possível vitória Salafista para justificar a extensão de seu poder durante a elaboração de uma nova Constituição. E alguns liberais dizem que eles preferem o regime militar a um governo conservador islâmico. "Gostaria de ter do meu lado o conselho militar", disse Badri Farghali, um esquerdista que na semana passada ganhou um segundo turno contra um Salafi em Port Said, no nordeste de Cairo.

Um exame mais detalhado das campanhas salafistas, no entanto, sugere que seu apelo pode ter tanto a ver com a raiva contra a elite egípcia como com um assunto religioso específico. Os salafistas são uma coalizão de xeques, não um partido organizado com uma plataforma coerente, e todos os candidatos salafistas fazem campanhas para aplicar as leis islâmicas como o profeta Maomé fez. Mas eles também diferem consideravelmente sobre o que isso significa. Alguns querem dentro de alguns anos realizar punições como cortar as mãos dos ladrões, enquanto outros dizem que esse passo deve esperar pelo dia em que eles tiverem redistribuído a riqueza da nação de modo que nenhum egípcio passe fome ou não tenha lugar para morar.

Porém, mesmo sendo o único entre os grandes partidos daqui, os candidatos Salafi abraçaram a poderosa força do populismo que ajudou a unir o público contra o capitalismo da era Mubarak e às vezes parece imitar - com a frase "maioria calada" - movimentos de direita dos Estados Unidos e Europa.

"Estamos falando sobre a política de ressentimento, e é algo que partidos de direita fazem em todos os lugares", disse Shadi Hamid, diretor de pesquisa do Brookings Doha Center no Qatar. Eles prosperaram, disse ele, por causa da diferença entre a maioria dos egípcios e da elite - incluindo a liderança da Irmandade Muçulmana - tanto no estilo de vida e como em suas perspectivas. "Eles sentem que representam uma parte significativa do Egito", disse Hamid, "e que ninguém lhes dá o devido respeito”.

Muitos eleitores, incluindo alguns que não compartilham da moral puritana dos salafistas, dizem acreditar que os xeques irão compreender suas perspectivas. Os xeques, como a Irmandade Muçulmana, têm trabalhado por anos fazendo serviços sociais, incluindo comida de graça e medicamentos para pobres do Egito. "Eles serviram o povo, por isso faz sentido que estejam no Parlamento para servir mais", disse Yehia el-Sayed, 41, um funcionário de uma escola que fumava do lado de fora de um café em Port Said, uma cidade conhecida pelo seu liberalismo, mas onde os salafistas ultrapassaram os liberais em 20% dos votos.

Seus rivais da Irmandade Muçulmana - estão tão surpresos tanto quanto qualquer um com a popularidade dos Salafis - dizem que os xeques se beneficiaram de uma brecha na organização governamental.

Até a revolta contra o governo de Mubarak, os Salafis evitavam a política, argumentando que a lei deveria vir somente de Deus. Assim, o governo Mubarak permitiu que eles pudessem operar fora de mesquitas como uma alternativa em relação à Irmandade com fins mais políticos que foi proibida.

Muitos salafistas estavam a favor do governo Mubarak e pediram para que seus seguidores não aderissem aos protestos contra ele.

"Muitos de nós foram colocados na prisão", lembrou Akram El Shaer, membro da Irmandade. Médico e ex-membro do Parlamento, ele ganhou um assento no Port Said com o novo partido da Irmandade chamado de Justiça e Liberdade.

Mas o apelo dos salafistas também é muito diferente do da Irmandade. Dominado por profissionais de classe média como Shaer, os representantes da Irmandade muitas vezes lembram aos eleitores do que eles têm feito para as comunidades pobres. Mas eles raramente falam como parte dessas comunidades e pode soar um pouco arrogantes.

"Outros partidos costumam falar sobre as coisas com uma certa distância", disse Alaa El Bahaei, outro médico que tem seu nome sendo um dos primeiros da lista de candidatos Salafi em Port Said. "Mas falamos bem lá do meio da comunidade."

No comício aqui em Shabramant, apenas homens sentaram-se perante os alto-falantes. Em deferência às proibições de alguns salafistas sobre a mistura dos sexos, as mulheres que participaram ouviram através das janelas de um prédio adjacente. Alguns oradores falaram em banir mulheres de vestir shorts como uma meta a se atingir em poucos anos.

Às vezes, o xeque Darwish, principal orador, parecia argumentar que uma Constituição e as eleições eram ideias islâmicas derivadas da liderança do profeta Maomé. "O Ocidente aprendeu com a gente", disse. O Islã, segundo ele, exige a igualdade e liberdade religiosa para todos, seja muçulmano, cristão ou judeu.

Ele protestou contra a mídia egípcia liberal sobre as notícias contra os islâmicos e disse que os moradores dos bairros ricos do Cairo acreditavam que cada um de seus votos deveria valer o equivalente a uma centena dos eleitores que moram no Shabramant. "Será que o voto de uma pessoa com um Ph.D. não deveria valer a mesma coisa que o voto de uma pessoa com um certificado do ensino secundário?”

"Você, povo egípcio, você aceita isso? Algum de vocês aceita esse insulto? ", perguntou ele. "Essas pessoas não vivem conosco, não compartilham de nossa dor ou de nossas esperanças. E eles vão tentar mais uma vez, clonar um novo regime com novas figuras que não será o Hosni, mas que terá a mesma filosofia, a mesma democracia errônea, o mesmo capitalismo que não funciona e o mesmo liberalismo inútil. E depois da revolução não deveríamos aceitar nada além de uma verdadeira mudança."

Por David D. Kirkpatrick

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