Mortes de jornalistas revelam dificuldade de cobertura na Síria

Repórteres colocam sua vida em risco para conseguir dar testemunho mais pessoal sobre a sangrenta revolta na Síria

The New York Times |

O conflito na Síria se tornou, para os jornalistas, uma das tarefas mais difíceis e perigosas dos últimos anos, na qual pelo menos sete morreram enquanto cobriam a revolta que começou em março do ano passado.

Cobertura de risco:
- Premiado repórter do NYT morre de asma durante cobertura na Síria
-
Jornalistas ocidentais são mortos em Homs, na Síria

AP
Fotos mostram a jornalista americana Marie Colvin (E) e o fotógrafo francês Remi Ochlik. Os dois foram mortos na quarta e não há informações sobre onde estão seus corpos

A recusa do governo sírio, liderado pelo presidente Bashar al-Assad, em permitir que jornalistas estrangeiros circulem livremente por todo o país têm estimulado alguns a atravessar a fronteira pelo Líbano ou Turquia, correndo um grande risco pessoal.

Entre eles estavam  Marie Colvin, jornalista do Sunday Times, e Rémi Ochlik, fotógrafo francês, mortos em bombardeio na cidade de Homs , na última quarta-feira; e também Anthony Shadid, correspondente estrangeiro do The New York Times , que passou quase uma semana reportando secretamente de dentro da Síria e estava voltando para a Turquia quando desmaiou e morreu na quinta-feira passada, aparentemente de um ataque de asma. Ele viajava com Tyler Hicks, um fotógrafo do jornal.

Jornalistas da BBC, CNN, ABC, NBC, Al-Jazeera em Inglês e um pequeno número de outras organizações de notícias conseguiram entrar sem visto na Síria, como Shadid e Hicks tinham feito, e puderam testemunhar as batalhas desequilibradas entre o governo de Assad e a oposição composta por combatentes e cidadãos.

Ao longo do caminho, os jornalistas têm enfrentado uma combinação única de desafios, incluindo péssimos sinal de celular e conexão à internet, a ausência de uma clara linha de frente e a constante ameaça de ser capturado pelas forças de segurança leais ao governo sírio.

"Eu nunca vi nada igual a isso", disse Mark Whitaker, vice-presidente executivo da CNN, que possui duas equipes de reportagem trabalhando à paisana na Síria essa semana. Embora outros países tenham restrições à imprensa que são tão graves quanto as da Síria - Coreia do Norte, Irã, Mianmar - "não existem guerras acontecendo lá", disse Whitaker.

"Se você for parado em um posto de controle do governo, a sua viagem acabou, não apenas para você, mas para todos dentro do carro", disse Clarissa Ward, uma correspondente da CBS News, que fez um percurso semelhante ao de Shadid de entrar e sair do país pela Turquia esse mês. Clarissa, uma veterana de conflitos no Iraque, Afeganistão, Líbano, Faixa de Gaza e em outros lugares, disse: "Eu nunca tinha passado por nada parecido com o que presenciei na Síria."

Alguns jornalistas receberam a permissão para entrar na Síria através da sua capital, Damasco, mas eles relataram terem sido seguidos pela polícia secreta e proibidos de transitar por algumas regiões do país.

Bill Neely, um editor de internacional para a ITV News no Reino Unido, que pegou um voo saindo de Damasco na sexta-feira, disse ter ficado em uma "bolha de segurança" do governo durante uma viagem para Daraa, local onde as manifestações começaram. Quando "eu escapei da bolha para falar com as pessoas", disse Neely, "ficou claro que elas tinham medo de falar comigo."

Shadid se sentiu obrigado a entrar na Síria com a ajuda de contrabandistas pelas mesmas razões que outros jornalistas citados em entrevistas essa semana o fizeram: pelo ideal de que a matança generalizada e o sofrimento da região precisam ser documentados.

"É inacreditável. Eu sinto que ninguém de lá está dizendo a verdade hoje em dia", Shadid escreveu em um email para os editores do The New York Times enquanto eles decidiam se ele deveria voltar para o país. "Temos que conseguir mais detalhes."

Na primeira vez em que conseguiu entrar no país, em julho do ano passado, relatou sobre os ideais anti-governamentais e tensões sectárias na cidade rebelde de Homs. "Anthony fez a reportagem de Homs quando o resto de nós nem sequer sonhava com isso", disse Jon Williams, editor de notícias da BBC, que se juntou a outros para expressar suas condolências ao The New York Times na sexta-feira passada.

Williams disse que em toda a turbulência no Oriente Médio, que começou na Tunísia em dezembro de 2010, a Síria "é de longe a história mais perigosa que cobrimos". Embora existam muitos casos de assédio e violência contra jornalistas no Egito e na Líbia, "a intensidade com a qual o regime de Assad está agindo em lugares como Homs aumenta o risco exponencialmente", disse.

Quando o correspondente da BBC Paul Wood e seu cinegrafista Scott Fred atravessaram da Turquia para a Síria esse mês, Williams disse que insistiu para que viajassem com um empreiteiro que poderia também atuar como um paramédico "caso algo ruim acontecesse." Isso foi solicitado por causa da morte do cineasta Tim Hetherington na Líbia no ano passado. "Ele essencialmente sangrou até a morte porque ninguém que estava com ele sabia como estancar a hemorragia", disse Williams.

Algumas outras agências de notícias enviaram para Síria seguranças junto com suas equipes de notícias. Eason Jordan, que foi o chefe executivo de notícias da CNN até 2005 e ajudou a dar as coordenadas de segurança para redes de televisão presentes no Iraque, disse: "É certamente prudente ter alguém com experiência, inclusive a experiência em atuar como paramédico, no grupo de viagem, mas não é sempre prático fazer isso por razões de logística e por questão orçamentária."

Shadid e Hicks acabaram viajando sem um consultor de segurança. O The New York Times , por vezes, utiliza tais consultores, mas pesa cada situação individualmente.

Representantes de algumas agências de notícias, inclusive da Associated Press e da Reuters, não quiseram comentar sobre os métodos usados por seus funcionários para cobrir a Síria, citando preocupações com sua segurança.

Os perigos denunciados têm tido um efeito supressor sobre a cobertura da Síria, pelo menos nos Estados Unidos, onde não houve um aumento significativo na cobertura até a semana do dia 6 de fevereiro. Muitos programas de televisão e artigos veiculados dependem de informações de segunda mão - o que Shadid chamou de "relatórios remotos" em uma entrevista à NPR em dezembro do ano passado. Para alguns dos jornalistas envolvidos, essa tem sido uma experiência muito frustrante.

"Eu não gosto nem de pensar que o regime de Assad tem sido bem sucedido no seu cálculo cínico de que ao manter os jornalistas fora do país o mundo irá se esquecer do que está acontecendo por lá", disse Ward, da CBS News.

Executivos da CNN disseram que estão tentando concentrar toda a sua atenção no conflito da Síria porque anteciparam que, sem acesso fácil a imagens de qualidade, outros meios de comunicação iriam prestar menos atenção ao que está acontecendo. "Se pudéssemos ver o que que está acontecendo lá, como pudemos ver no Egito e na Líbia, esse evento estaria sendo a principal notícia todas as noites", disse Whitaker.

Ele e outros afirmaram que vídeos e reportagens profissionais são essenciais, mesmo numa época de forte presença das mídias sociais, quando vídeos amadores da violência que tomou conta da Síria podem ser vistos no YouTube e compartilhados no Twitter aparentemente quase todos os dias. "É algo muito desumano ver vídeos mal filmados colocados no YouTube e fotos que foram tiradas com celulares", disse Williams. Entrevistas feitas por jornalistas profissionais, por outro lado, "retratam a história de uma maneira mais viva para o público", acrescentou.

AP
Foto sem data mostra o cinegrafista francês Gilles Jacquier, morto em Homs, na Síria

Pesquisas de audiência feitas pela BBC mostraram um interesse abaixo da média pela história da Síria durante a maior parte do ano passado, segundo Williams, possivelmente pela falta de histórias feitas em primeira mão por jornalistas alocados no país. Nas últimas duas semanas, quando Wood e Scott da BBC foram escondidos até Homs e transmitiram escondidos o bombardeio do governo sírio na cidade, "eles registraram uma audiência substancialmente acima da média", disse Williams, reiterando em o valor que o jornalismo original possui.

Pelo menos outros quatro jornalistas morreram na Síria desde que o levante começou, de acordo com o Comitê de Proteção de Jornalistas, que não possui nenhum registro de mortes de jornalistas no país antes do levante. Segundo o grupo, cinco jornalistas e um assistente de mídia morreram na Líbia no ano passado e dois morreram no Egito, onde os jornalistas tiveram mais liberdade de locomoção.

Na Síria, um cinegrafista freelancer, Ferzat Jarban, foi encontrado morto no início de novembro. Seu corpo foi mutilado, de acordo com informações coletadas pelo grupo. Outro cinegrafista freelance, Basil al-Sayed, morreu no final de dezembro. Um repórter da televisão francesa, Gilles Jacquier, morreu em janeiro, durante uma viagem patrocinada pelo governo de Homs . Um repórter freelancer que trabalhava para a Agência France-Presse, o jornal The Guardian e outras publicações, Mazhar Tayyara, morreu em Homs no começo de fevereiro.

Cada uma das mortes foi acompanhada por alegações de que as forças de segurança da Síria estavam presentes, mas tais acusações são quase impossíveis de confirmar por causa da escassez de informações não tendenciosas vindas de dentro do país.

Por Brian Stelter

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