Lindiwe Mazibuko quer ser nova face política da Africa do Sul

Líder Aliança Democrática tenta tirar imagem elitista do partido enquanto enfrenta críticas sobre 'não ser negra o suficiente'

The New York Times |

Ela certamente tem raízes africanas, de seu nascimento no reino da Suazilândia, passando por uma de suas línguas nativas (o isiZulu) e chegando à cor jambo de sua pele. Mas para muitas pessoas, Lindiwe Mazibuko não é negra o suficiente.

Durante uma sessão parlamentar este ano, um ministro do governo local a chamou de “coco” por ser “branca por dentro e marrom por fora”. Um adversário político a descreveu como a menina do chá, ou servente, do líder do principal partido de oposição do país. Usuários do Twitter têm feito insultos raciais contra ela, chamando-a de “um peão no jogo” e de ingênua por aceitar este papel.

Leia também: Vida de 'flanelinha' atrai jovens da África do Sul

NYT
Lindiwe Mazibuko, primeira líder negra da Aliança Democrática no Parlamento, posa em seu escritório na Cidade do Cabo (14/12)

Até mesmo um membro de seu próprio partido foi citado dizendo que, se você fecha os olhos e escuta Lindiwe, "acha que uma pessoa branca está falando”.

Existe uma grande ambivalência em torno de Lindiwe, 31 anos, e ela representa o grande desafio que seu partido, a Aliança Democrática, tem pela frente para tentar lutar contra o Congresso Nacional Africano (CNA), atualmente no poder.

Lindiwe se tornou a primeira líder negra da convenção da aliança parlamentar, após uma votação feita internamente pelo partido em outubro. Ela é agora o rosto de um esforço para diversificar a liderança da legenda, para acabar com o estereótipo de um partido composto apenas pela elite branca da África do Sul e dar-lhe qualquer esperança de recuperar o poder do CNA, que conseguiu mais de 65% dos votos contra 16% obtidos pela aliança na última eleição nacional em 2009.

Lindiwe ainda continua sendo perseguida por críticos que dizem que a sua educação em uma escola particular e seu sotaque britânico são sinais de que ela está fora da realidade da maioria dos negros sul-africanos. Os críticos disseram que seu partido deu a Lindiwe a segunda posição mais poderosa, apesar de sua inexperiência, simplesmente porque ela era negra e poderia ajudar a expandir o seu apelo.

"Ela só irá conseguir atrair um determinado tipo de jovem negro e não todos os jovens negros", disse Baleka Mbete, a presidente do CNA. "Não acho que ela conquistaria o voto da maioria."

Mas o que adversários veem em Lindiwe como fraqueza, seu partido, apoiado por cerca de 5% dos negros sul-africanos, vê como um grande potencial.

Existe uma população de jovens eleitores negros criados em ambientes de classe média como Lindiwe, eleitores que falam como ela, nasceram depois do apartheid e poderão votar para presidente pela primeira vez apenas em 2014. A esperança da Aliança Democrática é que os eleitores não tenham os mesmos vínculos emocionais com o CNA que a faixa etária mais velha, por sua participação na luta contra o apartheid. Em vez disso, a aliança espera que os jovens negros busquem líderes como Lindiwe e vejam nela alguém que possa representar os seus interesses.

"A Aliança Democrática tem de lidar com o fato de que é vista como um partido de uma maioria branca e que está interessado em preservar o privilégio dos brancos", disse Sejamothopo Motau, um membro da aliança no Parlamento. "Sua liderança tem que refletir que o partido está indo além disso - que pertence a todos os sul-africanos. Por isso, ter Lindiwe como líder nacional é algo bastante significativo. "

No entanto, um dos críticos mais severos de Lindiwe é um membro de seu próprio partido, Masizole Mnqasela, um membro do Parlamento que escreveu uma carta há alguns meses para a líder da legenda, Helen Zille, dizendo que Lindiwe "não tem uma forte ressonância com o eleitorado negro e irá fazer com que nossos esforços para tentar atrair os votos dos negros sejam em vão".

Mnqasela, enfrentando acusações disciplinares no seu partido por causa dessas e de outras observações, foi mais favorável em uma entrevista, quando disse: "É uma oportunidade de termos um negro na liderança e, especialmente, uma mulher negra - é uma oportunidade única para o partido".

Helen, uma das maiores apoiadoras de Lindiwe, disse que é ridículo sugerir que Lindiwe só foi eleita por ser negra.

"Será que as pessoas não podem ser julgadas apenas por quem elas realmente são?" questionou Helen. "Ela é muito inteligente, muito capaz, extremamente articulada, ótima política e, sim, ela é negra."

Lindiwe tem se mantido forte enquanto enfrenta uma onda de perguntas sobre sua “negritude”, dizendo que ouve isso desde sua infância. Sugerir que todos os negros devem ser de uma certa maneira é um pensamento da época do apartheid, disse ela. Durante algumas de suas participações em programas de rádio, ela disse que muita gente telefonava exigindo que ela falasse Zulu.

"Me recuso a fazer isso", disse ela. "Não acredito que ser negro é como um prêmio que alguém pode te dar."

No pequeno reino da Suazilândia, situado entre a África do Sul e o Moçambique, o pai de Lindiwe era um banqueiro e proprietário de pequenas empresas, e sua mãe uma enfermeira.

Quando ela tinha 6 anos, seus pais se mudaram para a África do Sul, que apesar de ter que lidar com o racismo do apartheid oferecia oportunidades melhores.

Durante seis anos, Lindiwe viveu em Umlazi, uma área de negros, mas sua família continuou mantendo seu estilo de vida de classe média. Ela frequentou uma escola judaica, porque seus pais não conseguiram fazer sua matrícula em uma instituição católica. Todo dia 16 de junho, no aniversário do levantamento popular de Soweto, um protesto que ocorreu em 1976 contra o sistema de ensino do apartheid, os pais dela a escondiam quando passavam pelas manifestações.

Após a morte de seu pai, sua mãe levou a família para um bairro rico no norte de Durban, em 1992. Lindiwe foi estudar em um internato Anglicano.

A política nunca esteve muito presente em sua casa. Ela disse que votou no CNA quando era mais nova, porque "pensava que era isso que os negros faziam."

Sua tendência para entrar no mundo da política começou a surgir após a mudança para a Inglaterra para estudar canto lírico.

Os ataques de 11 de Setembro de 2001 fizeram com que ela ficasse perturbada pela maneira negativa com a qual os muçulmanos foram retratados. Parecia o racismo que tinha definido a política da Africa do Sul, disse ela, e as cruzadas dos católicos.

“Tudo isso me fez refletir e pensar nas coisas que eu poderia fazer no futuro", disse Lindiwe.

Ao mesmo tempo, ela observava a África do Sul de longe e começou a mudar seu ponto de vista a respeito do papel que o governo deveria ter na vida das pessoas.

Considerando que a vida na cidade a levou a acreditar que o governo precisava incentivar as pessoas, ela começou a adotar a visão de que o governo possibilita que as pessoas se ajudem.

Ela largou seus estudos de música para estudar jornalismo político. Enquanto trabalhava em uma pesquisa sobre Helen Zille para seu mestrado, Lindiwe percebeu que compartilhava ideias em comum com a líder do partido. Lindiwe acabou virando uma pesquisadora oficial da Aliança Democrática e em 2009 foi nomeada porta-voz nacional do partido e eleita para servir no Parlamento.

Quando fala sobre como pode contribuir com o partido, Lindiwe menciona sua idade, dizendo que ela lhe dá a capacidade de se comunicar de uma maneira diferente do que os veteranos do partido.

Quando disputou a vaga para líder parlamentar, ela contratou um estrategista de mídia e fez uma campanha pública. Foi a primeira vez que tal estratégia foi feita para uma eleição interna da aliança.

"Por causa disso, muitos parlamentares foram pressionados por seus próprios eleitores a apoiá-la", disse Ian Ollis, um membro da aliança no Parlamento que apoiou Lindiwe. "Pela primeira vez vimos círculos eleitorais telefonarem para membros do Parlamento dizendo: 'Quero que você vote em Lindiwe Mazibuko'".

Mas em suas publicações pelo Twitter, a política fica um pouco de lado e ela acaba falando mais sobre sua vida particular - o que está cozinhando para o jantar ou como penteou seu cabelo.

Quando uma usuária perguntou se ela deveria usar tranças ou cabelo preso, Lindiwe respondeu: "Tranças, assim você pode ir à praia neste verão", com a hashtag #soluçõesparagarotasnegras.

Por John Eligon

    Leia tudo sobre: áfrica do sulcnaapartheidLindiwe Mazibuko

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG