Lenda sobre general morto em 2001 reflete divisões no Afeganistão

País marca dez anos da morte de Ahmed Shah Massou, considerado herói pela população do norte e criticado por moradores do sul

The New York Times |

Em setembro, milhares de pessoas chegam à pequena aldeia afegã de Jangalak, às margens do rio Panjshir, como peregrinos a um santuário sagrado para comemorar a morte de Ahmed Shah Massoud, o herói mais célebre da resistência afegã.

Homens idosos com pernas fracas marcham com seus netos por um caminho sinuoso cheio de cartazes com retratos de Massoud: uma imagem que, com o tempo, ganhou as características de um pastor segurando um cordeiro. Eles recitam orações em seu túmulo de mármore preto e o circulam em adoração.

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Militares e civis participam de homenagem a Ahmed Shah Massoud em Cabul, no Afeganistão (09/09)

Homens mais jovens – jovens demais para ter lutado ao lado dele, mas que cresceram ouvindo contos sobre sua bravura contra os russos e, mais tarde, contra o governo do Taleban – descem de picapes com bandeiras pretas e pulam como se tivessem vencido todos os combates eles mesmos.

"Ele foi um herói, 100%", disse Mohammad Aslam, 68, um dos cerca de 50 mil devotos que foram até o túmulo no sábado (10), como parte de uma semana de festividades que marcam o 10º aniversário da morte do homem que muitos conheceram como o Leão de Panjshir.

Enquanto os americanos marcavam os dez anos dos ataques do 11 de Setembro de 2001, o povo do norte do Afeganistão lembrava do que para eles foi uma tragédia maior, dois dias antes, no 9 de setembro. Foi o dia em que dois agentes da Al-Qaeda, passando por jornalistas, detonaram uma bomba escondida em uma câmara de televisão durante uma entrevista com Massoud, matando-o instantaneamente.

Para seus assessores mais próximos, que primeiro tentaram manter sua morte em segredo, o colapso das torres do World Trade Center foi um sinal de esperança. Instintivamente, eles viram uma ligação entre os dois atos – embora isso nunca tenha sido provado – e souberam que os americanos logo estariam a caminho.

"Eu meio que acordei do choque em que estava desde 9 de setembro", disse Abdullah Abdullah, ex-ministro das Relações Exteriores da Aliança do Norte, sobre o momento em que ouviu a notícia dos ataques em Nova York. "Automaticamente me veio à mente que, desta tragédia, poderia haver uma abertura".

Uma década mais tarde, milhões de crianças, incluindo meninas, vão à escola; o acesso à saúde tem se expandido; as estradas melhoraram em muitos locais. Mas, em meio aos sinais de progresso, há também preocupações crescentes conforme as forças estrangeiras se preparam para a retirada. O Taleban continua a realizar ataques suicidas enquanto a confiança no governo do presidente Hamid Karzai, tomado pela corrupção, diminui.

Muitos dos ex-aliados de Massoud no norte, alguns dos quais têm lucrado com a grilagem de terras e investimentos em dinheiro que vieram após a invasão dos Estados Unidos, têm sinalizado resistência aos esforços de Karzai para negociar um acordo de paz com o Taleban. "Cavem as trincheiras, tragam a munição e vamos nos preparar para a próxima guerra civil", afirmou recentemente um diplomata ocidental.

Em meio ao tumulto, a lenda de Massoud só tem crescido, estimulando a especulação sobre o que poderia ter acontecido caso ele tivesse vivido. "Eu o amava porque ele sabia como se relacionar com as pessoas", disse Aslam. "Se ele ainda estivesse vivo, este país seria forte."

Hoje, retratos de Massoud não se limitam a esta vila, sua cidade natal. Eles adornam praticamente todos os escritórios do governo em Cabul, a capital afegã, estão nas janelas de táxis e ônibus, além de outdoors pela cidade.

Aqui em Jangalak, uma fundação batizada em sua homenagem construiu uma cúpula de mármore branco em torno de seu túmulo. A construção de uma biblioteca, um centro de estudos e um museu está em andamento, um tributo adequado a um guerreiro que falava francês, lia poesia e tinha uma biblioteca com mais de 3 mil livros.

Mas como tantas outras coisas no Afeganistão, as memórias de Massoud são temperadas por divisões étnicas e geográficas. Ele foi declarado herói nacional em 2002 e o dia 9 de setembro é um feriado nacional. Mas seus cartazes, tão presentes no norte do país, estão longe de serem encontrados no sul.

Da etnia Tajik, Massoud é lembrado por muitos no sul dominado pelos Pashtun pelos dias após a retirada soviética, quando ele e o governo Tajik não conseguiram unificar as tempestuosas facções mujahedeen que romperam antes que pudessem sequer comemorar sua vitória sobre o governo do presidente Mohammad Najibullah.

Com Massoud como ministro da Defesa e Burhanuddin Rabbani como presidente, Cabul se tornou o centro de uma guerra civil, conforme comandantes rebeldes antes unidos passaram a comandar cada um a sua própria milícia. Estima-se que 10 mil civis tenham morrido apenas em 1993, em comparação aos 2.777 no ano passado, um recorde desde que as tropas americanas chegaram ao país em 2001.

O caos abriu espaço para o crescimento do Taleban no sul do país, que até setembro de 1996 havia dominado Cabul, forçando Massoud e suas forças a fugir de volta para o Vale do Panjshir, o mesmo reduto isolado no alto das montanhas Hindu Kush de onde ele havia expulsado os russos.

"Sabemos que Massoud foi um grande homem", disse Hajji Ahmad Khan Muslim, um analista político e líder tribal no sul da cidade de Kandahar. "Mas nós temos muitos heróis nacionais no sul. Não é justo que apenas uma pessoa seja tratada como herói."

Ahmad Umaid, um comerciante de Kandahar, disse que não considera Massoud um herói. "Ele foi grande parte da guerra civil", disse Umaid. "Ele e outros senhores da guerra disparam foguetes contra Cabul, causando todas aquelas mortes entre civis."

No sul, Umaid não está sozinho em sua opinião.

Aqueles que estavam perto de Massoud afirmam que, se ele tivesse vivido, teria lutado por mais integridade e unidade no governo, talvez ciente de sua próprias falhas durante a guerra civil.

"Ele sempre dizia: Aqueles foram meus dias mais tristes", recordou Abdullah.

Por Ray Rivera

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