Documentos mostram mente paranoica de Saddam Hussein

Arquivo mostra que ex-ditador tinha grandes ambições para o Iraque, mas criava teorias conspiratórias e cometia erros de cálculo

The New York Times |

Em 15 de novembro de 1986, Saddam Hussein se reuniu com seus assessores mais experientes para uma importante reunião de estratégia. Dois dias antes, o presidente americano Ronald Reagan havia reconhecido em um discurso transmitido pela televisão que seu governo tinha enviado armas e peças de reposição para o Irã.

"Só pode ser uma conspiração contra o Iraque", disse Hussein, que inferiu que os Estados Unidos estavam tentando prolongar a guerra Irã-Iraque, já em seu sexto ano, e aumentar as já enormes baixas do seu país.

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Saddam Hussein assumiu a presidência do Iraque em 1979 e, no poder, entrou em guerra contra o Irã, conflito que deixou mais de 1 milhão de mortos
Na verdade, o governo Reagan tinha arranjado o carregamento de armas por uma variedade de razões que pouco tinham a ver com o Iraque: para garantir a libertação de reféns dos Estados Unidos no Líbano, para abrir um canal privado para os novos governantes em Teerã e gerar lucros secretos que poderiam ser enviados para os rebeldes que combatiam o governo nicaraguense. O caso ficou conhecido como Irã-Contras.

Mas Hussein não poderia ser dissuadido de sua visão conspiratória. Ele mencionou a venda de armas novamente em seu fatídico encontro em 25 de julho de 1990 com April Glaspie, o embaixador dos Estados Unidos em Bagdá, quando ele novamente não entendeu as intenções de Washington e assumiu que os Estados Unidos ficariam de lado quando o seu Exército invadiu o Kuwait uma semana depois.

As deliberações dentro do santuário de Hussein são narradas em um arquivo volumoso de documentos e reuniões gravadas que as forças dos Estados Unidos capturaram depois que invadiram o Iraque em 2003. Grande parte da coleção, que está em formato digital na Universidade da Defesa Nacional, ainda não é pública. Mas uma pequena parte do material foi aberto a pesquisadores de fora do governo e 20 transcrições e documentos foram liberados na terça-feira em conjunto com uma conferência sobre a Guerra Irã-Iraque, em Washington. Mesmo em uma época de WikiLeaks, tal registro detalhado das ruminações privadas de um líder estrangeiro – que revela seus cálculos e suas percepções da política do governo americano – raramente se torna público. Essa seria a versão iraquiana das gravações feitas no Salão Oval que ajudaram a derrubar o presidente Richard M. Nixon, e deram aos historiadores uma abertura para a Casa Branca de 1940-1973, quando um sistema de gravação funcionava no local.

No caso de Hussein, as transcrições mostram um líder que estava inclinado a ver inimigos em todos os lugares, que muitas vezes demonstrava uma compreensão superficial da diplomacia fora do Oriente Médio e que teve grandes ambições para seu país, mas estava propenso a erros de cálculo épicos.

Hussein subestimou tão gravemente as forças militares do Irã que ele supôs equivocadamente que os ataques aéreos feitos inicialmente na guerra tinham sido realizados por aviões israelenses. Ele selecionou pessoalmente quais foguetes usar em um ataque contra uma cidade iraniana e se gabou de que o Iraque tinha um arsenal de armas químicas que "exterminaria milhares". Ele se sentia ameaçado o suficiente pela ascensão da Irmandade Muçulmana e de outros grupos fundamentalistas que discutiu seu desejo de "fingir" para eles que o seu governo também endossava valores islâmicos. De uma perspectiva histórica, a decisão de Hussein de enfrentar o Irã e sua reação ao escândalo Irã-Contras são duas das áreas mais intrigantes nos documentos.

Hussein preparou o palco para a guerra com o Irã, repudiando um acordo de 1975 que tinha resolvido uma disputa sobre o Shatt al Arab, a hidrovia estratégica localizada ao longo da fronteira entre os dois países. De acordo com Amatzia Baram, um israelense especialista no Iraque, que tem estudado os arquivos, a decisão crucial parece ter sido tomada em uma reunião de 16 de setembro de 1980, quando Hussein teve a visão otimista de que os iranianos, temendo as forças iraquianas concentradas perto da fronteira, desistiriam sem muita luta.

Um relatório secreto do Diretório Geral de Inteligência Militar do Iraque apoiou a avaliação otimista de Hussein. "Está claro, neste momento, que o Irã não tem poder para lançar uma ampla gama de operações ofensivas contra o Iraque ou se defender em grande escala", observou o relatório. Ele também previu "mais deterioração da situação geral da capacidade de combate do Irã". Mas a guerra, que durou oito anos e gerou centenas de milhares de vítimas, acabou por ser muito mais difícil do que Hussein esperava. Logo depois que começou, aviões iranianos bombardearam uma série de alvos, incluindo refinarias de petróleo do Iraque e sua usina nuclear conhecida como Osirak, localizada ao sul de Bagdá. A façanha surpreendeu os iraquianos de tal maneira que eles assumiram que o ataque não poderia ter sido feito pelo Irã.

"Isso é coisa de Israel", exclamou Hussein em uma reunião em 1º outubro de 1980. Em seguida, ele se queixou de que as autoridades iraquianas não seguiram a sua sugestão para enterrar as instalações nucleares sob as Montanhas Hamrin, ao norte de Bagdá, antes de aprovar um plano para fortalecer o complexo com milhões de sacos de areia. Mas aqueles sacos de areia mostraram pouca utilidade quando aviões israelenses realmente atacaram o local no mês de junho.

Mais tarde, Hussein disse que não estava surpreso que Israel se sentisse ameaçado pelo Iraque, que afirmou que emergeria com triunfo sobre o Irã com uma força militar mais forte do que nunca. "Uma vez que o Iraque sair vitorioso, não haverá Israel", disse ele em uma conversa gravada em 1982. "Tecnicamente, eles estão certos em todas as suas tentativas de prejudicar o Iraque".

À medida que a guerra do Iraque com o Irã continuava, Hussein não hesitava em dar conselhos sobre o campo de batalha, apesar de seu conhecimento instável sobre armas e táticas. "Vocês têm canhões que podem explodir e cair sobre eles enquanto estiverem nas ruas?", perguntou ele em uma reunião de 1º de outubro de 1980, discutindo o bombardeio de Abadan, uma cidade localizada no sul do Irã. "Queremos que suas baixas sejam elevadas".

Ele era muitas vezes cordial com seu grande círculo de bajuladores, mas era capaz de demonstrar grande frieza de cálculos sobre as tropas que havia enviado para a guerra.

No início do conflito, Hussein estava frustrado com os pilotos de bombardeiros iraquianos que, prejudicadas pela pouca inteligência obtida, tinham voltado de missões sobre o Irã depois de não conseguir atingir os seus alvos. Decidido a fazer dos pilotos um exemplo, Hussein exigiu que eles fossem executados, uma prática que ex-comandantes iraquianos dizem ter sido comum durante a guerra.

O caso Irã-Contras se mostrou particularmente amargo para Hussein e seus assessores, e eles lutaram durante semanas para compreendê-lo. Entre outras coisas, eles não conseguiam entender por que o governo Reagan tinha tomado uma ação militar contra a Líbia em 1986, mas agora estendia a mão ao Irã, já que o Irã, disse Hussein, "desempenha um grande papel no terrorismo."

"Estou tentando entender exatamente o que aconteceu aqui", disse Hussein. Tariq Aziz, seu ministro do Exterior e a face do Iraque ao mundo por muitos anos, observou, talvez em tom de brincadeira, que o Iraque tinha apoiado a independência de Porto Rico.

Mas Hussein disse que algo mais importante do que Porto Rico estava em jogo: a luta pela influência no volátil Oriente Médio. "Eles gostam mais dos iranianos do que de nós", disse Hussein. "Eles não gostam deles porque eles são mais agradáveis do que nós, ou porque eles são melhores do que somos. Eles só gostam deles porque eles podem ser pegos na rua com facilidade, ao contrário de nós", acrescentou, comparando os iranianos a prostitutas de rua.

Apesar de sua desconfiança dos Estados Unidos, Hussein também temia que a União Soviética quisesse manter a guerra Irã-Iraque para distrair o Irã de ajudar grupos muçulmanos que combatiam no Afeganistão e nas repúblicas soviéticas. Em uma gravação dos anos 1980 sem data exata, Aziz rejeitou Javier Perez de Cuellar, antigo secretário-geral das Nações Unidas, como uma ferramenta dos Estados Unidos. "Quero dizer, ele tem vivido em Nova York nos últimos 15 a 20 anos, talvez", disse Aziz – "e essa é uma cidade judaica”.

Hal Brands, professor assistente na Universidade Duke, que estudou os arquivos, disse que a própria ascensão de Hussein ao poder, produto de anos de disputas internas do partido Baas, provavelmente influenciou sua visão dos outros países. "Ele chegou ao poder através de meios conspiratórios e tendia a assumir que todos operam dessa forma", disse Brands.

A noção de que Israel e o Ocidente tinham unido forças para minar seu governo persistiu após o fim da guerra Irã-Iraque. Em 1990, o próprio Hussein interveio para garantir a execução de Farzad Bazoft, jornalista iraniano que se tinha se estabelecido no Reino Unido e trabalhava para o The Observer, um jornal britânico. Bazoft estava investigando uma misteriosa explosão em um complexo militar ao sul de Bagdá quando as autoridades iraquianas o prenderam e acusaram de espionagem para Israel. O caso chamou a atenção de todo o mundo e o governo britânico pediu clemência. Hussein não se abalou. Informado de que levaria um mês para o processo legal iraquiano ser concluído, ele assumiu o comando da questão.

"Um mês inteiro?", Exclamou. "Eu digo que nós o executaremos no Ramadã e esta será a punição por Margaret Thatcher."

Bazoft foi enforcado em 15 de março de 1990, seis meses depois de sua prisão e pouco antes do início do Ramadã. Em resposta, o Reino Unido retirou seu embaixador do país. Cinco meses depois, as forças iraquianas invadiram o Kuwait.

Por Michael R. Gordon

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