Coreia do Norte tenta fomentar turismo com cruzeiro marítimo

Em navio antigo com cabines para até oito passageiros cada, governo inaugura viagem pela costa do país para atrair estrangeiros

The New York Times |

Anunciado como um navio de cruzeiro, o norte-coreano Mangyongbong, de 40 anos, que partiu da remota cidade de Rajin, mais parecia uma balsa. Com a sua cabines apertadas e sujas, salas de banho sem água, ele não estava apto a competir na indústria do lazer.

Mas ele não precisa. Como o mais recente empreendimento da Coreia do Norte nos negócios de turismo, o Mangyongbong não precisa se preocupar com a concorrência. O truque, como os seus operadores admitiram, será atrair turistas o suficiente.

AP
Visitantes relaxam em um campo de golfe em resort no Monte Kumgang, conhecida como Montanha de Diamante, na Coreia do Norte

Desesperados por moeda estrangeira, oficiais de uma sigilosa Coreia do Norte estão tentando atrair turistas para cruzeiros de férias ao longo da empobrecida costa leste do país. No início desse mês, uma viagem realizada com o enferrujado Mangyongbong foi concluída em 43 horas no mar. Mais de 200 viajantes foram acondicionados em cabines escuras e mofadas, com às vezes até oito por cabine. Turistas chineses e empresários compartilharam cabines com oficiais norte-coreanos e jornalistas estrangeiros.

O cruzeiro inaugural, presumivelmente, tinha o apoio de Pyongyang. O organizador, Taepung Investment Group International, atua sob a Comissão de Defesa Nacional, que responde diretamente ao líder norte-coreano, Kim Jong Il.

"Eu amo a paz e a península coreana", disse Park Chol Su, presidente da Taepung, sentado no convés do Mangyongbong. "Nossa empresa simboliza a paz. Podemos até mesmo contratar americanos."

O governo norte-coreano pode ser um dos mais paranóicos e herméticos do mundo, mas ele vê o turismo como uma indústria que desempenha um papel cada vez mais importante na sua economia. O turismo está isento das sanções econômicas impostas ao país pela ONU para pressionar Kim a abandonar seu programa de armas nucleares, e tem crescido nos últimos anos, conforme estrangeiros se esforçam para obter um vislumbre desse país.

É difícil obter estatísticas confiáveis sobre o número de turistas, mas uma fonte bem relacionada na indústria estima que mais de 24 mil estrangeiros visitaram o país no ano passado, mais de 80% deles da China. Houve recentemente duas carreatas em que chineses dirigiram seus próprios carros até a Coreia do Norte.

Os críticos dizem que o dinheiro do turismo ajuda a sustentar um regime repressivo. Mas os defensores do engajamento afirmam que a indústria ajuda a abrir o país a influências externas e que a receita poderia ajudar coreanos comuns a passar pelas dificuldades atuais.

"O turismo foi um dos principais fatores que permitiu que Cuba enfrentasse a final do sistema soviético depois da Guerra Fria", disse John Delury, um historiador da Universidade Yonsei, em Seul que observa as relações entre as duas Coreias e a China. "É claro que a Coreia do Norte não pode rivalizar com a Cuba tropical como destino turístico, mas aceitação de Pyongyang de visitantes estrangeiros é um sinal positivo de vontade de integrar mais plenamente com o mundo exterior."

Para os ocidentais, o Festival Arirang, em que são realizadas performances em massa em Pyongyang, é a principal atração ao país, enquanto chineses preferem fazer viagens curtas para o outro lado da fronteira. Mas as autoridades norte-coreanas estão claramente tentando apelar para viajantes mais ricos com o novo programa de cruzeiros. Park disse que espera levar europeus na próxima viagem, possivelmente em outubro. Ele também afirmou que pretende conseguir um barco maior.

O primeiro cruzeiro teve início no dia 29 de agosto, quando Park levou dezenas de estrangeiros da fronteira com a China a nordeste Rajin, a cidade portuária que Pyongyang designou como uma zona de livre. Alguns dos visitantes pagaram cerca de US$ 470 para a viagem de cinco dias, que incluiu vários dias em terra. Outros viajaram gratuitamente porque eram amigos de Park, que é um cidadão chinês. Muitos dos chineses eram donos de agências de turismo e Park, assim como as autoridades norte-coreanas, estavam tentando encorajá-los a promover o turismo no país.

Guias bilíngues do governo foram colocados nos ônibus de turismo. Um afável jovem de 25 anos de idade, Mun Ho Yong, contava fatos sobre seu país em inglês: "Em 1950 houve uma guerra, a Guerra da Coreia, iniciada pelos Estados Unidos". Agora, disse ele, a Coreia entrou na fase da "construção socialista universal".

Em Rajin, uma cidade de estradas de terra e blecautes ocasionais, os guias mantiveram o programa, primeiro levando seus convidados para tirar fotos do imponente do fundador da Coreia do Norte, Kim Il Sung, e, em seguida, a um teatro para assistir crianças que apresentaram peças patrióticas. Naquela noite, os visitantes participaram de um banquete onde o vice-prefeito, Hwang Nam Chol, fez um brinde a Park por organizar o cruzeiro.

"Não tem sido fácil", disse Hwang. Os dois então cantaram uma canção de karaoke glorificando Kim Il Sung.

Mas foi no dia seguinte que as festividades realmente tiveram início. No porto, onde navios transportando carvão partem para Xangai, oficiais em ternos escuros alinhados ao longo de um tapete vermelho deram as boas-vindas. Então veio o som da música dedicada a – quem mais? – Kim Il Sung. Confete foi jogado ao ar e cerca de 500 estudantes e trabalhadores em uniformes agitaram bandeiras e flores de plástico, enquanto o barco deu uma guinada e partiu do cais.

O Mangyongbong foi usado como navio de carga desde 1992, mas antes disso ele serviu como uma balsa de passageiros norte-coreanos residentes no Japão. Suas famílias foram retiradas à força para o Japão durante a ocupação da Coreia (1910-1945), e décadas depois, eles usaram a balsa para visitar parentes em sua terra natal.

O litoral da Coreia do Norte não pode ser visto em grande parte da jornada de 21 horas ao sul. Não houve entretenimento. Passageiros chineses usaram baralhos de cartas. Hwang, o vice-prefeito, passando de um terno azul-marinho a uma camisa pólo verde optou por beber cervejas com estrangeiros no convés superior. Um americano perguntou se havia alguma chance do navio entrar em águas internacionais e encontrar navios de guerra.

"Você está na Coreia do Norte aqui", disse Hwang. "Você está completamente seguro. Os militares norte-coreanos irão proteger você."

O jantar se assemelhou a uma refeição em um refeitório de uma base do Exército americano no Iraque: bandejas de metal, lâmpadas fluorescentes, cubos de frango e pepino. As garçonetes jogaram os restos ao mar. O vento soprava pedaços de lixo de volta para o convés.

Na manhã seguinte, o barco parou no porto do parque natural do Monte Kumgang, não muito longe da fronteira com a Coreia do Sul. O dia e a noite passados lá envolveram caminhadas, um show de acrobacias e um vídeo sobre o local para encorajar empresários chineses a investir no parque. O governo sul-coreano proibiu seus cidadãos de viajarem para lá desde um tiroteio fatal em 2008. "Agora estamos em uma zona militar, se você ficar para trás, você leva um tiro", disse Mun, aparentemente brincando, quando o ônibus parou em uma praia rochosa.

O hotel tinha uma quadra de tênis e um bar, e os visitantes foram levados a um campo de golfe bem aparado. Havia ali até mesmo uma lojinha de presentes no melhor estilo norte-coreano, que vendia entre outras coisas, uma versão caseira de Viagra (ingrediente principal: chifre de alce).

A viagem de volta demorou 22 horas. Depois de um almoço de macarrão instantâneo, o porto de Rajin apareceu à distância. "Nós admitimos que temos muitas falhas a superar", disse Park.

Os passageiros olharam para os ônibus esperando para levá-los de volta à China. "Uma viagem dessa é o suficiente para uma vida", disse alguém. O navio se aproximou lentamente do cais.

Depois, houve um grande barulho e o Mangyongbong estremeceu. "É como o Titanic", gritou um homem chinês. Pessoas gritaram e apontaram para o píer de concreto – o navio bateu direto nele, amassando a frente do casco e reduzindo um canto da estrutura a uma pilha de escombros. O capitão, ao que parecia, estava tão ansioso quanto todos os outros para voltar para a terra firme.

Por Edward Wong

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