Com suspeita, chineses aguardam relatório sobre acidente de trens

Sobreviventes culpam corrupção de Ministério das Ferrovias por choque de trens que deixou 40 mortos e 191 feridos em julho

The New York Times |

Quando um trem em alta velocidade bateu na traseira de um segundo trem em 23 de julho em um viaduto nas margens de Wenzhou, cidade costeira do leste chinês, o impacto causou a Chen Lihua, 38, pai de dois filhos, oito costelas e um joelho quebrados e um pulmão perfurado. Seu irmão morreu de ferimentos na cabeça.

Essas foram as lesões. Os insultos vieram depois. Chen disse que perdeu cerca de US$ 6 mil em dinheiro e outros pertences no acidente. O Ministério das Ferrovias lhe pagou apenas US$ 35.

Ele pediu para ser transferido de um hospital em Wenzhou para um melhor em Fuzhou, sua cidade natal. Em vez disso, o ministério o levou a um lar para idosos, onde ele não recebe nenhum tratamento médico, apesar de contínuos problemas em seu pulmão, dores nas costas e outras doenças causadas por conta de ferimentos.

"Quero chorar, mas não tenho mais lágrimas", disse. "Nossa família já perdeu alguém no acidente. Como eles podem nos tratar assim?"

Quase dois meses depois do acidente ferroviário que deixou 40 mortos e 191 feridos, um painel de investigação do governo está preparando um relatório sobre o desastre, que deverá ser divulgado neste mês. Mas os feridos e sobreviventes desse acidente dizem que já chegaram a suas próprias conclusões.

O Ministério das Ferrovias que, segundo eles, tem uma longa história de corrupção, não se preocupou com a segurança do trabalho, prejudicou as tentativas de resgate, tentou esconder a extensão de suas falhas e mostrou desprezo com as vítimas.

Com 2 milhões de funcionários, o ministério é, talvez, o quarto maior empregador do mundo, atrás apenas da rede de supermercados Wal-Mart. Sua força de trabalho corresponde a todo o governo federal dos Estados Unidos, excluindo os militares e trabalhadores dos correios.

O ministério possui as ferrovias que regula, um conflito interno que os críticos dizem estimular a corrupção e colocar em perigo a segurança em nome do lucro – além de dificultar a prestação de contas.

Seus dados de segurança não são divulgados publicamente. O ministério tem o seu próprio sistema tribunal e, até recentemente, sua própria força policial.

Há décadas o governo debate a divisão de negócios do ministério e suas funções reguladoras. Mas usando sua influência como motor de transporte do carvão do país – e agora, como o desenvolvedor do transporte em alta velocidade, uma das joias tecnológicas e industriais da China –, o ministério das ferrovias tem habilmente evitado qualquer reforma.

"O ministério é um monstro, uma agência metade governamental, metade uma empresa com fins lucrativos", disse Zhang Kai, um advogado de Pequim que enfrenta o ministério. "Ele pode optar por se comportar como quiser."

*Por Sharon Lafraniere

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