Aldeia no Iêmen 'aceita' dificuldades impostas pela crise

Moradores de Senna se dizem acostumados com a guerra e resistem à pobreza e à falta de energia elétrica

The New York Times |

Em Senna, aldeia de pedra no cimo das montanhas que cercam a capital do Iêmen, Sanaa, os moradores fazem o que podem. A empresa estatal que normalmente distribuia gás de cozinha raramente fornece o produto agora. Mesmo quando isso acontece, o preço é impraticável. Dias se passam com apenas algumas horas de eletricidade.

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Moradores sentam sob a sombra em Senna, vilarejo de Iêmen

Perguntada sobre como sua família sobreviveu, Miriam al-Mata, 25, uma dentre dez filhos, não se abalou e apontou para fora da janela de vitral colorido, comum nessa região, para um forno de alumínio. Ali é onde queimam as pilhas de madeira espalhadas pelo pequeno quintal. "Usamos métodos antigos para cozinhar", disse ela, sentada em uma pequena sala de estar com almofadas finas espalhadas pelo chão.

Durante meses, o Iêmen tem estado à beira do caos, desde que o presidente Ali Abdullah Saleh recusou-se a entregar o poder depois que milhares de manifestantes se reuniram em todo o país para pedir a sua saída como parte da Primavera Árabe. Agora a deterioração do país parece ter superado a sua paralisia política, e, em qualquer outro país, isso já teria acontecido. Mas os iemenitas têm cuidado de si mesmos ao longo de muitas gerações, e os moradores se adaptam.

Manifestantes contrários ao governo ainda tomam conta das ruas. Unidades militares – divididas entre partidários e opositores de Saleh – mantêm sua artilharia no topo das montanhas que circundam Sanaa. Enquanto isso, Saleh está na Arábia Saudita se recuperando de um ataque a bomba que atingiu o palácio presidencial em junho e ninguém sabe quem está governando o país.

Mas em grande parte do Iêmen, mesmo antes da crise, havia pouca eletricidade. O padrão de vida é tão baixo que, em tempos difíceis, poucos luxos podem ser tirados dos moradores. Já acostumadas com a pobreza, com as guerras tribais e com um Estado fraco, os iemenitas não dependem do governo e em vez disso criam sua própria ordem social. Há muito tempo eles aprenderam a lidar com tudo. A sua história é de resistência.

"Os iemenitas vivem em qualquer situação", explicou Ali al-Mata, 33. "Eu acho que os iemenitas estão acostumados com a guerra há muito tempo."

Nos últimos meses, os iemenitas esperam por horas, às vezes dias, para encher os tanques de seus carros com gasolina. Apesar de alguns combates terem irrompido nos gasodutos, a violência tem sido relativamente escassa, dada a percentagem da população que está armada. Os inconvenientes são aceitos.

Na capital, os moradores enfrentam engarrafamentos intermináveis causados por postos de controle militar, pela falta de agentes da polícia de trânsito e pelos persistentes protestos. Tudo isso é aceito e há pouca coisa que se possa fazer. Quando a eletricidade acabou, Ali deu de ombros, "usamos velas".

Ainda assim, a crise atual fez com que os iemenitas tivessem que aceitar as dificuldades da vida ainda mais do que antes. O patriarca da família al-Mata, também chamado Ali, disse que a atual crise do Iêmen é a pior que presenciou em seus 60 anos, incluindo a guerra civil de 1994, porque as dificuldades econômicas daquela época não foram tão graves.

"É a maior crise que já tivemos. Os preços subiram muito", disse Al-Mata ao cuidar de cabras na pequena propriedade da família. A barba grisalha pontilhava seu rosto e sua pele tinha uma aparência de couro causada por anos ao sol. "Nós nos sentamos aqui", disse. "Nós simplesmente aceitamos."

Al-Mata tem dez filhos. Outros dois morreram no momento do nascimento. Dois filhos são soldados no exército. Uma, é uma professora na aldeia. O resto vende produtos da família – khat, amêndoas e damascos – perto da muralha que cerca o centro de Sanaa. Para eles, como é comum no Iêmen, o dinheiro é compartilhado em toda a família. É uma tradição que fornece um mecanismo especialmente necessário agora.

Ali, o filho, que tem ensino médio, diz que não consegue encontrar trabalho. Ele costumava trabalhar na construção de imóveis em Sanaa, onde famílias ricas estavam construindo casas novas. As construções entraram em colapso anos atrás, disse. Em seguida, ele tentou encontrar um emprego no turismo.

"Eu procurei muito", disse. "Mas eu não encontrei um emprego." Então, ele ajuda a sua família como pode. Mas, geralmente, passa o dia com amigos na aldeia, disse.

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Ali al-Mata caminha por um beco na aldeia de Senna, no Iêmen
Al-Mata está convencido de que a guerra seria a única solução para o atual impasse político. "Ele não vai desaparecer com uma solução política", disse. A aldeia já sentiu o gosto da guerra.

Depois do ataque a bomba contra o palácio presidencial em junho, apoiadores de Saleh no exército usaram morteiros de uma base no penhasco acima de Senna, visando à residência do principal rival político de Saleh, Hamid al-Ahmar, que mora nas proximidades. Dois morteiros caíram sobre a aldeia, embora ninguém tenha ficado ferido.

"Todo mundo na minha casa correu para o andar térreo e se escondeu lá", disse Ali, o filho. "Tínhamos medo de que os Ahmars, que dispararam da base, estivessem subindo a caminho da nossa aldeia."

"Você pode ver Sanaa inteira daqui", disse. "E também ver toda a guerra em Sanaa."

Enquanto falava, tiros esporádicos ecoavam à distância, talvez de uma festa de casamento, como Ali estava convencido, ou de confrontos aleatórios, que acontecem com frequência atualmente.

Embora indesejável, a perspectiva de guerra também é tratada como outra parte da vida aqui. Na casa, sua irmã descreveu o dia em que o fogo de artilharia atingiu a aldeia como "aterrorizante".

Mas ela diz que a ameaça de guerra não faz com que ela viva em constante medo. Em vez disso, ela descartou essa noção de maneira tipicamente iemenita. "Pare com isso", ela disse, brincando. "Estamos acostumados com isso. Agora é algo normal."

Por Laura Kasinof

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