Afegãs escapam de casamento forçado, não de açoite

Costumes ignoram proibição a casamentos de menores de 16 anos e a açoitamento; em 43% das uniões, noivas têm menos de 18 anos

The New York Times |

As duas meninas tinham motivos para esperar que a lei estaria a seu lado quando um policial de um posto de fiscalização parou o ônibus no qual se encontravam. Disfarçadas com roupas de meninos, as garotas de 13 e 14 anos estavam em fuga havia dois dias por estradas empoeiradas e por passagens através de montanhas para escapar de casamentos forçados ilegais com homens muito mais velhos, e haviam chegado à província relativamente liberal de Herat.

Mas, em vez disso, o agente policial que as localizou ignorou suas súplicas e imediatamente as enviou de volta a uma remota vila da Província de Ghor. Lá elas foram publicamente açoitadas por terem ousado fugir de seus maridos. Seus torturadores, que gravaram o abuso em vídeo, não eram da milícia islâmica Taleban, mas mulás locais e o senhor da guerra que controla o distrito onde as meninas vivem.

Nenhuma das duas se acovardou visivelmente diante do espancamento e, após a violência, deixaram o local com a cabeça erguida. Simpatizantes das vítimas contrabandearam vídeos do açoite até a Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão, que divulgou as imagens em 28 de maio, depois de fracassar em pedir ação por parte do governo.

O destino das jovens noivas ilustra uma desconfortável verdade. O que na maioria dos países seria considerado um delito criminoso é, em muitos locais do Afeganistão, uma norma cultural, que o governo tem sido incapaz ou indisposto de mudar de maneira eficaz. 

Segundo um estudo da Unicef, realizado entre 2000 e 2008, as noivas em 43% dos casamentos afegãos são menores de 18 anos. Embora a Constituição afegã proíba o casamento de meninas com menos de 16 anos, costumes tribais geralmente aceitam o casamento uma vez que a puberdade seja atingida, ou mesmo mais cedo

O açoitamento também é ilegal. O caso de Khadija Rasoul, de 13 anos, e de Basgol Sakhi, de 14 anos, da aldeia de Gardan-I-Top, no distrito de Dulina da Província Ghor, região central do Afeganistão, foi notável por causa do fracasso das autoridades em fazer alguma coisa para proteger as meninas, apesar de ter tido oportunidade para tanto.

Forçadas ao casamento como troca - cada garota foi entregue a um idoso da família da outra - Khadija e Basgol reclamaram que seus maridos as espancaram quando elas tentaram resistir à consumação do matrimônio. Vestidas como meninos, elas escaparam e conseguiram chegar até a Província de Herat, onde elas foram detidas após seu ônibus ter sido fiscalizado.

A polícia entrou em contato com o antigo senhor de guerra, Fazil Ahad Khan, a quem autoridades da Comissão dos Direitos Humanos descrevem como autoproclamado comandante e fiscalizador das morais e bons costumes de sua província no distrito de Ghor, para quem as meninas foram entregues.

Após um julgamento instantâneo realizado por Khan e líderes religiosos, de acordo com o relatório da comissão, as meninas foram condenadas a 40 açoites cada uma em 12 de janeiro. 

O mulá, com aprovação de Khan, administrou a punição com uma chibata de couro, que pareceu usar com tanta força quanto possível, atingindo cada garota sucessivamente sobre as pernas e nádegas com um ruidoso barulho. Suas pesadas burcas de inverno foram erguidas sobre a cabeça para que apenas suas saias cubrissem a área agredida.

Os espectadores foram homens armados vestindo uniformes camuflados, e pelo menos três deles gravaram a cena abertamente. Nenhuma mulher esteve presente.

"Fiquei chocado quando assisti ao vídeo", disse Mohammed Munir Khashi, investigador da comissão. "Achava que no século 21 esse tipo de coisa não acontecia neste país. É algo desumano e ilegal."

A parlamentar Fawzia Kofi disse que o caso pode ser chocante, mas está longe de ser o único. "Tenho certeza de que há casos piores das quais nem sabemos", disse. "O casamento precoce e forçado é a forma mais comum de comportamento violento contra meninas e mulheres."

Dois anos antes, no distrito de Murhab, duas meninas que haviam sido vendidas em casamento para a mesma família fugiram após serem vítimas de abusos, segundo um relatório da Comissão de Direitos Humanos. Mas elas se perderam, foram capturadas e devolvidas à força. Seu pai - mulá da aldeia - as levou para o alto da montanha e as matou.

* Por Rod Nordland and Alissa J. Rubin

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