'Cidade fantasma' nos EUA atrai imigrantes em busca de espírito empreendedor

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Na contramão de municípios que rejeitam imigrantes, Dayton oferece incentivo a famílias e consegue dar vida a antigo cenário pós-apocalíptico de casas abandonadas

NYT

Para lutar contra a devastação do declínio industrial, a cidade de Dayton, Ohio, nos EUA, adotou há dois anos um novo plano para reviver sua economia e seu ânimo: tornou-se um imã de imigrantes.

Conheça a nova home do Último Segundo

NYT
A família Akhmedov, que se mudou de Atlanta no ano passado, em sua casa em Dayton, Ohio

Como forma de ajudar a melhorar o emprego e deter a queda populacional, o conselho municipal aprovou um programa para atrair novos estrangeiros e encorajar os que já estão aqui, tornando a cidade “amiga dos imigrantes”.

EUA: Imigrantes ignoram barreira legal para encontro em cerca na fronteira

Mudança: Fronteira com México muda enquanto EUA buscam reforma

No norte de Dayton, onde até recentemente via-se o cenário pós-apocalíptico de casas abandonas, hoje moram 400 famílias turcas, muitas vindas de outras cidades americanas. As cercas brancas, telhados novos e varandas recém-pintadas são sinais de uma rápida renovação urbana promovida pelos imigrantes, um casa de cada vez.

“Queremos investir nos lugares onde somos melhor aceitos. E somos bem aceitos em Dayton”, afirmou Islom Shakhbandarov, um líder dos imigrantes turcos.

Outras cidades em dificuldades estão tentando voltar a crescer atraindo imigrantes empreendedores, tanto trabalhadores altamente qualificados como mão-de-obra para tarefas mais simples. No meio-oeste, iniciativas similares começaram recentemente em Chicago, Cleveland, Columbus, Indianapolis, St. Louis e Lansing, assim como em Detroit, que se esforça para se reerguer após a falência.

Em junho, autoridades dessas e outras cidades se encontraram em Detroit para lançar uma rede comum. “Quermos de volta o espírito empreendedor que os imigrantes trazem”, disse Richard Herman, um advogado em Cleveland que aconselha as cidades sobre o desenvolvimento baseado na imigração.

NYT
Mulher entra em sala de aula onde a palavra "bem-vindo" é colocado em cartaz em turco, inglês e espanhol em Dayton, Ohio

A atual receptividade aos imigrantes reflete uma mudança mais ampla na opinião pública, mostram pesquisas, enquanto o país deixa para trás o pior da recessão. Mais americanos concordam que os imigrantes, mesmo os que estão ilegalmente no país, ajudam a economia. Essa visão dá ímpeto aos esforços do Congresso para reformar o sistema de imigração, que muitos dizem estar equivocado.

11 de junho: Reforma supera primeiro obstáculo em votação no Senado

27 de junho: Senado aprova reforma migratória; Câmara debaterá projeto

A preocupação com a imigração ilegal descontrolada não é uma questão para Dayton. As autoridades locais dizem que seu objetivo é atrair imigrantes legais, mas eles não se empenham em perseguir os ilegais, contanto que se mantenham obedientes às demais leis americanas.

O momento da mudança em Dayton veio em 2010, por iniciativa dos imigrantes. Shakhbandarov disse ao prefeito recém-eleito da cidade, Gary Leitzell, que estava pensando em chamar outros imigrantes turcos nos EUA para residirem no local. A maioria dos turcos em Dayton são refugiados, fugidos da perseguição na Rússia e de outros países do antigo bloco soviético.

Leitzell ficou intrigado, mas aceitou. “A pior coisa que podia acontecer era que 4 mil famílias turcas viessem a Dayton e arrumassem 4 mil casas abandonadas. Então, por que não facilitar o seu sucesso?”, recorda o prefeito. Com 14 mil habitações vazias na cidade, as autoridades estavam abertas a tentar algo diferente.

As autoridades logo perceberam que a cidade de 141 mil habitantes já tinha uma pequena, mas crescente população estrangeira: 10 mil muçulmanos de diferentes países, refugiados do Burundi e Somália, estudantes da China, Índia e Arábia Saudita, Filipinos trabalhando na saúde e muitos trabalhadores latino-americanos, dos quais grande parte na ilegalidade.

NYT
Homens participam de oração muçulmanano Centro da Comunidade Turca Ahiska em Dayton, Ohio

A cidade fez reuniões com a comunidade para ver se os residentes estavam prontos para receber os estrangeiros. A única oposição veio de grupos anti-imigração ilegal de outras cidades. Em outubro de 2011, o município aprovou o programa "Boa-Vindas" de Dayton.

Arizona: Tecnologia e medidas de segurança reduzem imigração ilegal

Cenário: Obama deportou mais ilegais no 1º mandato que Bush

Trabalhando com organizações locais, a cidade buscou intérpretes para os escritórios públicos, incluiu livros em línguas estrangeiras na bibliotecas e organizou aulas de inglês para os estrangeiros. Os professores também passaram a estudar outras línguas.

Grupos locais deram cursos sobre como abrir pequenos negócios e ajudaram famílias de refugiados e estudantes. Junto com a Wright State University, uma instituição pública, as autoridades de Dayton conseguiram diminuir a burocracia para que médicos e engenheiros obtivessem certificação para a prática profissionais nos EUA.

O chefe de polícia não pede mais para conferir o status de imigração quando se trata de testemunhas de crimes, vítimas ou pessoas paradas por infrações de trânsito leves. Uma união de delegados de municípios vizinhos chegou a denunciar a prática, alegando que Dayton se tornou um “santuário” onde as leis de imigração não eram aplicadas.

Infográfico: Linha do tempo da imigração nos EUA

Mas o chefe de polícia, Richard Biehl, defendeu a abordagem, dizendo que assim a polícia pode concentrar seus recursos em resolver crimes sérios. “Se temos um grupo de cidadãos que tem medo de falar conosco, isso compromete nossa capacidade de garantir a segurança pública”, afirmou.

Para a cidade, o programa não custou mais do que um salário para o coordenador. Embora ainda seja cedo para dizer se a ideia vai levar à recuperação econômica, os primeiros resultados são promissores.

NYT
Casas velhas foram reformadas desde que 400 famílias turcas se mudaram, muitas delas vindas de outras cidades americanas, Dayton, Ohio

Os turcos escolheram Dayton, diz Shakhbandarov, porque o custo de vida é baixo e há universidades próximas para seus filhos. Os recém-chegados abriram restaurantes e lojas, e usaram suas economias para reformar casas no norte da cidade, em um investimento estimado em US$ 30 milhões.

Uma pesquisa recente sugere que a experiência de Dayton não é um acidente. O estudo nacional, publicado em setembro, do professor de economia da Duke University Jacob L. Vigdor, mostra que nas últimas quatro décadas os imigrantes ajudaram a preservar empregos nas cidades onde residem, sustentando postos de trabalho de americanos. Eles ainda ajudaram a manter o valor dos imóveis. Para cada mil imigrantes que se mudaram para um município, 270 americanos vieram em seguida, descobriu Vigdor.

A experiência de Dayton é particularmente próxima da casa de um deputado que provavelmente terá grande impacto no debate em Washington sobre imigração: o presidente republicano da Câmara, John A. Boehner. Seu distrito é vizinho a Dayton.

Mas as autoridades de Dayton não estão esperando nada do Congresso. “Descobrimos que podemos repovoar nossa cidade, educar nossa população e inspirá-los a produzirem empregos. Em dez anos, quando o governo federal descobrir isso, estaremos prosperando”, afirmou o prefeito Leitzell.

Por Julia Preston

Leia tudo sobre: daytonohioeuaimigraçãoimigração nos euareforma migratória

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas