Estados Unidos entram em 'guerra fria cibernética' com a China

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Ciberataques com suposta origem chinesa são tratadas por governo Obama com delicadeza, uma vez que Pequim não é inimigo imediato dos EUA como foi a União Soviética no passado

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Quando o governo de Obama distribuiu aos provedores de internet do país uma longa lista confidencial de endereços IP ligados a um grupo de hackers que roubaram terabytes de empresas americanas, deixou de fora um fato crucial: quase todos os endereços digitais vinham de um único bairro em Xangai, na China, onde fica a sede do cibercomando militar do país.

Relatório: Ciberataques contra EUA tiveram origem na China, diz empresa de segurança

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Agente no Centro de Integração Nacional de Cibersegurança e Comunicações, braço do Departamento de Segurança, em Arlington, Virgínia

Discurso sobre o Estado da União: Obama pede lei para proteger EUA de hackers

Essa omissão deliberada destacou a sensibilidade com que a questão é tratada dentro do governo Obama, que ainda não decidiu até que ponto enfrentará diretamente a China em relação à pirataria. Os EUA aumentam as exigências para que a China suspenda os ataques patrocinados pelo Estado, enquanto Pequim insiste que não os realiza.

A questão ilustra uma grande diferença entre essa guerra fria cibernética que opõe as duas maiores economias do mundo e os confrontos entre superpotências nas décadas passadas.

Autoridades do governo disseram que atualmente estão mais dispostos do que antes em lidar com os chineses de maneira mais direta - o procurador-geral Eric Holder Jr. anunciou uma nova estratégia para combater o roubo de propriedade intelectual.

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Mas o presidente Barack Obama evitou mencionar pelo nome - ou a Rússia ou o Irã, outros dois países que preocupam o presidente - quando declarou em seu discurso sobre o Estado da União que "sabemos que países estrangeiros e empresas roubam nossos segredos corporativos", e acrescentou: "Agora nossos inimigos também buscam capacidade de sabotar a nossa rede elétrica, nossas instituições financeiras e nossos sistemas de controle aéreo."

Encontrar a definição de "inimigos", neste caso, nem sempre é uma tarefa fácil. A China não é um inimigo imediato dos Estados Unidos, como a União Soviética (1922 - 1991) já chegou a ser, em vez disso é, ao mesmo tempo, um competidor econômico e um fornecedor e consumidor crucial.

Os dois países negociaram US$ 425 bilhões em mercadorias no ano passado e a China mantém-se, apesar de muitas tensões diplomáticas, uma financiadora rigorosa da dívida americana. Em 2009, a então secretária de Estado Hillary Clinton falou para o primeiro-ministro da Austrália, quando estava a caminho da China pela primeira vez no cargo: "como lidar com o seu banqueiro de maneira rígida?"

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Na questão da evidência de que o Exército Popular da Libertação é, provavelmente, a força por trás do "Comment Crew", o maior de cerca de 20 grupos de hackers que as agências de inteligência americanas seguem, a resposta é que os Estados Unidos estão sendo muito discretos.

Oficiais do governo aceitaram que a Mandiant, uma empresa privada de segurança, emitisse o relatório traçando os ciberataques à porta do comando cibernético da China - autoridades americanas comentaram reservadamente que não tiveram problemas com as conclusões da Mandiant, mas não quiseram falar publicamente a respeito, em uma entrevista oficial.

Nos próximos meses, autoridades americanas disseram que devem haver muitas advertências particulares entregues por Washington para os líderes chineses, incluindo Xi Jinping, que assumiu a presidência da China recentemente.

Tom Donilon, o conselheiro de segurança nacional, e o sucessor de Hillary, John Kerry, tem viagens programadas para a China em um futuro próximo. Espera-se que essas conversas particulares exponham que o tamanho e a sofisticação dos ataques ao longo dos últimos anos ameaça corroer o apoio dado à China pela comunidade empresarial americana.

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"As principais empresas americanas estão envolvidas nessa questão", disse Kurt Campbell, que renunciou recentemente a seu cargo como assistente do secretário de Estado para a Ásia.

Ainda é cedo para dizer se esse apelo ao interesse comercial da China irá ter algum resultado concreto. Argumentos similares foram realizados anteriormente quando um dos líderes militares de alto escalão da China visitou o Estado-Marior Conjunto no Pentágono, em maio de 2011. Na ocasião, ele disse que não sabia muito sobre armas cibernéticas - e disse que o Exército Popular da Libertação não as utilizava. Agiu de maneira muito parecida com o governo de Obama, que nunca discutiu o próprio arsenal cibernético dos Estados Unidos.

Oficiais do governo como Robert Hormats, subsecretário de Estado para assuntos comerciais e econômicos, disse que a chave para o sucesso na luta contra os ciberataques é deixar claro para as autoridades chinesas que os ataques poderão prejudicar suas esperanças de crescimento econômico.

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"Temos que deixar claro que os chineses não conseguirão o investimento de nossas empresas de tecnologia, a menos que este problema esteja sob controle", disse Hormats.

Mas Rogers, da Comissão de Inteligência, defende uma abordagem mais conflituosa, incluindo a “acusação de atores ruins" e a negação de vistos a qualquer um que seja suspeito de estar envolvido em ciberataques, assim como suas famílias.

O próximo debate será sobre se o governo deveria fazer alguma retaliação. Washington está inundada por conferências que falam sobre a "dominação escalada" e a "dissuasão ampliada" -  toda a terminologia retirada da Guerra Fria.

Algumas das conversas são mais controversas, impulsionadas por uma indústria de cibersegurança em crescimento e pelo desenvolvimento de armas cibernéticas ofensivas, mesmo que o governo dos Estados Unidos nunca tenha reconhecido utilizá-las - até mesmo nos ataques do Stuxnet sobre o Irã.

Mas há uma séria discussão ocorrendo nos bastidores sobre que tipo de ataque a infraestrutura dos Estados Unidos - algo que os grupos chineses de hackers não tentaram até o momento - poderia ser feito caso o presidente ordenasse um contra-ataque.

Por David E. Sanger

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