Igreja Católica é alento para africanos carentes da presença do Estado

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Com 16% do mundo católico vivendo na África, futuro e passado da Igreja podem estar no continente, onde párocos procuram suprir ausência do Estado na vida da população

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A jovem dormia profundamente no chão de mármore frio diante do altar, rompendo com o caos existente em sua casa. No pátio, adolescentes enchiam baldes com água purificada, vinda de uma fonte de pedra. Em um corredor, uma mulher muito magra de uma favela vizinha contou que não comia desde o dia anterior, mas que esperava encontrar sustento. Atrás de seus altos portões de ferro cravado em Lagos, na Nigéria, megalópole frenética de cerca de 21 milhões de habitantes, a igreja de Cristo Rei é proteção, alimento e cura.

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Na escuridão das 6h, essa igreja da classe trabalhadora já está cheia de paroquianos em mangas de camisa, uma brecha de luz que se desdobra em hinos em um bairro sombrio. Seis missas são celebradas aqui a cada domingo para até 10 mil habitantes, e 102 pessoas foram batizadas no último sábado. O pároco, o reverendo Ikenna Ikechi, sonha em construir um centro comunitário de muitos andares para acomodar seu crescente rebanho. "Nossa única limitação é o espaço."

O crescimento explosivo da Igreja Católica Romana em toda a África levou a rumores sérios sobre a possibilidade de um cardeal africano suceder o papa Bento 16, e clérigos da Nigéria, Gana e República Democrática do Congo, que tem a maior população do continente católico, têm sido mencionados como principais candidatos.

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Com 16% dos católicos do mundo vivendo na África, o futuro da Igreja, muitos dizem, está no continente. A população católica na África cresceu quase 21% entre 2005 e 2010, superando de longe outras partes do mundo. Embora o número de sacerdotes na América do Norte e na Europa tenha diminuído no mesmo período, na África ele cresceu 16%. Os seminários locais, segundo as autoridades clericais, estão cheios de candidatos, e os sacerdotes africanos estão sendo enviados para assumir igrejas em antigas potências coloniais.

Livre de escândalos de abuso sexual de crianças, a Igreja atrai paroquianos na casa dos 20 e 30 anos, que se reúnem ansiosamente para missas que podem durar horas e sem reclamações. "Depois do trabalho, muitos jovens vêm à missa", disse Chinedu Okani, 29 anos, um engenheiro em Lagos que participava de uma missa na Igreja da Assunção, no bairro de Falomo. "Ela oferece um ambiente sereno.",

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Ele reconhece outra atração também: que a Igreja é uma instituição que funciona em um país que carece delas. "O sistema de bem-estar não está funcionando aqui", disse Okani. "Nós encontramos uma maneira de compensar isso: a família e a Igreja."

Na Nigéria, pelo menos 70% da população vive abaixo da linha de pobreza, e 80% da riqueza petrolífera do país vai para 1% da população. A polícia não responde a ligações e o fornecimento de energia elétrica é irregular.

Fora da Cristo Rei, nas ruas de terra do bairro de Mushin, há ladrões armados e nenhuma iluminação. Não é de se admirar que o sacerdote deva gentilmente afugentar paroquianos remanescentes para ler ou conversar nos espaços iluminados com gerador nas instalações da igreja.

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"Muito disso é o desafio de viver na Nigéria", disse Ikechi, que foi educado na Universidade de Fordham em Nova York. "Não podemos confiar no governo para termos água, luz e segurança. Tudo o que você quer, tem que fornecer para si mesmo."

Para seus paroquianos, "o que eles enfrentam é enorme. Então, tendem a vir a Deus como seu último recurso. Você não pode ir à polícia. A quem você pode ir? Você vai para Deus. Alguns formem em lugares tão ruins que eles vêm aqui para dormir durante o dia."

Depois de um acidente de ônibus devastador recentemente, a Igreja pagou as contas hospitalares dos paroquianos, contou o padre. "Caso contrário eles iriam morrer", disse. Dessa forma, a Igreja está cumprindo um papel que desempenhou em seu passado distante na Europa, fornecendo para as pessoas, onde o Estado não pode, mas alguns questionam se o crescimento da Igreja africana e o seu tamanho pode ser sustentado à medida que as instituições do continente se desenvolverem.

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"Quando as pessoas dizem que a África é o futuro, eu digo, 'Ah, não é o passado?'", disse o reverendo Thomas J. Reese, um membro sênior do Woodstock Theological Center na Universidade de Georgetown. "Eu vejo isso como uma repetição do passado, o que aconteceu na Europa séculos atrás. O que vai acontecer na África, quando todos receberem um aparelho de televisão, quando a modernidade chegar?"

Por enquanto, essa pergunta é em grande parte acadêmica por aqui. "Quase todo sistema entrou em colapso", disse o bispo Mateus Hassan Kukah de Sokoto, no noroeste da Nigéria. "Toda a arquitetura de governança entrou em colapso. A Igreja continua a ser a única força moral".

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"A Igreja oferece melhores escolas, serviços sociais, medicina. A conversa sobre Deus na África é uma marca do fracasso do sistema econômico, social e político na região", acrescentou Kukah. "Estamos sendo chamados para juntar os pedaços quebrados do que são considerados os Estados fracassados da África."

Em um continente repleto de corrupção, a Igreja também fornece uma voz moral singular. Kukah, por exemplo, tem desempenhado um grande papel na boa governança e em comissões de direitos humanos, incluindo a investigação sobre a ditadura militar dos anos 1990.

No Congo, onde o número de católicos mais do que triplicou nos últimos 35 anos, o arcebispo Laurent Monsengwo Pasinya de Kinshasa criticou ferozmente o governo, incluindo os resultados das eleições manipuladas que garantiram a reeleição do presidente Joseph Kabila em 2011. A Igreja católica implantou uma ampla rede de observadores independentes durante as eleições de dezembro e o conselho dos bispos mais tarde denunciou uma "cultura de traição, mentiras e terror".

"É compromisso da Igreja em nome do povo congolês, para promover o homem, você tem que trazer o pão e os Evangelhos", disse o bispo Bernard-Emmanuel Kasanda de Mbuji-Mayi, no Congo. "Temos de estar com as pessoas. Autoridade moral, sim. Isso é o que traz as pessoas para nós."

Na Nigéria, onde mais de US$5 bilhões desapareceram de um ministério de minerais, o mais recente em uma série de escândalos aparentemente intermináveis do governo, a Igreja oferece uma alternativa para uma vida de pobreza, corrupção e falta de esperança.

Laurence Emeka, 30, que vende acessórios de telefone em uma tenda ao ar livre, levantou às 5 da manhã no domingo passado para assistir à missa na Cristo Rei antes de ir trabalhar. O serviço deu-lhe uma espécie de paz de espírito. "A paz, a confiança, a satisfação em Deus", disse ele. "Isso me ajuda a lidar com as circunstâncias da vida diária."

Por Adam Nossiter

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