Museu de Israel em Jerusalém passa por renovação

Ao ter de lidar com país jovem mas de história antiga, instituição se vê diante de dilemas como integrar relíquias históricas, projeto nacional e modernização

The New York Times |

Os maiores museus nacionais do mundo não são lugares modestos. Seja uma proposta imperial por sua origem (como em Viena) ou com intuito de ser popular (em Londres), seja com um tom aristocrático (em São Petersburgo) ou abraçando as multidões (os Smithsonians americanos), eles refletem a visão dos países que os criaram. Em suas galerias podemos discernir como uma nação pensa sobre si e seu lugar no mundo ao demonstrar o que valoriza e como conta suas histórias.

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O Museu de Israel acrescenta um outro tipo de complexidade a essa reflexão, porque é, como seu país, muito jovem, e porque a história que conta, também como a de sua nação, é muito antiga.

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Há dois anos atrás, o diretor do museu James S. Snyder apresentou o resultado do que chamou de uma “renovação”. Foi um projeto que durou três anos e custou US$ 100 milhões: uma reconsideração das coleções do museu, com seus cerca de 500 mil objetos, uma duplicação de seu espaço para exposições em seu campus de 8,1 mil hectares e uma expansão de suas estruturas, com novas galerias e espaços públicos. Embora esteja um pouco atrasado para a festa e tenha apenas uma vaga lembrança da versão menos estruturada e mais comprimida do original que visitei há cerca de 30 anos atrás, seu efeito atual sobre mim é exuberante.

A reformulação consegue criar uma sensação de monumentalidade sem necessariamente impor uma grandeza artificial. Ele combina uma formalidade rigorosa com uma brincadeira quase casual. E se você entrar por seu radiante corredor recém-construído com vidro translúcido - uma passarela que leva ao deslumbrante espectro de 44 metros de largura de Olafur Eliasson intitulado "Quando aparece o arco-íris" - ou subir as escadas que levam à outra obra encomendada, a escultura metálica de Anish Kapoor "Virando o mundo de cabeça para baixo, Jerusalém" você sente uma mistura de familiaridade e estranheza, de contemplação e urgência, nada parecido com as sensações provocadas pelo próprio país.

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Dada a ambição da renovação da instituição, sua complexidade, sugestividade e beleza, ela pode facilmente ficar entre os grandes museus nacionais - o que é ainda mais notável pois ele ainda irá comemorar o seu 50º aniversário. Snyder tornou-se diretor em 1996, depois de ser vice-diretor do Museu de Arte Moderna de Nova York, e isso parece ser fruto de um trabalho realizado com bastante carinho. Ele interligou as três linhas temáticas do museu: arte, arqueologia e vida e artes plásticas judaicas.

Design

Os edifícios providenciam a infraestrutura, com o seu design original de Alfred Mansfeld e Gad Dora. Eles ficam em uma das colinas de Jerusalém, com seus blocos modulares, que combinam maneirismos modernistas com uma sugestão de aldeia da Judeia. A James Carpenter Design Associates, de Nova York, e a empresa de arquitetos Efrat-Kowalsky de Tel Aviv criaram espaços que permitem que a luz de Jerusalém entre para suavizar as geometrias de modo que você é transportado através de explorações narrativas.

E aqui estão alguns dos artefatos que você pode ver: parte de uma estatueta feminina esculpida em rocha vulcânica que, com quase 250 mil anos, é agora considerada a "obra de arte mais antiga do mundo", o interior de uma sinagoga de 1736 do Suriname; galerias exuberantes que abraçam Braque, Rembrandt e Damien Hirst, joias usadas por noivas judias no Iêmen; um nicho de oração islâmico decorado com mosaico da Pérsia do século 17; um estatuário pré-colombiano da América do Sul e uma reprodução da única evidência arqueológica sobrevivente da prática de crucificação do tempo de Jesus.

Mas como é que tudo isso se interliga? Como é que o museu se adequa como um projeto nacional? Existem pontos fracos para seus pontos fortes? É então que as coisas se complicam.

Em um livro que comemora a renovação da instituição, Snyder escreve sobre exposições que deverão "abrir a mente dos visitantes para a experiência do mundo da cultura" e refere-se ao museu como uma "viagem empírica que é de natureza universal e abrangente de todos os tempos." Snyder tem sugerido que o museu "realmente se trata de refletir um compromisso de ressonância intercultural e intercomunal."

Nesse caso, ele está enfatizando uma das preocupações dos grandes museus nacionais, especialmente aqueles criados durante o Iluminismo. Sim, o acúmulo de artefatos era um reflexo de conquistas nacionais e poder. Mas eles também comemoravam a razão e a ambição de compreender, além da necessidade de colecionar. A Biblioteca do Rei no Museu Britânico é um marco: essas coleções comemoravam ideais universais do Iluminismo e ao mesmo tempo comemoravam a nação que supostamente os dominava.

Há, é claro, uma tensão entre essa perspectiva universalista e suas ambições nacionais. E essa tensão existe também em Jerusalém. No entanto, os dois pólos parecem diferentes. Sim, lemos que "A Terra de Israel tem sido o lar de povos de diferentes culturas e religiões há mais de 1 milhão e meio de anos."

Mas é a "Terra [Prometida]" que é o centro das atenções, e essa palavra, capitalizada o tempo todo na tradução em inglês e nas tradições judaicas de Israel, é conhecida simplesmente como "a Terra". E assim quase todos objetos daqui são de diferentes regiões da Terra, e é a Terra que se torna um cruzamento de culturas. Nós estamos, o museu nos diz, em meio à uma confluência de influências e de povos.

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Quando a ideia de um museu nacional na "Terra" foi concebida, esse foi também o caso. O escultor do Leste Europeu Boris Zalman Dov Baruch Schatz veio para a Palestina em 1906, com o sonho de criar uma academia de artes e ofícios em Sião. Ele também imaginou um museu e criou um em Jerusalém: o Museu Nacional de Bezalel.

Mas quando Chagall visitou o local em 1932, de acordo com um dos catálogos anteriores do Museu de Israel, ele disse que "achou o museu muito 'judaico'". Grande parte da coleção neste museu também vem de colecionadores e artistas judeus que também eram universalistas por ambição.

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Visitantes caminham perto da obra de Ólafur Eliasson ‘Quando Aparece o Arco-Íris’

A tensão entre o universal e o particular que você pode encontrar no museu pode até se distinguir para a modernidade judaica. Não existem muitas outras nações que submergem prontamente a autoelebração em homenagem ao universal ou são tão cautelosos em relação ao particular. É difícil de imaginar o Louvre ou o Museu Britânico assumindo uma perspectiva de autoquestionamento que possa se comparar.

Todas essas questões tornam a visita ao museu mais desafiadora do que o esperado. Mas, mesmo assim, a experiência é ainda tão notável, que você consegue colocar tudo isso de lado, admirar o lugar e suas exposições e, gradualmente, tentar abraçar tanto o particular quanto o universal - e discernir onde acaba um e começa o outro.

*Por Edward Rothstein

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