Em campo de concentração dos EUA, nipo-americanos exploram o passado

Filhos de japoneses prisioneiros das forças americanas na Segunda Guerra buscam entender o que levou nipônicos a aceitar ou renunciar à cidadania americana

The New York Times |

Sob um céu aberto e cheio de nuvens, os peregrinos nipo-americanos se sentaram em cadeiras dobráveis diante de uma paisagem vasta, plana e empoeirada cuja monotonia era quebrada apenas por duas montanhas com uma forma estranha que se erguiam de leste a oeste. Um ministro budista fez orações e tocou um sino em homenagem às centenas de pessoas enterradas em um cemitério na região, que desapareceu há muito tempo, mas a sua invocação quase não foi ouvida por causa do barulho de um avião que decolava de um aeroporto nas proximidades.

Segunda Guerra: Exposição revela funcionamento de campo de concentração nos EUA

NYT
Mori Tanimoto, que foi detido no campo do Lago Tule, com a mala que usava na época

Cerca de 400 nipo-americanos viajaram entre 30 de junho e 3 de julho para Tulelake, na Califórnia, onde 18.789 pessoas de ascendência japonesa foram encarceradas durante a Segunda Guerra Mundial. Os organizadores disseram que o comparecimento foi um dos mais altos da peregrinação de quatro dias, que ocorre a cada dois anos por volta do dia 4 de julho. Eles supõem que, à medida que o número de sobreviventes do campo de concentração diminui, há uma urgência crescente em compreender - e reinterpretar - o que foi um capítulo oculto na história dos Estados Unidos.

Dos 10 campos de concentração em que cerca de 120 mil nipo-americanos ficaram confinados durante a guerra, foi no Lago Tule que viveram aqueles marcados como "desleais", os que responderam "não" a duas perguntas críticas em um teste de lealdade administrado pelo governo federal.

Após o fim da guerra, esses supostos “desleais” não só tiveram problemas em encontrar um lugar na sociedade, mas também foram vistos com desconfiança pelos outros nipo-americanos, cuja promessa de lealdade e busca por aceitação poderia ter sido ameaçada pela presença dos “desleais”.

Durante décadas, os “desleais” nunca chegaram a explicar o motivo por trás de suas respostas. A maioria, de fato, nunca chegou a sequer a mencionar o Lago Tule. "Eu vim aqui para entender porque meus pais sempre me disseram para nunca mencionar o Lago Tule", disse James Katsumi Nehira, 68 anos. "Eles foram ostracizados e rejeitados por terem passado pelo Lago Tule. Eu nunca disse nada, respeitei os desejos do meu pai até sua morte".

Mas nos últimos anos, ex-detentos começaram a falar durante as peregrinações sobre por que eles, ou mais provavelmente seus pais, optaram por não responder "sim". Suas histórias acrescentaram camadas de complexidade para a noção que muitos tinham sobre os “desleais” como pessoas sem caráter.

Questionário

No início de 1943, cerca de um ano depois que os nipo-americanos foram levados para os acampamentos, as autoridades americanas, em busca de membros que falassem japonês no serviço militar, distribuíram um questionário de lealdade para todos os adultos. A questão número 27 perguntava se os homens maiores de idade estavam dispostos a servir nas Forças Armadas. A questão número 28 perguntava se os detidos seriam capazes de "jurar fidelidade incondicional aos Estados Unidos" e "repudiar qualquer forma de submissão ou obediência ao imperador japonês, ou qualquer outro tipo de governo estrangeiro".

Qualquer resposta além de um simples "sim" às duas perguntas significava ser transferido para o acampamento do Lago Tule, que se tornou o mais bem protegido de todos. Tanques do Exército foram posicionados no local, reforçando a segurança proporcionada por 28 torres de vigia e uma enorme cerca de arame farpado.

Osamu Hasegawa, 90 anos, lembra que seus pais responderam "não" após um debate acalorado dentro da família. Devido ao fato de seus pais terem nascido no Japão - imigrantes japoneses não tinham permissão para se tornar cidadãos americanos até 1952 por causa das leis de imigração discriminatórias - eles temiam que ao não jurar lealdade ao seu país de origem poderiam se tornar apátridos.

Depois que seus pais responderam "não", Hasegawa se tornou um dos 6 mil nipo-americanos no Lago Tule a renunciar à cidadania americana. "Eles queriam voltar para o Japão para manter a família unida", disse Hasegawa.

A maior parte da família foi para o Japão. Mas seu irmão mais velho Hiroshi, que tentou convencer seus pais a responderem "sim", ficou e acabou entrando no Grupo de Combate Regimental 442, uma famosa unidade do Exército nipo-americano.

Assim como muitos que voltaram para o Japão, Hasegawa e sua família recuperaram sua cidadania e voltaram para os EUA após 11 anos. Mas as relações entre os irmãos permaneceram tensas durante décadas.

Hiroshi Shimizu, um organizador que passou dois anos da sua infância dentro do acampamento, disse que houve uma batalha contra o tempo para reinterpretar o que aconteceu no Lago Tule.

Outros foram pressionados a renunciar à sua cidadania americana pelo pequeno, porém influente, grupo de extremistas pró-Japão que se organizou no chamado Hoshi Dan. Eles administraram escolas que falavam japonês dentro dos acampamentos, onde, de acordo com dois ex-alunos, os alunos começavam o dia a se curvando para o sol nascente, símbolo do Japão. Nas aulas, eles aprendiam a cantar canções militares japonesas que haviam sido publicadas em livros didáticos produzidos dentro do campo com um mimeógrafo.

"Eu tinha vergonha", disse um dos ex-alunos, que não quis ser identificado. "Eu sempre tive vontade de ter feito parte de outro acampamento."

Ainda assim, à medida que mais pessoas contavam suas histórias, outros nipo-americanos estavam começando a olhar para os detentos do Lago Tule de maneira diferente.

"Aos poucos a concepção das pessoas está começando a mudar", disse Steve Nagano, funcionário do grupo Nikkei para os Direitos Civis e Reparação, com base em Los Angeles. Ele estava participando da peregrinação, embora seus pais houvessem sido detidos em outro acampamento. "A próxima geração irá lidar com esse assunto. Eles vão resgatar a honra do nome de seus pais."

*Por Norimitsu Onishi

    Leia tudo sobre: euajapãosegunda guerraguerracampo de concentraçãoprisioneiroslago tule

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG