Série de massacres do narcotráfico banaliza violência no México

Muitos mexicanos estão cada vez mais perturbados com seu desapego emocional em relação à violência cruel dos cartéis de drogas

The New York Times |

Com cadáveres mutilados sendo despejados em esquinas, dentro de restaurantes, pendurados em pontes e até mesmo enterrados em valas comuns, os mexicanos parecem ter se acostumado com essa violência.

Casais andavam de mãos dadas. Crianças brincavam sem nenhuma preocupação. Mas em uma estrada próxima da cidade de Cadereyta Jimenez, no norte do México, 49 corpos foram encontrados sem cabeças, mãos e pés.

Narcotráfico: Violência deixa rastro de dúvidas e dor no México

AFP
Polícia Federal do México bloqueia estrada entre Monterrey e Reynosa, onde corpos mutlados foram encontrados (13/5)
Francisco Umberta, alarmado com o mais recente de uma série de crimes sangrentos ligados à guerra do narcotráfico do México, soube da atrocidade quando estava saindo para namorar.

Há apenas 160 quilômetros de onde os corpos foram descobertos, ele entrou na fila de um cinema lotado, perto de um restaurante de chilli, para comprar ingressos para assistir ao filme "Os Vingadores". "Claro que é assustador", ele disse a respeito do massacre. "Mas o que eu posso fazer?"

Ele havia ouvido falar dos corpos no rádio logo depois que eles foram descobertos no domingo, dia 13 de maio, mas disse que as classificatórias regionais de futebol chamaram mais atenção do público.

"Nós não podemos simplesmente parar de viver", disse Umberta, 31 anos, que trabalha como auxiliar de escritório. ”Nós temos de continuar vivendo nossa vida, enquanto eles fazem o que fazem."

Norte do México: Aumenta número de corpos mutilados encontrados

Com cadáveres mutilados sendo despejados em esquinas, dentro de restaurantes, pendurados em pontes e até mesmo enterrados em valas comuns, os mexicanos parecem ter se acostumado com essa violência.

Indignação, medo, ansiedade, tristeza - é difícil sentir todas essas emoções todos os dias, especialmente quando mais de 50 mil já foram mortos em assassinatos relacionados ao narcotráfico desde que o presidente mexicano, Felipe Calderón, começou seu ataque contra os traficantes há seis anos atrás.

Os mexicanos que vivem em muitas dessas cidades já se acostumaram com a crescente violência resultante dessa guerra.

Ações

Protestos, marchas e projetos de arte pública em homenagem às vítimas têm tido pouco resultado na hora de alterar essa realidade. Todos os dias, famílias e crianças passam por bancas de jornais que vendem tabloides mostrando fotografias dos últimos corpos que foram encontrados. A maioria nem sequer liga para as imagens.

"Nós sabemos que nada está mudando", comentou Imelda Santos, 17 anos, que estava desfrutando um hambúrguer de uma cadeia de fast-food com seus amigos. "Nós não nos preocupamos muito com essa situação porque não estamos envolvidos."

A percepção - é com eles e não com nós - parece ter um papel massivo na habilidade das pessoas que não são afetados emocionalmente, apesar da carnificina.

"Uma estratégia que usamos para proteção e sobrevivência é ignorar algo porque não há nada que possamos fazer", disse Maria Antonia Padilla Vargas, coordenadora de um grupo de pesquisa psicológica. "É um fenômeno que observamos quando ratos são expostos a choques elétricos incontroláveis."

O termo oficial para esse tipo de atitude é "impotência aprendida" e estudos de casos como esse estão aparecendo por todo o México.

Moradores de um outro bairro da capital, onde um tiroteio na semana passada matou seis pessoas, disseram que já haviam parado de discutir o ocorrido.

"É melhor deixar essas coisas para trás", disse Andrés Castillo, 68 anos, enquanto comia uma pamonha perto de um posto de engraxate. "Nós passamos a aceitar que quando saímos de casa pode ser que não voltemos".

*Por Randal C. Archibold e Damien Cave

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