Ex-ditador argentino Jorge Videla admite desaparecimentos durante regime

Atualmente com 86 anos e condenado à prisão perpétua em 2010, Videla admitiu que ditadura matou cerca de 8 mil pessoas

Reuters |

AFP
"Reclamo a honra da vitória e lamento as sequelas", disse o ex-ditador argentino no tribunal em 2010
O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla admitiu pela primeira vez que a brutal ditadura do país, entre 1976 e 1983, "desaparecia" com opositores da esquerda, um eufemismo para o sequestro e assassinado deles. Ele também afirmou que bebês foram retirados de seus pais.

Videla, que atualmente tem 86 anos e foi condenado à prisão perpétua em 2010 por assassinato, tortura e sequestro, tem repetidamente justificado a brutalidade da junta militar com a repressão à chamada "Guerra Suja" dos esquerdistas. Até agora, ele negava os "desaparecimentos". A imprensa local afirmou que Videla admitiu, em entrevistas para um novo livro, que a ditadura matou de 7.000 a 8.000 pessoas.

"Em toda guerra pessoas são feridas, mortas e desaparecidas, com seus paradeiros desconhecidos, isso é fato", afirmou Videla em uma entrevista transmitida pela televisão local. "Quantos foram é algo que pode ser debatido, mas o problema não está no número, mas no fato, um fato que ocorre em toda guerra. Permitimos o termo pejorativo de desaparecidos para... permanecer como um termo que encobre algo negro que queriam deixar em segredo, e é isso que está pesando, que houve algo negro que não foi suficientemente esclarecido."

"O erro seria usar e abusar dos desaparecidos como um mistério", acrescentou. "E esse não era o caso, é o infeliz resultado de uma guerra." Videla negou que bebês eram sistematicamente roubados dos opositores da esquerda e levados para adoção, mas afirmou que houve casos em que crianças foram retiradas de seus pais.

"Sou o primeiro a admitir... naquela época crianças eram tomadas, algumas com a melhor das intenções de as crianças serem levadas para um lar bom e desconhecido", acrescentou Videla na entrevista. "Mas esse não era um plano sistemático."

Grupos de defesa dos direitos humanos calculam que 30.000 pessoas foram sequestradas e mortas ou sumiram durante a ditadura, que começou quando Videla e outros dois líderes militares realizaram um golpe em 24 de março de 1976.

"Vamos dizer que houve 7.000 ou 8.000 pessoas que tiveram que morrer para vencermos a guerra contra a subversão", afirmou Videla no novo livro "Mandato Final", segundo o jornal La Nación. O livro foi escrito pelo jornalista Ceferino Reato e é baseado em uma série de entrevistas de Videla.

"Não havia outra solução", afirma Videla no livro, segundo o La Nación. "Concordamos que era o preço para se vencer a guerra contra a subversão e que precisávamos que ela não fosse evidente, para que a sociedade não a notasse".

"Por essa razão, para evitar causar protestos dentro e fora do país, foi decidido que aquelas pessoas deviam desaparecer. Cada desaparecimento pode ser certamente entendido como o disfarce para uma morte." No auge da violência da década de 1970, Videla negou os sequestros que aconteciam, dizendo: "Não há desaparecimentos, eles não têm existência, eles não existem".

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