Em desafio a EUA e Israel, palestinos tentarão adesão total à ONU

Presidente palestino, Mahmud Abbas, anuncia que palestinos recorrerão a Conselho de Segurança por reconhecimento de Estado

iG São Paulo |

O presidente palestino, Mahmud Abbas, anunciou nesta sexta-feira que a Autoridade Palestina pedirá ao Conselho de Segurança da ONU a adesão plena de um Estado palestino nas Nações Unidas na próxima semana. Em um discurso antes da Assembleia-Geral da ONU, que começa na quarta-feira em Nova York, ele disse que o status total na organização era um direito legítimo da população palestina.

AP
Presidente palestino, Mahmud Abbas, participa de coletiva em Ramallah, na Cisjordânia

A adesão total, que só pode ser conferida pelo Conselho de Segurança (composto por 15 membros, dos quais cinco com poder de veto), daria aos palestinos direito a voto. Com o argumento de que as negociações são o único caminho para um Estado palestino, os EUA se opõem à medida e ameaçaram vetar o pedido . Israel advertiu que a iniciativa terá consequência ruins para os palestinos.

"Não queremos criar expectativas de que voltaremos (da ONU) com uma independência total", disse Abbas aos líderes palestinos, tentando conter esperanças desmesuradas. Ele afirmou que irá à ONU para "pedir ao mundo que assuma suas responsabilidades" ao reconhecer um Estado palestino dentro das fronteiras de 1967. Isso inclui a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental como capital, áreas que foram ocupadas por Israel na Guerra dos Seis Dias, em junho daquele ano.

Abbas considerou que sua iniciativa "não pretende isolar Israel ou tirar seu status legal, mas sim isolar as políticas israelenses", "acabar com a ocupação" e transformar a relação entre ambas partes em "uma relação entre dois Estados: um ocupado e o outro ocupante".

Em seu pronunciamento, Abbas também conclamou a população a se abster de ações violentas, argumentando que "medidas não pacíficas nos prejudirão e sabotarão nossos objetivos". As declarações foram feitas enquanto centenas de palestinos entravam em confronto com forças israelenses na Cisjordânia.

Na quinta-feira, o ministro palestino das Relações Exteriores, Riyad al-Malki, confirmou que, em seu discurso às 12h30 (13h30 em Brasília) do dia 23, Abbas defenderá a aceitação de um Estado palestino como membro pleno da organização multilateral com as fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias de 1967.

Israel e EUA

Obter o reconhecimento como Estado é importante para os palestinos porque abriria as portas ao comparecimento a organismos internacionais, como o Tribunal Penal Internacional de Haia, onde poderiam denunciar as consequências da ocupação de seus territórios e as violações de direitos humanos cometidas contra sua população. Os palestinos também poderiam assinar tratados multilaterais e, segundo eles, o reconhecimento melhoraria sua posição para negociador com Israel.

Na quinta-feira, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, reiterou que as negociações seriam o único caminho viável para um Estado palestino. "Eles não podem e não conseguirão esse status por meio de uma declaração na ONU. Isso é uma distração e, na verdade, é contraproducente", disse.

Nesta sexta-feira, uma publicação da China, que também tem poder de veto no Conselho de Segurança ONU, advertiu que haverá aumento da tensão no Oriente Médio se os EUA não apoiarem a iniciativa palestina. "A comunidade internacional, de forma majoritária, acredita que ter um Estado independente é um direito inalienável dos palestinos. Se os EUA optarem por desafiar a opinião pública mundial, não apenas Israel ficará ainda mais isolado, como as tensões na região aumentarão mais", afirmou um editorial do jornal China Daily.

Nesta semana, em um artigo publicado no New York Times, o príncipe saudita Turki Faisal afirmou que a posição americana só reduz ainda mais o decadente prestígio regional dos EUA. Para ele, o veto americano enfraqueceria a segurança israelense e fortaleceria o Irã, que a comunidade internacional suspeita desenvolver um programa de armas nucleares. Por conta disse, alerta Faisal, a Arábia Saudita não poderá continuar sendo um forte aliado americano.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu , rejeita a retirada completa da Cisjordânia e diz que Israel deve manter Jerusalém Oriental, que considera como parte de sua capital indivisível. Apesar de ter se retirado da Faixa de Gaza em 2005, Israel mantém o território sob bloqueio terrestre, aéreo e marítimo.

Os palestinos dizem que recorrem à ONU depois de anos de frustração com negociações fracassadas. EUA e Israel temem que a votação na ONU desate violência e outras consequências negativas. Os palestinos planejam demonstrações em massa na Cisjordânia na próxima semana, afirmando que serão pacíficas. Por causa desses protestss, O Exército israelense aumentou seu nível de alerta e mobilizou unidades de reserva .

Com o provável veto americano, os palestinos serão forçados posteriormente a pedir um status de "Estado não-membro" observador, sem direito a voto, à Assembleia-Geral, onde precisariam de apoio de dois terços dos 192 membros. Apesar de amplamente simbólica, os palestinos têm como garantida uma vitória na câmara, dominada por nações em desenvolvimento simpáticas à sua causa.

Primavera Árabe

A tentativa dos palestinos de obter o reconhecimento de um Estado ocorre em meio aos levantes conhecidos como Primavera Árabe , que puseram fim aos regimes autocráticos de longa data da Tunísia , Egito e Líbia e vêm mudando a dinâmica da região.

AFP
Jovens retiram palestino durante confrontos com forças de Israel depois de problemas com colonos judeus em Qusra, Cisjordânia
Israel, que antes tinha um aliado no líder deposto egípcio Hosni Mubarak, atualmente vê suas relações com Cairo estremecidas, com os líderes da junta militar sob pressão popular para pôr fim ao acordo de paz de 1979. Na quinta-feira, O primeiro-ministro egípcio, Essam Sharaf, chegou a afirmar que o tratado de paz com Israel não é "sagrado" , e pode ser alterado pelo bem da paz na região.

Além disso, a Turquia, um aliado estratégico, adotaram um afastamento após o Estado judeu se recusar a pedir desculpas pela morte de oito ativistas turcos e um turco-americano durante uma ofensiva isralense contra um navio com ajuda humanitária que se dirigia à Faixa de Gaza em maio de 2010. O incidente da flotilha e o desejo da Turquia de ampliar sua influência no Oriente Médio e no mundo árabe poderiam afetar dramaticamente a dinâmica de poder na região.

*Com AP, BBC, AFP e EFE

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