Berlusconi diz se sentir como Mussolini

De acordo com premiê italiano, ditador fascista revelou em carta à amante que só servia para dar sugestões e não aprovar leis

iG São Paulo |

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, afirmou nesta quarta-feira que se sente como o ditador fascista Benito Mussolini (1922-1943), que, em uma carta, confessou à amante que só servia para dar sugestões e não para aprovar leis.

"Tenho mais poder como cidadão livre do que como chefe de governo. Estava lendo um livro sobre as cartas de Mussolini a Claretta (Clara Petacci) e, em um momento, ele escreveu: 'Você não entende que não conto para mais nada? Só posso dar sugestões'. Senti-me na mesma situação", confessou Berlusconi em uma entrevista ao jornal La Stampa, concedida depois de anunciar na terça-feira que pretende renunciar ao cargo .

Leia também: Frases polêmicas marcam trajetória de Berlusconi

Questionado sobre as diferenças com a ditadura fascista, o primeiro-ministro respondeu: "Claro que não sou um ditador, apesar de vocês terem escrito isso por anos. O que percebo é que os pais da Constituição, que temiam a repetição da história, debilitaram excessivamente o Executivo."

"Pergunto-me ainda se é possível que o chefe de governo não possa exigir ao ministro da Economia que aplique a política econômica na qual acredita", afirmou, ao destacar as fortes divergências internas em seu gabinete.

O premiê italiano rendeu-se na terça-feira e anunciou que renunciará ao cargo assim que o Parlamento aprovar as medidas econômicas prometidas à União Europeia (UE), com o objetivo de salvar a Itália do contágio da crise. A previsão é de que o plano seja aprovado neste fim de semana. A votação no Senado ocorreria na sexta-feira, enquanto a da Câmara entre sábado e domingo.

O presidente italiano, Giorgio Napolitano, assegurou nesta quarta-feira que não existe nenhum tipo de dúvida sobre a renúncia anunciada por Berlusconi. A nota foi uma tentativa de acalmar os mercados. O presidente italiano afirmou que, após a renúncia do primeiro-ministro, não haverá um "longo período" de inatividade governamental ou parlamentar na Itália e, após a saída de Berlusconi, "acontecerão imediatamente e com a máxima rapidez" as consultas para dar solução à crise no governo.

A decisão de renunciar foi tomada por Berlusconi ao término de uma reunião de uma hora com Napolitano, depois de ter perdido a maioria em uma votação na Câmara dos Deputados que, porém, garantiu a aprovação do Orçamento . A medida foi aprovada com apenas 308 votos, abaixo dos 316 necessários para compor a maioria absoluta.

"Quero saber o nome dos traidores ", disse Il Cavaliere após a votação, visivelmente nervoso. Nos últimos dias, Berlusconi perdeu o apoio de 20 parlamentares de seu partido, o Povo da Liberdade (PDL), em meio a divisões sobre as reformas exigidas ao país pela UE.

Antes da votação, até o polêmico líder da Liga Norte, Umberto Bossi, aliado importante para a sobrevivência do governo que vinha garantindo a Berlusconi havia três anos a maioria absoluta no Parlamento, pediu que ele renunciasse . "É melhor que dê um passo atrás e proponha em seu lugar o secretário de seu partido PDL, Angelino Alfano", disse.

Sem nova candidatura

Na mesma entrevista ao La Stampa, Berlusconi afirmou que não voltará a se candidatar em uma eventual próxima eleição e deixará o cargo até o final do mês. "Não disputarei o gabinete", declarou. "Chegou a hora de Angelino Alfano , ele será nosso candidato, é realmente bom, melhor que qualquer um pode pensar, e sua liderança é aceita por todos", afirmou Berlusconi.

Alfano, ex-ministro da Justiça de seu governo, é atualmente secretário-geral do PDL (Povo da Liberdade - partido no poder), e seu nome poderia receber um apoio relativamente grande para liderar um governo de transição no qual entraria a oposição centrista.

"Mas, antes, devemos dar respostas imediatas aos mercados. Não podemos esperar mais para adotar as medidas que decidimos; esse foi meu compromisso com a Europa e, antes de ir, quero cumpri-lo", acrescentou.

Berlusconi insistiu sobre a necessidade "urgente" de dar "respostas concretas às expectativas dos sócios europeus por meio da aprovação da Lei de Orçamentos para 2012, que sofreu emendas a partir das observações e propostas da Comissão Europeia".

Criticado por diferentes setores por sua incapacidade para manejar a crise - negada por ele até poucos dias atrás - , Berlusconi introduziu na semana passada uma emenda aos orçamentos de 2012 com as exigências feitas pela UE para garantir a estabilidade financeira do país.

A lei deve ser aprovada antes de 18 de novembro pelo Senado e antes do final de novembro pela Câmara dos Deputados, segundo o calendário fixado.

Leia também: Entenda a crise econômica mundial

A renúncia de Berlusconi vinha sendo pedida nos últimos dias com insistência pela oposição de esquerda, assim como pelos sindicatos e pela federação de indústrias ante a delicada situação econômica da Itália, que vem sendo criticada pelos mercados por sua colossal dívida pública e um crescimento nulo.

Berlusconi, de 75 anos e há 17 anos no meio político, esteve no poder nos últimos dez anos, com exceção do período 2006-2008.

*Com AFP

    Leia tudo sobre: renúncia de berlusconiitáliaberlusconicrise

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG