Evo Morales vence eleições e garante terceiro mandato na Bolívia

Por iG São Paulo |

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Líder teve 60% dos votos contra 25% de Samuel Doria Medina; analistas acreditam que desempenho será inferior nesta gestão

Evo Morales cravou vitória nas eleições presidenciais da Bolívia pela terceira vez seguida. Enquanto isso, eleitores exaltam a estabilidade econômica e política no país, visto tradicionalmente como um dos mais difíceis de se governar da América do Sul.

Ontem: Bolivianos votam e devem dar terceiro mandato a Evo Morales

AP
O presidente da Bolívia, Evo Morales, centro, cumprimenta simpatizantes a partir da sacada do palácio presidencial em La Paz (12/10)


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Morales, de etnia indígena uru-aimará, recebeu 60% dos votos contra 25% do segundo colocado, o magnata Samuel Doria Medina, o mais votado entre os quatro adversários na eleição de domingo, de acordo com uma contagem rápida de estações de voto pela empresa de pesquisas Ipsos para rede de TV ATB. Os resultados oficiais devem ser anunciados ainda nesta segunda-feira(13).

Doria Medina admitiu a derrota na noite de domingo e prometeu "continuar a trabalhar para fazer um país melhor."

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Partidários de Morales saíram às ruas para comemorar o triunfo, mas o clima festivo foi parcialmente prejudicado por uma aparente falha do partido Movimento ao Socialismo (MAS) em manter o controle sobre dois terços do Congresso necessários para avançar com uma reforma constitucional que manteria o líder no poder para um suposto quarto mandato.

Em um discurso de vitória a partir da varanda do palácio presidencial em La Paz, Morales dedicou sua vitória ao cubano Fidel Castro e ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez.

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"É um triunfo dos anti-colonialistas e anti-imperialistas", disse Morales. "Nós vamos continuar crescendo e vamos continuar o processo de libertação econômica".

Morales venceu em oito dos nove estados da Bolívia, incluindo o ex-reduto da oposição de Santa Cruz, um centro de agronegócio nas terras do leste onde obteve 51%, de acordo com a Ipsos.

Morales está agora no caminho de se tornar o líder boliviano que está há mais tempo no poder, superando o Marechal Andrés de Santa Cruz no século 19, um dos fundadores da república e que esteve à frente do país de 1829 a 1839.

Embora conhecido internacionalmente por sua retórica anti-imperialista e socialista, o líder sindical de 55 anos dos cocaleiros é muito popular por sua administração econômica pragmática que espalhou a riqueza mineral e gás natural da Bolívia entre as massas.

Um "boom" dos preços das commodities aumentaram as receitas de exportação da Bolívia em até nove vezes sob a vigilância de Morales. O crescimento econômico tem uma média de 5% ao ano, bem acima da média regional. A metade de um milhão de bolivianos colocaram a situação de pobreza para trás desde que o primeiro presidente indígena ficou à frente do país, em 2006.

Projetos de obras públicas tomam conta do país, incluindo um satélite projetado para oferecer Internet para as escolas rurais, uma fábrica de fertilizantes e um brilhante sistema de teleféricos novos em La Paz. Sua mais recente promessa é iluminar La Paz com energia nuclear.

Um tribunal decidiu no ano passado que Morales poderia concorrer a um terceiro mandato porque o primeiro precedia uma reescrita da constituição. Todos os assentos estavam em disputa - 36 membros do Senado e 130 da Câmara dos deputados.

Os resultados não estavam imediatamente disponíveis, mas sondagens indicam que o presidente caiu um pouco abaixo do limiar necessário para que a constituição seja alterada e ele tenha direito a concorrer a um quarto mandato.

Críticos de Morales dizem que ele gastou dezenas de milhões em verba pública em sua campanha, dando-lhe uma vantagem injusta. E ativistas que defendem a liberdade o acusam de tentar silencia-los. Morales não compareceu ao debate presidencial e a TV estatal não transmitiu as imagens.

"Não há oposição funcional, esquerda, direita ou qualquer outra forma", disse Jim Shultz, diretor-executivo do Centro de Democracia de esquerda com base na Bolívia e em San Francisco.

Morales capitalizou sua imagem de homem comum e consolidou seu controle sobre as instituições do Estado. Ele há muito tempo esmagou a oposição, nacionalizou utilitários-chave e renegociou os contratos de gás natural para dar ao governo uma fatia maior dos lucros.

Sua equipe de marketing ergueu um culto de personalidade em torno dele. Estádios, mercados, escolas, empresas estatais e até mesmo uma aldeia levam o nome de Morales. No centro da capital, equipes estão construindo um segundo palácio presidencial, um centro de 20 andares completo com um heliporto.

No entanto, Morales tem desrespeitado ambientalistas e muitos ex-aliados indígenas ao promover a mineração e uma rodovia selva planejado através de uma reserva indígena.

E apesar dos avanços econômicos da Bolívia, ele ainda é o país mais pobre da América do Sul. Quase um em cada quatro bolivianos vivem com 2 dólares por dia, quase cinco reais, segundo o Banco Mundial. Muitos analistas acreditam que a Bolívia depende muito dos recursos naturais e é especialmente suscetível à flexibilização atual da demanda de commodities da China.

A economia ilegal da cocaína também recebe crédito por parte do "boom" econômico boliviano. O ex-secretário antidrogas do Peru, Ricardo Soberón, estima que a receita anual da droga equivale a US$ 2,3 bilhões, cerca de 5,4 bilhões, equivalente a aproximadamente 7% do produto interno bruto. Morales promove usos tradicionais da coca, mas afirma tolerância zero para a cocaína.

Os Estados Unidos, porém, consideram que a Bolívia não coopera na guerra contra as drogas e suspendeu as preferências comerciais ao país. Morales expulsou o embaixador dos Estados Unidos em 2008, acusando-o de incitar a oposição e no ano passado retirou do país a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional.

"Será cada vez mais difícil para Evo manter o equilíbrio", disse Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, com sede em Washington. "Apesar de Evo provar que é um político engenhoso e resistente, que conhece bem seu país bem, surpreenderia se os próximos cinco anos fossem tão maravilhosos como os últimos cinco anos."

*Com AP

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