Camiseta com sangue, garfo sem lavar: são muitas as relíquias de João Paulo 2º

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Juntamente com João 23, papa polonês será canonizado no domingo na mesma praça onde sofreu tentativa de assassinato

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Dentro de uma capela nos arredores de Roma, uma freira usa uma chave para abrir um painel de madeira na parede, revelando um recipiente escondido. Atrás de um vidro e anexado de forma folgada a uma base de apoio está uma relíquia de sofrimento sagrado: a camiseta manchada de sangue e furada com tiros que João Paulo 2º vestia quando um atirador disparou contra sua barriga na Praça de São Pedro.

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Camiseta íntima manchada de sangue usada por João Paulo 2º quando sofreu tentativa de assassinato em 13/5/1981 é vista em Roma em 10/4/2014

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A vestimenta de mangas curtas tem as iniciais "JP" costuradas em um relevo de linha vermelha na etiqueta por freiras que lavavam suas roupas. Rasgos irregulares aparecem a partir do pescoço e nas laterais, feitos quando a equipe de emergência rasgou a camiseta de João Paulo enquanto corria para salvar a vida do pontífice de 60 anos.

A peça é uma das mais marcantes de uma infindável série de relíquias de João Paulo, que será declarado santo no domingo na exata mesma praça onde um turco aspirante a assassino disparou contra ele em 13 de maio de 1981.

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As relíquias de João Paulo usufruíram de um crescimento desde que o amado papa foi beatificado em 2011 e ganham um significado maior — assim como são mais veneradas — antes de sua canonização juntamente com João 23 em 27 de abril. O fenômeno tem sido estimulado pelo seu confidente e secretário de longa data polonês, Stanislaw Dziwisz, que as distribui para igrejas que as pedem. O Vaticano também desempenhou um papel na febre por elas ao quebrar suas próprias regras e permitir uma veneração mundial às relíquias de João Paulo assim que ele foi beatificado em vez de esperar que se tornasse santo.

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A famosa camiseta íntima foi descoberta pela enfermeira-chefe na sala de operação da Policlínica Gemelli, de Roma, quando ela limpava o chão.

Veja fotos do papa João Paulo 2º: 

Papa João Paulo 2º (foto de arquivo). Foto: APPapa João Paulo 2º (D) é ajudado por seu secretário pessoal, Stanislaw Dziwisz, ao chegar em Como, norte da Itália (4/5/1996). Foto: APAinda cardeal, Karol Józef Wojtyla é fotografado no Vaticano (3/10/1978). Foto: APJoão Paulo 2º saúda os fiéis reunidos na praça São Pedro depois de ser eleito papa (16/10/1978). Foto: APAngelina Tsukas-Spiers recebe visita de João Paulo 2º no hospital São José em Phoenix, EUA (14/9/1987). Foto: APPapa João Paulo 2º acena ao chegar na praça Youido, em Seul, para uma missa (8/10/1989). Foto: APPapa João Paulo 2º ajoelha e beija o chão ao chegar no aeroporto de Cartum, no Sudão (10/2/1993). Foto: APPapa João Paulo 2º cumprimenta fiéis em uma igreja de Paris, na França (19/11/1995). Foto: APFiéis se reúnem em luto em estrada que leva à Praça São Pedro, no Vaticano (6/4/2005). Foto: AP

"Ela entendeu que a vestimenta poderia ser importante", disse a irmã Amelia Cicconofri, que mostra a peça na igreja Regina Mundi quando requisitada. "Ela a recolheu, a enrolou em uma toalha e a manteve no armário de sua casa."

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A enfermeira Anna Stanghellini, que passou os últimos anos de sua vida no convento da igreja, doou a camiseta para as freiras locais, deixando à posteridade um testemunho vivo e tangível do sofrimento físico de João Paulo.

As relíquias de João Paulo de nenhuma forma se limitam a Roma. Ele foi o primeiro papa das viagens internacionais e deixou coisas associadas a si mesmo em todo o globo. Para se qualificar como relíquia, um objeto precisa apenas ter estado em contato físico com o santo em questão.

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O restaurante na área de Manila onde João Paulo jantou durante sua peregrinação de 1995 às Filipinas expõe a colher, o garfo, as facas, o cálice de água e o guardanapo de mesa — todos ainda sem lavar depois de sua refeição de peixe grelhado e camarão frito. Em outros lugares da nação asiática predominantemente católica, shoppings mostram neste mês fios de seu cabelo branco-grisalho e um pedaço da roupa de cama de seu leito de morte.

Considerando que ele foi o terceiro pontífice mais longevo, "João Paulo provavelmente tem coisas em todos os lugares", disse o reverendo Raymond Kupke, professor de história da igreja na Universidade Seton Hall, em New Jersey. "Se você pensar em todos os lugares onde ele esteve, a quantidade de relíquias é enorme."

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Uma minúscula igreja no interior de Nápoles lotou seus bancos durante nove dias no início deste ano quando expôs um reliquário banhado em ouro contendo uma gota de sangue retirado de João Paulo para análise no seu último dia na Terra. Para os fiéis, ela é um testamento profundamente comovente da coragem do papa perante a morte e o sofrimento.

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João 23 e João Paulo 2º serão canonizados no domingo

"Esse é o último sangue tirado do Santo Padre, seu último dia de vida", disse o reverendo Jonas Gianneo, pastor da igreja Santa Maria Francesca delle Cinque Piaghe, em Casoria. O pastou relatou que a gota veio de um frasco de sangue guardado por Dziwisz, agora cardeal de Cracóvia.

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Em meio à proliferação de relíquias de João Paulo, vaticanistas dizem ser importante fazer alguns distinções: as relíquias são categorizadas pelo Vaticano como de "primeira classe" (aquelas que fazem parte do corpo do santo, como ossos e sangue), de "segunda classe" (itens que pertenceram ou foram usados pelo santo) e de "terceira classe" (em sua maioria coisas que foram tocadas pelo santo).

Não são apenas as hierarquias estimam uma relíquia de João Paulo. O monsenhor Piero Marini, o braço direito do papa durante décadas, disse à Associated Press que "de vez em quando" guardava alguns dos lenços usados pelo pontífice nas cerimônias, especialmente as últimas. "Ainda os tenho", disse.

Ele também guardou uma roupa manchada de sangue quando uma vez João Paulo se machucou na porta de um carro. Isso decididamente é um evento menor em comparação com uma tentativa de assassinato papal — e Marini expressou respeito à camiseta ensanguentada.

"Quando colocaram sob o vidro", disse, "tive uma visão da camiseta quase como um ícone, porque você vê as feridas, o sangue". As verdadeiras relíquias "são aquelas do corpo", afirmou Marini. "O corpo é o lugar onde o Espírito Santo produziu seus efeitos, onde trabalhou."

A venda de relíquias é um sacrilégio — mas nada impede os fiéis de fazer uma "doação" a quem fornecê-la ou de adquirir o recipiente ornamentado em que está a própria relíquia.

O outro papa que se tornará santo no domingo — João 23 — não atraiu nada comparado ao frenesi das relíquias de João Paulo. João 23, que convocou o revolucionário Concílio Vaticano 2º, apenas atuou como papa durante quatro anos e meio, e simplesmente não há tantos objetos associados a ele.

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