Destituições por denúncias de abuso sexual ocorreram ainda sob Bento 16, que renunciou ao pontificado

Nos dois últimos anos de seu pontificado, o papa Bento 16 expulsou 400 padres acusados de pedofilia e abusos sexuais, mais do que o dobro das destituições nos dois anos anteriores a 2010, quando explodiram as denúncias contra párocos. A revelação está num documento oficial obtido pela agência Associated Press. O Vaticano confirmou as informações neste sábado (18).

Relembre a trajetória de Bento 16
Infográfico: o pontificado de Bento 16

Trata-se da primeira compilação de padres expulsos por pedofilia em toda a história da Igreja Católica - e uma indicação, segundo vaticanistas, de que o número é ainda maior, já que não inclui os processos no âmbito das dioceses.

Fotos: da coração à renúncia, a era Bento 16


A maneira com a qual a Igreja passou a lidar com padres pedófilos mudou radicalmente desde 2011, ano em que o Vaticano ordenou que os bispos enviassem a Roma, para posterior investigação, todas as denúncias envolvendo abusos sexuais.

Ainda antes de se tornar papa, o então cardeal Joseph Ratzinger reforçou a necessidade de enfrentamento do problema - tradicionalmente, os bispos simplesmente mudavam de paróquia os padres envolvidos em denúncias.

Francisco
Se com Bento 16 a punição aos padres pedófilos parece ter sido implacável, isso não deverá mudar no pontificado de Francisco.É o que garante o monsenhor Charles Scicluna, maior autoridade católica sobre a crise dos abusos da Igreja. Ele diz que, no ano passado, outros 100 clérigos foram expulsos pela mesma razão.

Scicluna disse que Francisco, a despeito de sua natureza misericordiosa, seria muito duro com clérigos pedófilos após a crise que o papa chamou de "a vergonha da igreja". "Eu me encontrei-me com Francisco e ele expressou grande determinação para continuar na linha de seus antecessores", disse Scicluna , que atuou no Vaticano por 17 anos antes de ser nomeado bispo auxiliar em Malta em 2012.

"Seu evangelho da misericórdia é muito importante, mas não é uma misericórdia barata. Tem que respeitar a verdade e as exigências da justiça ", disse Scicluna em entrevista por telefone.

O papa, eleito em março passado, criou uma comissão de especialistas em dezembro para enfrentar o abuso sexual de crianças na Igreja Católica, no primeiro grande passo para enfrentar uma crise que tem assolado a instituição por duas décadas.

O grupo vai estudar formas de melhor vigiar sacerdotes, proteger os menores e as vítimas nas acusações em que o Vaticano não fez o suficiente para proteger os mais vulneráveis ou fazer as pazes.

Em 2012, quando Scicluna ainda estava em seu trabalho anterior, no Vaticano, ele criou uma polêmica quando pronunciou a palavra "omerta" - geralmente usada para descrever o código da máfia siciliana de silêncio - em relação à crise dos abusos sexuais na Igreja.

Ele usou-o novamente neste sábado em resposta a uma pergunta. "Eu acho que há um sinal claro de que 'omerta' não é a forma como a Igreja deve responder", disse ele.

A igreja teve de pagar centenas de milhões de dólares em indenizações por casos de abuso sexual em todo o mundo, levando à falência uma série de dioceses.

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