Em dois anos, Vaticano expulsou 400 padres por denúncias de pedofilia

Por iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Destituições por denúncias de abuso sexual ocorreram ainda sob Bento 16, que renunciou ao pontificado

Nos dois últimos anos de seu pontificado, o papa Bento 16 expulsou 400 padres acusados de pedofilia e abusos sexuais, mais do que o dobro das destituições nos dois anos anteriores a 2010, quando explodiram as denúncias contra párocos. A revelação está num documento oficial obtido pela agência Associated Press. O Vaticano confirmou as informações neste sábado (18).

Relembre a trajetória de Bento 16
Infográfico: o pontificado de Bento 16

Trata-se da primeira compilação de padres expulsos por pedofilia em toda a história da Igreja Católica - e uma indicação, segundo vaticanistas, de que o número é ainda maior, já que não inclui os processos no âmbito das dioceses.

Fotos: da coração à renúncia, a era Bento 16

Papa Bento 16 anunciou que deixará o cargo no próximo dia 28. Foto: APJoseph Ratzinger nasceu em 1927, numa pequena Alemã. Em 1939, entra no seminário, mas em 1943 é obrigado a se alistar no Exército. Foto: Getty ImagesEle deserta dois anos depois e é preso no campo aliado. Em 1951, é ordenado sacerdote pelo arcebispo de Munique. Foto: Getty ImagesEm 1953, obtém o doutorado em teologia e depois participa do Segundo Concílio do Vaticano.  Em 1977, é nomeado arcebispo e meses depois é elevado a cardeal. Foto: Getty ImagesEm 2002, tornou-se Decano do Colégio dos Cardeais. É um dos mais influentes integrantes da Cúria Romana e um dos principais conselheiros do papa João Paulo 2. Foto: Getty ImagesEm 19 de abril de 2005, aos 78 anos, é eleito papa pelo colégio de cardeais. É o 265ª pontífice e escolhe o nome de Bento 16. Foto: Getty ImagesPapa Bento 16 celebra missa de Natal de balcão da basílica de São Pedro, no Vaticano. Foto: AFPConhecido por posturas mais conservadoras dentro da Igreja, coleciona polêmicas em seu pontificado. Foto: AFP Em junho de 2005, condena o uso de preservativos no combate à Aids. E, em novembro, impõe restrições a homossexuais se tornarem padres. Foto: APPapa recebeu os principais líderes do planeta. Na imagem, com o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. Foto: AFPBento 16 e parlamentares britânicos no Westminster Hall, em Londres. Foto: AFPPapa Bento 16 caminha ao lado do príncipe Felipe e da princesa Letizia após desembarcar em Santiago de Compostela, Espanha. Foto: AFPPapa Bento 16 se reúne com bispos da Inglaterra, Escócia e País de Gales em seu último dia de visita ao Reino Unido. Foto: AFPPapa Bento 16 se encontra com o primeiro-ministro inglês David Cameron. Foto: APPapa Bento 16 é recebido pelo duque de Edimburgo. Foto: APPapa com o jornalista Peter Seewald (E). Foto: AFPPapa Bento 16 (à esq.) observa apresentação de acrobatas do circo italiano Moira Orfei, Irmãos Pellegrini, durante sua audiência semanal no Vaticano. Foto: AFPA mãe da ex-refém Íngrid Betancourt se reuniu com o papa Bento 16. Ele falou que sempre rezava pela ex-refém. Foto: ReutersIngrid Betancourt se encontra com Bento 16, na Itália. Foto: Getty ImagesPapa Bento 16 (à dir.) e a Rainha Elizabeth 2ª observam guarda de honra da Companhia Real de Arqueiros na chegada do pontífice ao Palácio de Holyroodhouse, em Edinburgh. Foto: APPapa comprimenta o cardeal George Pell, no Kenthurst Study Center, em Sydney, Austrália. Foto: AFP PHOTO/Francesco SforzaBento 16 visita Sulmona para comemorar 8º centenário de Celestino V. Foto: © APEm maio de 2007, Bento 16 fez sua visita o Brasil e foi recebido pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: AEAinda no Brasil, o papa celebrou missa em São Paulo, em Aparecida e canonizou Frei Galvão, primeiro santo brasileiro. Foto: AFPPresidente Lula e a primeira-dama, Marisa Letícia, presenteiam Bento 16 durante encontro no Vaticano. Foto: AFPLula e o papa Bento 16 durante o encontro no Vaticano . Foto: Ricardo Stuckert/PREm abril de 2008, faz sua primeira visita aos Estados Unidos, onde encontra vítimas de abuso sexual por membros da Igreja Católica. Foto: AFPPapa encontra o ex-presidente norte-americano George Bush. Foto: AFPPapa Bento 16 assiste ao concerto regido por Inma Shara em homenagem aos 60 anos da Declaração, na cidade de Frankfurt, na Alemanha. Foto: AFPPresidente israelense Shimon Peres recebe Bento 16 no desembarque no aeroporto de Tel Aviv, em Israel. Foto: APPapa encontra líderes religiosos. Em 2009, ele suspendeu a expulsão de quatro bispos conservadores, entre eles um líder que negava a existência do Holocausto. Foto: APMeses depois, em visita a Israel, voltou a decepcionar líderes judeus com discurso considerado brando. Foto: ReutersPomba branca é solta durante a tradicional benção do Angelus que o Papa Bento 16 celebra no Vaticano. Foto: AFPPapa Bento 16 acena para a multidão durante sua audiência semanal no Vaticano. Foto: APStephen Hawking também encontrou-se com Papa Bento 16 no Vaticano. Foto: EFEEm março de 2009, em visita a Camarões e Angola, papa voltou a condenar o uso de preservativos. Foto: Reuters/Romeo RanocoPapa afirmou que a distribuição de preservativos “não resolve o problema da Aids”. Foto: APPapa e presidente de Camarões, Paul Biya, e a primeira-dama, Chantal. Foto: ReutersEvo Morales, presidente da Bolívia, se encontrou com o papa Bento 16. Foto: AFPPapa posa com o ex-presidente dos EUA, George Bush, na base de Maryland. Foto: APObama e a esposa tem primeiro encontro com papa Bento 16. Foto: APPapa visita à gruta, onde Virgem Maria teria dado a luz, na Igreja da Natividade, em Belém. Foto: ReutersBandeira do Brasil é vista durante missa para 40 mil pessoas no Monte do Precipício, em Nazaré. Foto: APA rainha Rania, da Jordânia, foi ao Vaticano em 2007 e teve encontro privado com o papa Bento 16. Foto: Getty ImagesPapa é recebido pela rainha Rania da Jordânia ao desembarcar no aeroporto de Amã. Foto: ReutersPapa reza na igreja Dama da Paz, em Amã, na Jordânia. Foto: ReutersPapa Bento 16 e o rei da Jordânia, Abdullah 2º, posam para foto no aeroporto de Amã. Foto: Getty ImagesPapa Bento 16 durante audiência semanal na Praça de São Pedro, no Vaticano. Foto: ReutersPapa Bento 16 deixa sua audiência geral semanal na Praça São Pedro, no Vaticano. Foto: ReutersPapa Bento 16 ao lado do rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni. Foto: AFPDom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, é proclamado cardeal por Bento 16 na Basílica de São Pedro. Foto: Christophe Simon/AFPMedvedev, primeiro-ministro da Rússia, e Bento 16 trocam presentes no Vaticano. Foto: ReutersApós sofrer uma queda, Bento 16 foi submetido a uma cirurgia no pulso direito. Foto: ReutersEm 2010, explodem denúncias de abuso sexual de menores por membros da Igreja Católica. Foto: AFPEm resposta às pressões, o papa divulga uma carta na qual expressa “vergonha” pelos crimes de pedofilia e pede “desculpas às vítimas”. Foto: APEm setembro de 2012, papa visitou o Líbano e fez um discurso pela paz. Foto: ReutersPapa Bento 16 pediu que os cristãos ajudem para o fim do “caminho sombrio da morte” no Líbano e pediu paz. Foto: ReutersDom Fernando Panico e o papa Bento 16. Assunto foi o reconhecimento das romarias do Padre Cícero. Foto: Divulgação/Diocese do CratoPara Bento 16 durante encerramento de Jornada Mundial da Juventude, em Madrid, na Espanha. Próxima etapa, já com novo papa, será no Rio de Janeiro, neste ano. Foto: APPapa Bento 16 fala com a chanceler alemã, Angela Merkel, na sede da Conferência de Bispos Alemães em Berlim. Foto: APBento 16 acena para fiéis em frente à catedral de Erfurt, na Alemanha. Foto: APPresidente do Benin, Thomas Yayi Boni (E), cumprimenta papa Bento 16 em sua chegada a Cotonou. Foto: AFPPapa nomeia cardeais, na Basílica São Pedro, Vaticano. Foto: APPapa Bento 16 atraiu multidões durante sua visita ao México e usou o chapéu tradicional do país. Foto: APBento 16 é recebido no aeroporto de Santiago de Cuba. Foto: APBento 16 foi recebido por Raúl Castro, em Santiago de Cuba. Foto: APVisita a Cuba foi realizada 14 anos após a viagem do papa João Paulo 2º. Foto: APFoto divulgada pelo Osservatore Romano, jornal do Vaticano, mostra papa Bento 16 com o líder cubano Fidel Castro em Havana. Foto: APPapa durante o anúncio de sua renúncia, no Vaticano. Foto: AP


A maneira com a qual a Igreja passou a lidar com padres pedófilos mudou radicalmente desde 2011, ano em que o Vaticano ordenou que os bispos enviassem a Roma, para posterior investigação, todas as denúncias envolvendo abusos sexuais.

Ainda antes de se tornar papa, o então cardeal Joseph Ratzinger reforçou a necessidade de enfrentamento do problema - tradicionalmente, os bispos simplesmente mudavam de paróquia os padres envolvidos em denúncias.

Francisco
Se com Bento 16 a punição aos padres pedófilos parece ter sido implacável, isso não deverá mudar no pontificado de Francisco.É o que garante o monsenhor Charles Scicluna, maior autoridade católica sobre a crise dos abusos da Igreja. Ele diz que, no ano passado, outros 100 clérigos foram expulsos pela mesma razão.

Scicluna disse que Francisco, a despeito de sua natureza misericordiosa, seria muito duro com clérigos pedófilos após a crise que o papa chamou de "a vergonha da igreja". "Eu me encontrei-me com Francisco e ele expressou grande determinação para continuar na linha de seus antecessores", disse Scicluna , que atuou no Vaticano por 17 anos antes de ser nomeado bispo auxiliar em Malta em 2012.

"Seu evangelho da misericórdia é muito importante, mas não é uma misericórdia barata. Tem que respeitar a verdade e as exigências da justiça ", disse Scicluna em entrevista por telefone.

O papa, eleito em março passado, criou uma comissão de especialistas em dezembro para enfrentar o abuso sexual de crianças na Igreja Católica, no primeiro grande passo para enfrentar uma crise que tem assolado a instituição por duas décadas.

O grupo vai estudar formas de melhor vigiar sacerdotes, proteger os menores e as vítimas nas acusações em que o Vaticano não fez o suficiente para proteger os mais vulneráveis ou fazer as pazes.

Em 2012, quando Scicluna ainda estava em seu trabalho anterior, no Vaticano, ele criou uma polêmica quando pronunciou a palavra "omerta" - geralmente usada para descrever o código da máfia siciliana de silêncio - em relação à crise dos abusos sexuais na Igreja.

Ele usou-o novamente neste sábado em resposta a uma pergunta. "Eu acho que há um sinal claro de que 'omerta' não é a forma como a Igreja deve responder", disse ele.

A igreja teve de pagar centenas de milhões de dólares em indenizações por casos de abuso sexual em todo o mundo, levando à falência uma série de dioceses.

Leia tudo sobre: VaticanopedofiliaIgreja Católica

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas