Presidente da França sugere que escândalo revelado por revista alemã pode prejudicar negociações comerciais

O presidente da França, François Hollande, exigiu nesta segunda-feira (1º) que os EUA imediatamente suspendam seu suposto monitoramento por meio de escutas dos diplomatas da União Europeia e sugeriu que o escândalo da vigilância americana poderia fazer desandar negociações de livre comércio no valor de bilhões de dólares.

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Presidente da França, François Hollande, discursa sobre situação no Mali no Palácio do Eliseu, Paris (arquivo)
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Presidente da França, François Hollande, discursa sobre situação no Mali no Palácio do Eliseu, Paris (arquivo)

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O governo de Obama enfrenta uma crise de confiança de importantes aliados em relação às suas atividades de espionagem. A reação dos países europeus diante da mais recente descoberta sobre o alcance dos programas secretos de vigilância dos EUA indica que a questão não deverá ser esquecida tão rapidamente.

No domingo, a versão online da revista semanal alemã Der Spiegel informou que a Agência Nacional de Segurança (NSA, sigla em inglês) grampeou diplomatas de nações aliadas - nos escritórios da União Europeia em Washington, Nova York e Bruxelas. A reportagem foi parcialmente baseada em uma série de revelações de escutas dos EUA, vazadas pelo ex-funcionário da NSA Edward Snowden .

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Segundo a publicação, a NSA plantou escutas nos escritórios da União Europeia e se infiltrou na rede de computadores do prédio. Medidas semelhantes foram tomadas durante a missão da União Europeia nas Nações Unidas em Nova York. A revista também informou que a NSA usou instalações de segurança na sede da Otan em Bruxelas para conseguir interceptar ligações de autoridades e o tráfego da internet em um escritório da União Europeia nas proximidades.

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A Der Spiegel citou documentos confidenciais dos EUA que estariam em posse de Snowden. A publicação não divulgou os supostos documentos da NSA que citou nem disse como teve acesso a eles.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, disse na segunda-feira que não sabia dos detalhes dessas alegações, mas tentou reduzi-las, afirmando que muitas nações realizam diferentes tipos de atividade para proteger seus interesses nacionais. Ele não conseguiu, entretanto, conter a indignação dos aliados, incluindo a França, Alemanha e Itália.

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"Não podemos aceitar esse tipo de comportamento de parceiros e aliados", disse Hollande à televisão francesa na segunda-feira. Ele insistiu que os EUA expliquem suas práticas e suspenda as escutas imediatamente.

Hollande também fez uma ameaça velada de que a França evitaria chegar a um acordo em negociações importantes sobre um acordo de livre comércio que poderia conectar os países que representam quase metade da economia global. O acordo poderia servir de modelo para tratados semelhantes no futuro.

"Podemos apenas ter negociações, transações, em todas as áreas, uma vez que obtemos essas garatias para a França, mas isso vale para toda a União europeia e eu diria para todos os parceiros dos EUA", disse.

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"Espionar amigos é inaceitável", disse o porta-voz do governo alemão Steffen Seibert a repórteres em Berlim. "Não estamos mais na Guerra Fria."

A Alemanha é um dos países mais ansiosos em alcançar um acordo comercial com os EUA, e provavelmente tentará manter baixo o tom de suas críticas contra Washington.

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O executivo da União Europeia em Bruxelas, A Comissão Europeia, também exigiu explicações. Seu chefe para assuntos externos falou com o secretário de Estado John Kerry nesta segunda sobre as mais recentes descobertas em uma conferência no sudeste asiático.

"Eu vou dizer que cada país no mundo que está comprometido em negócios internacionais com a segurança nacional realiza muitas atividades para proteger sua segurança nacional e todos os tipos de informações contribuem com isso", disse Kerry em Brunei, acrescentando que ele tem estado muito ocupado com reuniões sobre o processo de paz do Oriente Médio e não estava a par dos últimos acontecimentos do caso.

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"Tudo o que eu sei é que não é incomum para muitas nações. Mas além disso não vou comentar até eu ter todos os fatos e descobrir precisamente qual situação é esta", disse.

A abrangência dessas práticas não ficou clara. Mas algumas nações na Europa levantaram preocupações sobre os esforços dos EUA de incluir espionagem econômica contra seus aliados. Quando questionada se a Alemanha espionava seus aliados, Seibert respondeu: "Não é a política do governo alemão fazer escutas em países amigos em suas embaixadas. Isso deveria ser óbvio."

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Itália também elevou o tom de suas críticas sobre os programas de vigilância nesta segunda-feira com a chanceler Emma Bonino dizendo que a Itália pediu aos americanos para os "esclarecimentos necessários sobre essa questão muito espinhosa". Em comunicado, Emma disse que os americanos haviam prometido fornecer esclarecimentos para a União Europeia e individualmente para cada Estado membro.

Ainda assim, a ameaça para as negociações comerciais provavelmente será mínima. Negociações técnicas geralmente decorrem em um nível separado das considerações políticas e, até o momento, não se soube de nenhum plano da União Europeia para deixar que a primeira rodada de negociações do livre comércio fracasse por causa do escândalo de espionagem. A primeira rodada está sendo organizada pelo governo americano para ocorrer em Washington de 8 a 12 de julho.

Com AP

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