Sem mesmo dom da palavra e proximidade popular do seu mentor político, Nicolás Maduro foi eleito em votação apertada e promete continuação da 'revolução socialista'

Ao pé do túmulo de Hugo Chávez , Nicolás Maduro fez uma promessa a seu mentor político: retornar em 15 de abril como presidente eleito da Venezuela. E ele cumpriu sua palavra, embora tenha sido mais difícil do que esperava .

O sucessor do ex-presidente, eleito para continuar a "revolução socialista" criada por Chávez, venceu as eleições presidenciais de domingo com 50,66% dos votos, uma diferença de 1,6 ponto percentual em relação ao adversário Henrique Capriles .

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Nicolás Maduro agradece aos seus eleitores durante ida ao colégio eleitoral em Caracas no domingo (14/4)
AP
Nicolás Maduro agradece aos seus eleitores durante ida ao colégio eleitoral em Caracas no domingo (14/4)

Maduro, de 50 anos, dedicou a vitória a Chávez e disse que não tinha medo da recontagem de votos exigida pela oposição . "Ele me deixou com uma vontade e me disse o que fazer... Missão cumprida comandante Chávez, o povo cumpriu seu juramento", disse a centenas de seguidores à beira da "sacada do povo" no palácio de Miraflores, onde seu mentor também fazia seus discursos de vitória.

Maduro, com uma carreira política que nasceu, desenvolveu-se e atingiu seu clímax sob a asa de Chávez, condensa o sonho socialista do rapaz pobre que chega o topo. Com um diploma de ensino médio debaixo do braço, Maduro começou a dirigir ônibus no sistema de transporte público de Caracas e se tornou sindicalista, ativista e parlamentar.

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Por força de uma lealdade inabalável durante os 14 anos de governo Chávez , abriu caminho para ser nomeado chanceler e depois vice-presidente. Mas ele não tem o carisma, o talento oratório ou a proximidade com as pessoas do povo como Chávez sempre teve.

Ele pediu o apoio do povo para "fazer as mudanças que são necessárias para que a revolução viva um processo de renovação, de arejamento, de impulso". "No que me resta de vida, eu juro a esse povo, vamos nos dedicar por inteiro a cumprir o seu legado."

Sua estratégia de mimetizar Chávez deu frutos e 7,5 milhões de venezuelanos o apoiaram nas urnas, com a certeza de que manterá as generosas políticas sociais de que gozam e que vão desde subsídios alimentares até a entrega de casas.

À frente, enfrentará desafios como os grandes desequilíbrios econômicos para cimentar sua legitimidade como herdeiro de Chávez dentro de um partido heterogêneo formado por políticos, militares, grupos armados e empresários. "Todos juntos somos Chávez. Individualmente somos nada, perdemos tudo", disse ele várias vezes durante a curta campanha.

Temas pendentes

Maduro apresentou duas questões pendentes que o governo ainda não foi capaz de resolver em quase cinco décadas: o aumento da criminalidade e a ineficiência do gigante aparelho estatal. Seu outro desafio é a economia. Analistas roem as unhas para calcular o déficit e a dívida que o país teria, apesar de ter as maiores reservas de petróleo no mundo.

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Os venezuelanos têm de lidar com a inflação de dois dígitos que dispara o custo de vida, as ondas de escassez de matérias-primas e as lacunas em serviços de eletricidade e água, enquanto as empresas queixam-se de férreos limites de preços e a seca de dólares devido aos controles no câmbio.

Perfil conciliador

Alguns acreditam que Maduro poderia ser mais conciliador do que Chávez e abrir um incipiente canal de diálogo. Quase sempre com um sorriso por trás de seu farto bigode, ele parece ser imbuído de uma calma constante - algo que pode estar relacionado com suas crenças hinduístas.

Nicolás Maduro e sua mulher Cilia Flores comemoram a vitória nas urnas
AP
Nicolás Maduro e sua mulher Cilia Flores comemoram a vitória nas urnas

Em seu período como chanceler - em outubro de 2012, passou a acumular também a vice-presidência - Maduro ganhou fama de amável nos círculos diplomáticos latino-americanos, mas isso não impediu que fosse também um duro crítico do "império" e o co-artífice de uma política externa que deu tantos desgostos a Washington.

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Como chefe da diplomacia venezuelana, Maduro seguiu a linha chavista de buscar abertamente "a construção de um mundo multipolar livre da hegemonia do "imperialismo norte-americano". Ele foi considerado uma peça-chave na aplicação da política externa do país além das fronteiras latino-americanas, para se aproximar de qualquer governo que pudesse rivalizar com os Estados Unidos por uma questão ou outra. '

Maduro fez parte da Assembleia Constituinte que redigiu a Constituição Bolivariana proposta por Chávez, em 1999. Posteriormente, foi eleito deputado e chegou ao posto de presidente do Legislativo em 2005. Em 2006, atendeu a um pedido de Chávez para assumir o cargo de ministro das Relações Exteriores, nomeação que foi muito criticada pelos opositores, já que o chanceler não tem formação universitária.

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Como para demonstrar pouco caso das críticas que recebe entre os círculos opositores, Maduro chegou a dirigir o caminhão sobre o qual Chávez fazia campanha para as eleições presidenciais de 7 de outubro. O chanceler era citado por Chávez como exemplo de gente do povo que exerce o poder diretamente e não por meio de representantes provenientes das classes mais abastadas.

"Olha onde vai Nicolás, de motorista de ônibus a vice-presidente. E como ri da burguesia por isso", afirmou o presidente pouco depois de ganhar as eleições de outubro passado. "Tremendo chanceler", afirmou Chávez em um ato solene durante o 201º aniversário da independência. Entretanto, o chanceler também teve momentos "pouco diplomáticos" nos quais pareceu perder sua compostura tranquila, como quando chamou de "funcionariozinho" o subsecretário de Estado dos Estados Unidos John Negroponte.

E apesar de ser considerado como um dos menos radicais no governo em política interna, Maduro chegou a chamar Capriles, de "bichona e fascista". Posteriormente, Maduro se desculpou pela expressão, dizendo que ela "tinha outra conotação" e que "não especularia com a opção sexual de Capriles nem de ninguém".

'Persona non grata'

A última vez que Maduro havia sido destaque na imprensa latino-americana, antes de ter sido nomeado vice-presidente, foi por sua intervenção na crise política paraguaia que terminou com a destituição do então presidente Fernando Lugo . Maduro foi parte da comitiva de chanceleres organizada por diferentes governos da região logo após a informação de que Lugo estava a ponto de ser destituído.

O venezuelano terminou sendo acusado pelo novo governo paraguaio de atiçar os militares para que se revoltassem e defendessem Lugo, o que o levou a ser considerado persona non grata no país. Chávez aproveitou para voltar a expressar seu mais firme apoio ao seu número dois no governo ao dizer que o invejava por ter recebido tal distinção por parte de quem acusou de serem golpistas por terem tirado Lugo do poder.

O amigo

A proximidade entre Chávez e Maduro era de longa data. Remonta aos tempos em que o mandatário cumpriu pena na prisão de Yare pela tentativa de golpe de Estado que comandou em 1992. Na ocasião, Maduro se converteu em um ativista a favor da libertação de Chávez. Nessa época conheceu a mulher, a advogada Cilia Flores, que fazia a defesa do então coronel do Exército Chávez.

A amizade permaneceu forte ao longo dos anos. Nas imagens de Chávez em Cuba, durante seu tratamento contra o câncer, seus acompanhantes mais recorrentes eram suas filhas e Maduro. De fato, Maduro era considerado um dos poucos confidentes do presidente que teve acesso aos detalhes do diagnóstico, que recebeu tratamento de segredo de Estado até a morte de Chávez, em março.

Com Reuters e BBC

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