Papa de 'transição', Bento 16 enfatizou resgate da tradição católica

Por Bruna Carvalho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Pontífice, que deixa cargo nesta 5ª, foi o 1º a atuar em um mundo totalmente globalizado, onde buscou retorno a elemento fundamental do catolicismo - o encontro com Jesus Cristo

À frente de um pontificado que será lembrado popularmente pelos escândalos de pedofilia e de corrupção, Bento 16, prestes a ser o primeiro "papa emérito" em quase seis séculos, pode ser considerado, segundo especialistas ouvidos pelo iG, como um "pontífice de transição" por ser o primeiro a atuar em um mundo completamente globalizado. Durante seus oito anos de papado (2005-2013), Bento 16 se concentrou na retomada do aspecto mais primitivo e ortodoxo do catolicismo, na rediscussão da transmissão da fé e nos esforços, embora criticáveis, de tornar o Vaticano mais transparente.

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Durante seu período à frente do comando da Igreja, Bento 16 se preocupou, assim como seu antecessor, em fazer uma revisão crítica das interpretações do Concílio Vaticano 2º. Convocado no início dos anos 60, o concílio tinha como principal objetivo debater o lugar da Igreja Católica no mundo contemporâneo. Enquanto os tradicionalistas acreditavam que a Igreja era uma instituição superior aos homens e que, portanto, não deveria ser rediscutida, os progressistas pontuavam que o concílio representava uma ruptura total com o conservadorismo e uma guinada liberal. Ao contrário dessas duas visões, Bento 16 e João Paulo 2º (1978-2005) enxergavam o concílio como um chamado à renovação por meio da tradição católica.

Segundo o professor Francisco Borba, coordenador do núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, diante de uma Igreja presa a normas, burocracias, aparências e esclerosada internamente, Bento 16 se ocupou da recuperação mística da experiência cristã, ou seja, do retorno ao elemento fundamental do catolicismo - o encontro com Jesus Cristo. Para o sociólogo, o papa sublinhou esse aspecto de maneira bem-sucedida e conseguiu convencer os integrantes dos movimentos de dentro da Igreja, das organizações eclesiásticas e das cúrias de que era necessário que a Igreja voltasse seu olhar a esse princípio mais ortodoxo.

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Apesar de não poder se considerado um papa que realizou mudanças profundas na Igreja Católica, Bento 16 pode ser visto como um pontífice que fez uma transição de um ciclo para outro na história da Santa Sé. Segundo Borba, ele pode ser apontado como o último papa de uma Igreja que ainda presta contas ao Concílio Vaticano 2º, que se ocupa de sua revisão, mas, ao mesmo tempo, o primeiro papa do mundo globalizado e tecnológico.

Outra marca deixada por seu pontificado é a preocupação em como transmitir a fé nesta era globalizada. De acordo com o padre Valeriano dos Santos Costa, diretor da Faculdade de Teologia da PUC-SP, Bento 16 foi o primeiro pontífice a perceber que a Igreja no Ocidente não podia mais contar com a evangelização pela cultura, que não é mais hegemonicamente católica, nem pela instituição familiar, que passou por mudanças nos últimos anos. Dessa forma, ele pôs em pauta a discussão sobre uma nova forma de evangelização promovendo, por exemplo, o Ano da Fé, que tem como proposta discutir o catolicismo, e convocando em 2012 um encontro com bispos que participaram do Concílio Vaticano 2º.

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Dentro da temática de promoção da fé católica, Bento 16 preocupou-se com a "qualidade" do fiel. Não que a quantidade de católicos não seja um dado preocupante: a Europa, principalmente, vive um forte processo de secularização, e apenas 25% dos católicos do mundo estão no continente, enquanto a América Latina - que abriga 40% dos católicos - apresenta um avanço das igrejas protestantes e pentecostais.

De acordo com analistas, entretanto, Bento 16 acredita que católicos bem formados, conhecedores da doutrina, teriam mais capacidade de converter não católicos, enquanto os não praticantes fariam com que a religião se fragmentasse ainda mais. "É necessário aprofundar a fé dos cristãos para qualificar a própria Igreja. Quando um líder diz uma coisa e os fiéis dizem o contrário, temos um aspecto preocupante", afirmou Costa, negando que ter fiéis mais fervorosos significa, necessariamente, que o tamanho do rebanho não seja importante. "Ele (o papa) só não está disposto a fazer concessões para aumentar esse rebanho", indicou Borba.

O Vaticano sob a administração de Bento 16 também realizou progressos em algumas partes de sua própria governança: o papa insistiu por uma maior transparência financeira, e o Vaticano passou por uma inspeção contra lavagem de dinheiro bastante reconhecida na Europa. Ele insistiu também em fazer um julgamento aberto a jornalistas do mordomo que o traiu, no caso do vazamento de documentos conhecido como VatiLeaks.

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Bento 16 assumiu a cadeira de São Pedro em um momento tumultuado, quando as denúncias de abuso de crianças na Igreja Católica começaram a estourar. O escândalo chegou ao auge em 2010, com milhares na Europa, Austrália e América do Sul denunciando ter sido molestadas sexualmente por padres – e acusando bispos de terem encoberto esses crimes. O pontífice nunca admitiu qualquer falha pessoal ou do Vaticano e só formalizou um pedido de desculpas às vítimas. Por outro lado, colocou-se na linha de frente ao reconhecer a necessidade de reformas e ao promover encontros e orações com as vítimas de abuso, o que ainda é considerado insuficiente.

"Ele teve uma abertura muito grande, orientações muito claras e precisas buscando tolerância zero para os membros da Igreja envolvidos", apontou o padre Pedro Gilberto Gomes, professor da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos). "Pode se fazer a crítica de que ele não foi suficientemente duro? Pode. Mas foi ele quem fez essa abertura."

Conservadorismo

À frente por 23 anos da Congregação da Doutrina para a Fé, que tem como função tutelar a fé católica contra a heresia, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, antes de se tornar Bento 16, ficou conhecido por perseguir teólogos mais liberais dentro da Igreja e ganhou a antipatia de muitos que discordavam de sua ortodoxia. Um exemplo é o caso de Leonardo Boff, ex-frade franciscano brasileiro, adepto à Teologia da Libertação - movimento que interpreta os ensinamentos da Igreja como uma libertação das injustiças sociais. Considerado marxista, teve o voto de silêncio imposto por Ratzinger nos anos 80.

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Quando assumiu o papado, em 2005, havia uma expectativa de que Ratzinger fosse tão rigoroso como papa Bento 16 quanto foi como cardeal. Mas para os especialistas, a rigidez como cardeal se devia, em parte, à função que ocupava e, no momento em que se tornou papa, acabou flexibilizando essa posição. O sociólogo Borba cita os encontros de Bento 16 com os teólogos da Libertação, como Hans Küng e Gustavo Gutiérrez, como exemplos das tentativas de reaproximação com linhas divergentes dentro da Igreja. Tais reuniões, entretanto, representaram mais um aceno do que uma ação com consequências práticas, como por exemplo uma maior pluralidade de ideias na alta cúpula do Vaticano.

Como compartilhava da mesma doutrina de João Paulo 2º, de quem era amigo, Bento 16 não promoveu mudanças na linha teológica que já era perseguida pelo seu antecessor. Mas o padre Gomes pontua que, em comparação a João Paulo, Bento 16 foi mais enfático com a reafirmação da doutrina e com a recuperação da figura de Cristo por meio da retomada do Concílio Vaticano 2º.

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O carisma do antecessor, capaz de atrair multidões, não estava presente em Bento 16 com a mesma intensidade. Mas uma característica pessoal do pontificado de João Paulo 2º, que enfatizou o contato direto com os fiéis e viagens para estar próximo dos católicos em todo o mundo, foi capturada pelo atual pontífice e se tornou um elemento intrínseco ao papado. "O papa não pode mais ser um alto funcionário do Vaticano. Ele tem de ser um sábio, um profeta. Uma pessoa que tenha uma palavra para dizer ao mundo", disse Borba.

Renúncia

Em 11 de fevereiro, Bento 16 surpreendeu a Igreja Católica e o mundo ao anunciar que renunciaria ao seu cargo. Aos 85 anos, tornou-se o primeiro pontífice a deixar vivo a cadeira de São Pedro em 600 anos. O pontificado de Bento terminará às 20 horas (16 horas em Brasília) desta quinta-feira. Ele não planeja ter papel no conclave que elegerá o próximo pontífice e se retirará para uma vida de oração.

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AP
Vista da multidão na Praça São Pedro durante a audiência geral, no Vaticano (27/2/2013)


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Por ser um fato quase inédito na história, o nome de Bento 16 sempre estará ligado à sua decisão. Para analistas, o próprio ato de renunciar pode ser encarado como uma contribuição do papa à Igreja. "Talvez seja o gesto mais forte e mais importante de seu pontificado", explica Borba. No ato de abdicar de sua posição, Bento 16 perdeu a imagem de que era um soberano despótico, amante do poder.

Gomes acrescenta que, com a renúncia, houve uma quebra de paradigma, uma vez que o papado era considerado um cargo praticamente vitalício. Bento 16, para o teólogo, mostrou que os próximos líderes da Igreja Católica, a partir de agora, deverão ponderar mais sobre suas condições físicas e psicológicas de seguir no comando. "O papado não será o mesmo após a renúncia de Bento 16."

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