Disputas, rivalidades e traições do Vaticano aguardam próximo papa

Por AP |

compartilhe

Tamanho do texto

Escândalo de documentos vazados por mordomo de Bento 16 revela que principal desafio de próximo pontífice será reformar a burocracia do Vaticano

AP

Se alguma vez houve necessidade de uma prova de que o próximo papa deveria reformar urgentemente a burocracia do Vaticano, chamada de Cúria, então o escândalo dos documentos privados do papa Bento 16 que foram vazados é a mais recente evidência disso.

Última audiência: Bento 16 se despede do público na Praça de São Pedro

Antecipação: Papa muda legislação da Igreja e permite a cardeais iniciar conclave antes

AP
Cardeais que escolherão novo papa chegam à última audiência de Bento 16 na Praça de São Pedro, Vaticano (27/02)

NYT: Novo papa vai liderar Igreja ameaçada por escândalos e avanço protestante

O próprio mordomo do papa roubou cartas internas do pontífice e as expôs para um jornalista, que então publicou tudo em um livro de sucesso. O mordomo fez isso, admitiu, para expor a "maldade e a corrupção" no Vaticano, algo que acreditava que vinha sendo escondido de Bento 16 por aqueles que supostamente deveriam servi-lo.

E como se isso não fosse o suficiente, o conteúdo dos vazamentos confirmou que o próximo papa terá um governo muito difícil pela frente. As cartas e memorandos expuseram disputas mesquinhas, a corrupção e o nepotismo nos mais altos níveis da Igreja Católica. O tipo de intriga variou desde concessão de contratos do Vaticano à conspiração, supostamente orquestrada por autoridades de alto escalão do Vaticano, para expor um editor de um proeminente jornal católico como sendo homossexual.

VatiLeaks: Leia todas as notícias sobre o escândalo de documentos vazados do Vaticano

Católicos comuns podem até acreditar que a disfunção no Palácio Apostólico não tem nenhum efeito em suas vidas, mas tem sim: a Cúria toma decisões sobre tudo, da nomeação de bispos às reuniões da igreja para anulação de casamentos e ao disciplinamento dos padres pedófilos. As políticas papais transparecem nas orações feitas pelos fiéis durante as missas já que as traduções missais são decididas por um comitê em Roma. As doações que os fiéis fazem a cada ano para o papa são retidas por um banco do Vaticano, cuja falta de transparência financeira abriu espaço para um difícil debate interno.

E é por isso que, após 35 anos sob o governo de dois papas "acadêmicos" que deram pouca atenção para a administração interna da Igreja Católica, há cada vez mais uma necessidade crescente de que o próximo pontífice deveria ter um sólido histórico em gestão de uma burocracia complicada. Cardeais que votarão no conclave do próximo mês falam abertamente sobre a necessidade de reforma, principalmente levando em consideração a disfunção exposta pelo escândalo.

Saiba mais: Veja quem são os brasileiros que podem se tornar papa

AP
Papa Bento 16 deixa a cadeira de São Pedro após celebrar sua última audiência geral na Praça de São Pedro, no Vaticano (27/02)

Favoritos: Veja quem são os cardeais mais cotados para ser o novo papa

Sandro Magister, vaticanista que mais acompanha de perto as idas, vindas e disputas internas de autoridades do Vaticano, disse que o "desastre" de governança começou na década de 1980, nos primeiros anos do papa João Paulo 2º (1978-2005).

"João Paulo 2º era completamente desinteressado pelo que acontecia na Cúria, sua visão estava totalmente voltada ao exterior," disse Magister. "Ele permitiu a proliferação de brigas entre pequenos centros de poder que lutaram entre si com muita ambição e traições."

Disputas: Papa Bento 16 pede a líderes da Igreja que coloquem rivalidades de lado

Bento 16 estava bem ciente dos problemas, pois passou quase um quarto de século na Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé. Mas ele nunca entrou em conflito com a política do Vaticano quando ainda era cardeal - e como papa deixou que seu braço direito, o cardeal Tarcisio Bertone, se encarregasse desse trabalho.

Mas o Vaticano sob a administração de Bento 16 realizou grandes progressos em algumas frentes internas de governança: o papa insistiu por mais transparência financeira, e o Vaticano passou por um teste de lavagem de dinheiro bastante reconhecido na Europa no ano passado. Ele insistiu para que o julgamento do mordomo que o traiu fosse aberto a jornalistas. E, como cardeal, depois de inúmeros casos de abuso sexual terem sido denunciados para escritórios do Vaticano, o ex-Joseph Ratzinger se encarregou deles em 2001.

Análise: Renúncia de Bento 16 redefine pontificado ao abrir precedente para futuros papas

AP
Público acompanha pelo telão última mensagem do papa Bento 16 na Praça de São Pedro, no Vaticano (27/02)

Mas alguns analistas especulam que as revelações dos vazamentos no mínimo aceleraram a decisão de Bento 16 de renunciar. No início de 2012, ele nomeou três cardeais de confiança para investigar para além do processo criminal envolvendo seu mordomo. Eles entrevistaram autoridades dentro da Cúria e entregaram seu relatório final em dezembro. Seu conteúdo é fechado, embora haja especulação de que os cardeais não economizaram palavras para revelar a verdadeira natureza da Cúria.

Embora cada vez mais internacional, a Cúria também é uma organização muito italiana, o que muitas vezes afeta suas prioridades, suas fraquezas e estilo de administração. "A genealogia é importante, quem gerou quem", observou uma autoridade do Vaticano recentemente falecido, que falou sob condição de anonimato para não antagonizar ex-colegas.

Título: Bento 16 será chamado de 'papa emérito' após renúncia, diz Vaticano

Saiba mais: Infográfico mostra história do papa Bento 16

O comentarista italiano Massimo Franco concluiu recentemente nas páginas do Corriere della Sera que a burocracia do Vaticano de hoje é simplesmente "ingovernável".

Apesar de estar aberto a interpretações, a homilia final de Bento 16 como papa poderia ser vista como uma mensagem clara para os cardeais que escolherão seu sucessor.

O porta-voz do Vaticano, o reverendo Federico Lombardi, disse que era errado interpretar as palavras do papa como sendo dirigidas à Cúria do Vaticano, argumentando que a mensagem do papa foi concebida como um apelo à unidade entre todos os cristãos, uma de suas prioridades como pontífice.

"Diferenças e diversidade de opinião são parte da dinâmica normal de qualquer instituição ou comunidade", disse Lombardi. Ele disse que a forma como os problemas de governança do Vaticano são frequentemente descritos "não corresponde à realidade".

Por Nicole Winfield

Leia tudo sobre: conclaverenúncia do papabento 16papavaticanoigreja católica

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas