Nove integrantes foram assassinadas a tiros enquanto iam de casa a casa em Kano durante campanha de imunização

Supostos insurgentes de uma seita islâmica radical mataram ao menos nove mulheres que integravam a equipe de vacinação contra pólio no norte da Nigéria nesta sexta-feira (8), agravando as tensões religiosas que cercam a imunização de crianças em uma das poucas nações onde a doença ainda tem caráter endêmico.

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Criança é vacinada contra a pólio em Kano, na Nigéria
Reuters
Criança é vacinada contra a pólio em Kano, na Nigéria


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O ataque chocou os residentes de Kano, a maior cidade da Nigéria e com predominância muçulmana no norte, onde as mulheres geralmente vão de casa em casa para vacinar as crianças, uma vez que as mães sentem-se mais à vontade permitindo que uma mulher, e não um homem, entre em suas casas. As mortes também sinalizam uma nova onda de ódio contra equipes de vacinação na Nigéria, onde clérigos afirmam que a campanha é parte de uma trama ocidental para deixar as garotas estéreis.

O primeiro ataque desta sexta-feira aconteceu no bairro de Hotoro Hayi, em Kano, onde homens armados dentro de um triciclo passaram atirando. Ao menos oito mulheres morreram vítimas de disparos, segundo o relato de testemunhas.

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O segundo ataque, no bairro Unguwa Uhu, deixou quatro mortos, segundo testemunhas. Todos esses relatos foram tomados com a condição de anonimato, uma vez que as testemunhas temem a ira da seita radical conhecida como Boko Haram.

Apesar de as testemunhas terem falado em um número maior de vítimas fatais, Musa Magaji Majia, porta-voz da polícia de Kano, disse que os ataques deixaram somente nove mortos - todas mulheres que davam a vacina oral às crianças. Um hospital local depois disse que apenas dois corpos chegaram do ataque de Unguwa Uku, com quatro outros feridos.

Enquanto a polícia afirma que ainda não sabe quem está por trás dos ataques, as testemunhas dizem acreditar que o Boko Haram foi responsável pelos disparos. O Boko Haram, cujo nome significa "educação ocidental é um sacrilégio", tem reivindicado a responsabilidade por uma série de ataques violentos pelo norte da Nigéria como parte de sua luta contra o governo central do país.

O Boko Haram é responsável por ao menos 792 mortes no ano passado na Nigéria, de acordo com um levantamento feito pela agência Associated Press. Esse número inclui um ataque violento em janeiro que matou 185 pessoas.

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Esse não é o primeiro ataque que tem como alvo os integrantes de equipes de vacinação contra pólio em Kano. Em outubro, a polícia disse que dois agentes envolvidos na guarda das vacinas foram mortos a tiros.

A desconfiança que cerca as campanhas de vacinação contra pólio na Nigéria remontam ao ano de 2003, quando um físico de Kano que liderava o Conselho Supremo da Sharia na Nigéria disse que as vacinas eram "corrompidas e maculadas por malfeitores dos EUA e seus aliados do ocidente". Essa afirmação fez com que milhares de crianças fossem infectadas no norte da Nigéria.

Atualmente, o país continua sendo um dos três países onde a pólio é endêmica, sendo os outros dois o Afeganistão e o Paquistão. No ano passado, a Nigéria registrou 121 novos casos de infecções, mais da metade de todos os casos registrados no mundo inteiro, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Mas atentados contra integrantes da equipe de vacinação não são uma exclusividade da Nigéria. Em dezembro, militantes no Paquistão mataram ao menos nove pessoas que trabalhavam com a imunização. Militantes acusavam os funcionários de serem espiões dos EUA alegando que a vacina tinha como objetivo tornar as crianças muçulmanas estéreis. Esses rumores aumentaram quando foi revelado que um médico paquistanês criou uma campanha falsa de vacinação para ajudar a CIA a encontrar o fundador da Al-Qaeda, Osama bin Laden .

Com AP

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