Além da eleição de terça-feira, voto hispânico, feminino e de jovens representa risco e oportunidade para futuro de partidos nos EUA

No fim de setembro, o presidente dos EUA, o democrata Barack Obama, e o candidato republicano, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney , deram entrevistas separadas para a Univision, a principal rede de TV em língua espanhola dos EUA e uma das cinco principais emissoras do país. O principal público alvo do canal são os latinos dos EUA que, desde 2011, correspondem a mais de 50 milhões de habitantes – ou 16,3% da população americana, segundo dados do Censo.

As entrevistas de Obama e Romney, que tiveram de ser legendadas em espanhol, são um exemplo do aumento da importância dos hispânicos não apenas como espectadores, mas principalmente como força política que pode ser determinante no Colorado, Flórida e Nevada – três de nove Estados considerados cruciais na eleição de terça-feira por terem o resultado de sua votação incerto.

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Propaganda pró-Obama em espanhol é vista em restaurante de Orlando, na Flórida (26/10)
AP
Propaganda pró-Obama em espanhol é vista em restaurante de Orlando, na Flórida (26/10)

Os hispânicos são um grupo que mantém um amplo crescimento nos EUA. Sua influência é explícita em muitas cidades americanas, onde é norma encontrar placas bilíngues, fazer telefonemas em que uma das opções é ouvir gravações em espanhol, comer em restaurantes mexicanos, dançar salsa em ambientes onde o público é predominantemente latino e ouvir o espanhol falado nas ruas como se essa fosse a língua oficial do país.

De acordo com uma projeção feita pelo Pew Research Center (Washington) há quatro anos, o número de hispânicos nos EUA representará a maior parte do crescimento da população americana em um período de 45 anos, crescendo de 14% em 2005 para 29% em 2050. Isso significa que, daqui a 38 anos, os hispânicos somados aos negros (13%) e aos asiáticos (9%) superarão em número a população branca não-hispânica, que envelhece e cuja taxa de nascimento está em queda em comparação a outros grupos.

E, para os partidos de Obama e Romney, essa mudança demográfica representa oportunidades e desafios não apenas na votação de terça, mas também para sua estratégia política futura.

De acordo com o analista político Geoffrey Skelley, do Centro de Política da Universidade da Virgínia, o Partido Democrata inquestionavelmente se posicionou para conquistar os latinos, “ao menos no curto prazo”. A legenda leva vantagem com esse grupo por uma postura mais tolerante em relação à imigração e por adotar programas nas áreas de assistência à saúde e educação que favorecem essa minoria.

Um dos exemplos foi a decisão anunciada em junho por Obama de livrar da deportação imigrantes menores de 30 anos que tenham entrado ilegalmente nos EUA antes dos 16 anos, vivam no país há pelo menos cinco anos, não tenham histórico criminal, tenham se formado no ensino médio americano ou se alistado no Exército.

“A retórica anti-imigração republicana desestimulou muitos eleitores em relação ao partido. Isso é um dos motivos que farão com que Obama provavelmente consiga 70% do voto hispânico no dia da eleição”, disse Skelley. Em 2008, o democrata venceu com a ajuda de 67% do recorde de 10 milhões de latinos que votaram.

Veja a proporção de população hispânica nos Estados americanos:

Apesar de reconhecer a vantagem democrata, Jim Henson, diretor do Projeto de Política do Departamento de Governo da Universidade do Texas, afirma que um desafio para o partido de Obama é fazer com que o comparecimento eleitoral hispânico cresça proporcionalmente à expansão de seu número populacional. Mais de 21 milhões de latinos estão aptos a votar, mas apenas um pouco mais da metade se registrou e um total menor deve efetivamente comparecer às urnas.

“Em longo prazo, a meta republicana é conseguir 40% do voto hispânico, porque a questão é quantos latinos o partido tem de obter se mantiver sua ampla vantagem entre o eleitorado branco anglo-saxão”, disse Henson. De acordo com o analista do Texas, a estratégia republicana é abordar essa minoria não com o argumento migratório, mas com o econômico, já que muitos latinos têm pequenas empresas e podem se atrair pela plataforma republicana de menos regulamentação e baixos impostos .

O analista político Michael Barone, do American Institute Enterprise, concorda. “Haverá mais eleitores latinos à medida que os jovens envelhecerem e puderem votar, mas eles não votarão 90% nos democratas como os negros”, disse.

Desvantagem republicana entre mulheres e jovens

Mas, para outros analistas, as atuais características do eleitorado republicano e sua plataforma mais conservadora representam um desafio de longo prazo para a legenda não apenas em relação ao voto hispânico, mas também em relação a grupos como mulheres e jovens.

Para Thomas Mann, especialista em Estudos de Governança da Brookings Institution, os republicanos têm consciência de que algumas de suas posições podem ser arriscadas e acabar beneficiando seus rivais democratas na terça-feira. “Exemplo disso foi o fato de Romney e seu vice, Paul Ryan, tomaram passos na reta final da campanha para esconder suas propostas de políticas conservadoras e mover-se retoricamente para o centro”, afirmou.

Apesar disso, o partido ainda não tem uma estratégia de longo prazo. “Enquanto os EUA se tornarão um país de maioria não anglo-saxã nos próximos anos, o eleitorado republicano é em sua maioria branco, masculino, cristão, mais velho e proveniente do sul”, disse David Schultz, professor da Universidade Hamline de St. Paul (Minnesota). Para o especialista, essa base de apoio somada a uma forte oposição a questões sociais como aborto e casamento gay tendem a alienar o eleitorado feminino e jovem.

Como exemplo, Schultz pontua o fato de que, entre os menores de 30 anos nos EUA, mais de 70% apoiam o direito de casais do mesmo sexo se casarem, enquanto o número é praticamente o inverso na população entre 55 anos e 65 anos. “Alguns assuntos mudarão nos EUA nos próximos anos à medida que uma parte da população literalmente morrer sendo substituída pela mais nova”, afirmou.

Em maio, quando declarou apoio ao casamento gay , o presidente Obama citou exatamente a questão geracional como algo importante para tomar sua decisão: “Malia e Sasha (filhas) têm amigos cujos pais são casais homossexuais. Houve momentos em que eu e Michelle conversamos com elas durante o jantar, e expressaram seu desconforto com a possibilidade de os pais de seus amigos serem tratados de forma diferente. Isso não faz sentido para elas e, francamente, esse é o tipo de coisa que estimula uma mudança de perspectiva.”

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