Polarização no Congresso deve ser obstáculo a futuro líder dos EUA

Além de presidente, população escolhe novo legislativo no dia 6; prováveis Câmara republicana e Senado democrata devem dificultar acordos políticos

Leda Balbino - enviada a Washington |

No discurso que marcou sua eleição há quatro anos, o presidente dos EUA, Barack Obama, fez um chamado a um esforço bipartidário para que o país pudesse superar mais facilmente os obstáculos futuros. Quatro anos depois, o democrata acumula um total de 140 ordens executivas, muitas delas assinadas para ter alguma governabilidade perante um Congresso dividido por linhas partidárias. E, após as eleições de 6 de novembro , a perspectiva é de que o cenário se mantenha para o futuro presidente, seja Obama ou seu rival republicano, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney.

Saiba mais: Obama e Romney têm receitas diferentes para a prosperidade dos EUA

AP
Obama e Romney durante último debate antes das eleições presidenciais (arquivo)

Além do presidente, a população dos EUA vai às urnas na terça-feira para também renovar um terço das 100 cadeiras do Senado e toda a Câmara dos Representantes, que tem 435 membros. Segundo média de pesquisas do site Real Clear Politics, os republicanos devem manter o controle da Câmara. Para retomar o controle da Casa, que perderam em 2010, os democratas precisam obter 25 cadeiras na votação. Já no Senado, os partidários de Obama devem manter a maioria - mesmo que por uma margem estreita.

Leia também: Partido de Obama perde maioria na Câmara, mas controla Senado

Para ter maioria no Senado, os republicanos precisam conquistar quatro cadeiras se Obama for reeleito ou três se Romney vencer (o vice-presidente tem direito ao voto de Minerva). No início da corrida eleitoral, analistas apontavam boas chances para isso por causa da aposentadoria de muitos senadores democratas em Estados de tendência conservadora. Mas muitos candidatos republicanos acabaram sendo exageradamente conservadores, restringindo seu apelo à base de direita do partido.

Missouri e Indiana são exemplos disso. A candidatura de Todd Akin, no Missouri, foi abandonada pelos republicanos após ele declarar em agosto que os corpos femininos conseguem evitar engravidar durante “estupros legítimos”. Em Indiana, Richard Mourdock foi criticado após afirmar que a gravidez após um estupro é “vontade de Deus”.

Gafe número um: Deputado antiaborto defende que estupro 'legítimo' não engravida

Gafe número dois: Candidato diz que gravidez pós-estupro é 'vontade de Deus'

Divisão partidária

Em setembro de 2011, oito meses após a Câmara republicana ter assumido, o presidente americano comunicou seus assessores que usaria mais ordens executivas para superar o que chamou de Congresso “obstrucionista”, segundo o jornal New York Times. Apesar de ter assinado uma média anual de 35 dessas medidas desde que assumiu, total inferior a muitos de seus antecessores (segundo compilação dos Arquivos Nacionais dos EUA), a utilização do recurso surpreendeu pelo fato de Obama ter criticado George W. Bush (2001-2009) por passar por cima do Congresso quando presidente.

Mas para Thomas Mann, especialista em Estudos de Governança da Brookings Institution, “é inevitável que o presidente busque medidas unilaterais de ação se o Congresso é incapaz de alcançar acordos”. E essa será a tendência, disse ao iG , se Obama for reeleito.

O motivo é o aumento da divisão entre a maioria dos republicanos e democratas à medida que os dois partidos ficam mais “ideologicamente coesos” e afastam políticos mais centristas de suas bases, afirmou o analista político Geoffrey Skelley, do Centro de Política da Universidade da Virgínia. “Os republicanos agora são quase todos conservadores, enquanto os democratas são em sua maioria liberais, tendo restado alguns moderados”, explicou.

Essa divisão ficou clara com o Tea Party, movimento ultraconservador que ecoou dentro do Partido Republicano em 2009 em reação às medidas de Obama contra a crise de 2008, como planos de resgate a bancos e à indústria automobilística. Com um nome que se refere a um protesto contrário a impostos cobrados pela Inglaterra sobre o chá (tea, em inglês) quando os EUA ainda eram colônia em 1773, o movimento defende menor cobrança fiscal, fim da intervenção federal na economia e não prepoderância do governo federal sobre os Estados. Seu discurso impulsionou os republicanos mais para posições políticas de direita, o que vem sendo um obstáculo para mover a agenda de Obama no Congresso.

AP
Na briga por uma cadeira no Senado americano: republicano Todd Akin e a democrata Claire McCaskil, ambos de Missouri

De acordo com Skelley, o Tea Party não é um fenômeno repentino, mas uma consequência da evolução histórica dos dois partidos, que nas últimas décadas passaram a controlar regiões do país. “Durante os últimos 20 anos, o sul dos EUA se tornou uniformemente republicano, enquanto o nordeste completamente democrata”, disse.

Outro motivo para a divisão é o fato de as Assembleias Legislativas estaduais terem a responsabilidade de desenhar os distritos congressionais após o Censo americano estar completo a cada dez anos. De acordo com Robert Kabel, presidente do Partido Republicano na capital Washington, democratas e republicanos vêm conseguindo assegurar, assim, redutos eleitorais para ambos no Congresso. Como resultado, a principal disputa não é entre candidatos de partidos diferentes na eleição estadual, mas entre membros do próprio partido durante as primárias que definem quem representará a legenda na votação.

“Republicanos têm de convencer os eleitores das primárias que são mais conservadores que outros republicanos, enquanto os democratas têm de convencer os seus partidários que são mais liberais”, afirmou. “Isso tem como resultado uma divisão filosófica séria que é difícil de superar no Congresso”, afirmou Kabel, relembrando que o país viveu outros momentos de polarização após a Guerra Civil (1861-1865), no final do século 19 e novamente no início do século 20.

Apesar disso, Kabel é relativamente otimista quanto ao futuro imediato se Romney for eleito. Como normalmente os novos presidentes americanos têm um período de lua de mel, ele apontou que o republicano pode conseguir várias conquistas nos primeiros meses do mandato. Além disso, afirmou que Romney conseguiu trabalhar com os democratas quando era governador de Massachusetts.

Quanto a Obama, Kabel disse que, com a expectativa de que o número de republicanos aumente no Senado, não haverá como ambos os lados serem bem-sucedidos nos próximos quatro anos sem uma abordagem conciliatória. Um dos motivos para isso é o fato de que questões como o Sistema de Seguridade Social e déficits orçamentários não podem ser resolvidas com ordens executivas.

Skelley, porém, é pessimista. “Poderíamos esperar que os grandes problemas, como a reforma do código fiscal e o teto da dívida, forçariam a grandes barganhas”, disse, para concluir: “Mas isso seria esperar muito considerando quão divididos os dois partidos estão.”

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG