Obama e Romney mantêm arrecadação mesmo com recorde de US$ 2 bilhões

Nem tempestade Sandy interrompeu apelos de candidatos por dinheiro; somados à campanha do Congresso, gastos variam de US$ 5 bilhões a US$ 7 bilhões

Leda Balbino - enviada a Washington | - Atualizada às

Nem a tempestade Sandy , que atingiu a costa leste dos EUA com força de furacão na segunda-feira, parou os esforços do presidente Barack Obama e de seu rival republicano, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney , de pedir dinheiro a seus partidários na reta final da eleição de 6 de novembro . E isso mesmo quando, somadas, as duas campanhas já arrecadaram o recorde de US$ 2 bilhões.

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Na véspera da chegada da tormenta, emails e posts nas redes sociais faziam apelos por mais contribuições. No dia da tempestade, houve uma pausa, mas mesmo assim as duas campanhas mantiveram no Facebook a opção “Donate”. Na terça, quando o tamanho da destruição ficou claro, a chefe de operações da campanha de Obama voltou à carga afirmando que a sexta-feira é o prazo final para o último orçamento da corrida presidencial.

“Eles continuam arrecadando e gastando dinheiro na reta final porque há muito em jogo, a eleição está acirrada e a lei é muito permissiva”, disse ao iG Thomas Mann, especialista em Estudos de Governança da Brookings Institution.

AP
Estrada que passa Carolina do Norte ficou totalmente destruída pela passagem de tempestade Sandy (30/10)

Em 2008, a campanha de Obama conseguiu oficialmente US$ 750 milhões. A arrecadação recorde na época foi possível após o democrata tornar-se o primeiro candidato à presidência a abrir mão do financiamento federal e optar pelo privado, que não impõe limites à coleta de fundos. O senador John McCain, que disputou com ele o cargo há quatro anos, não fez o mesmo e teve de recorrer a brechas da lei para poder burlar o limite de gastos de US$ 84 milhões imposto pelo sistema público. Neste ano, nenhum dos candidatos usou o financimento federal de campanha.

O dinheiro não é gasto em santinhos, cartazes ou outdoors nas ruas das cidades americanas, que passam totalmente incólumes à propaganda política, podendo até sugerir aos desatentos que nada de diferente ocorrerá no país em 6 de novembro. Mas é só ligar a TV para entender que o principal palco da disputa são os anúncios, um dos motivos para que as campanhas americanas sejam tão caras.

“Com a perspectiva de que os espectadores tendem a mudar de canal para não ver propaganda, a resposta das campanhas é comprar mais e mais tempo televisivo em vários canais para aumentar as chances de sua mensagem ser transmitida”, disse ao iG Daniel Schnur, diretor do Instituto de Política da Universidade do Sul da Califórnia (USC). Estrategista político, Schnur trabalhou em 2000 com McCain durante a campanha das primárias pela candidatura republicana contra George W. Bush.

A estratégia é usada até a exaustão em Estados como a Virgínia, onde a batalha eleitoral é travada de forma mais intensa pelo fato de as pesquisas indicarem empate dos candidatos. O diretor de Comunicações do Partido Republicano no Estado, Garren Shipley, até conta que sua mulher apelou para que algo fosse feito para coibir a prática.

“É um anúncio político atrás do outro. E não são só as campanhas presidenciais, porque também há as do Senado, da Câmara e de grupos independentes que compram espaço”, disse Shipley em seu escritório na cidade de Richmond. “É um grande momento para ser um gerente de vendas de anúncios. Todos ganham um bônus neste ano nos canais de TV.”

Campanha multibilionária

Segundo Mann, além dos mais de US$ 2 bilhões arrecadados pelos candidatos presidenciais, estimativas indicam que outro US$ 1 bilhão será angariado pelos chamados Super PACs (Comitês de Ação Política, que coletam dinheiro de forma independente), enquanto os gastos nas corridas pelo Senado e Câmara de Representantes superarão US$ 2 bilhões. O analista político Geoffrey Skelley, do Centro de Política da Universidade da Virgínia, tem uma estimativa ainda maior: US$ 7 bilhões.

Além dos anúncios na TV, as campanhas também têm gastos com as viagens dos candidatos, o pagamento da equipe de campanha, a manutenção de estrutura eleitoral nos Estados, os comícios e a propaganda em revistas, rádios jornais e internet.

Por isso, argumenta o republicano Shipley, o dinheiro arrecadado na reta final da campanha ajuda a evitar que os candidatos tenham de fazer escolhas difíceis. “Se você perguntar a qualquer organização nos EUA quanto dinheiro ela precisa, a resposta será uma: ‘Apenas um pouco mais’”, afirmou.

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Dezenas de televisores transmitem anúncio político em loja de Iowa em 27/12/2011 sobre as eleições presidenciais de 2012 nos EUA


Por causa da arrecadação recorde deste ano, os candidatos se deram ao luxo de continuar suas campanhas mesmo em Estados onde as pesquisas indicam que perderão.

“Antigamente, o candidato fechava a operação e a transferia para outro Estado onde tivesse mais chances de ganhar”, lembrou Edward Grefe, professor da Faculdade de Gerenciamento Político da Universidade George Washington. “Neste ano, pela primeira vez na história dos EUA, eles mantêm a estrutura porque têm muito dinheiro para gastar”, afirmou.

Super PACs

Um dos motivos para o custo da campanha deste ano é uma decisão tomada pela Suprema Corte dos EUA em janeiro de 2010 que permitiu a corporações e sindicatos gastos políticos ilimitados. A decisão reverteu um precedente centenário que limitava o envolvimento dessas organizações.

Apesar de elas não poderem contribuir diretamente para uma campanha eleitoral, não há limite para o dinheiro que podem gastar em anúncios favoráveis ou contrários a um candidato. Além disso, a corte também permitiu que os Super PACs, que não estão coordenados oficialmente com nenhuma campanha, arrecadem e gastem quantias ilimitadas na eleição.

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A corte tomou a decisão após o grupo independente Citizen United (Cidadãos Unidos, em tradução livre) ter desafiado judicialmente uma proibição imposta pela Comissão de Eleição Federal a um anúncio crítico à atual secretária de Estado Hillary Clinton em 2008, quando disputava a candidatura democrata à presidência contra Obama. De acordo com o Citizen United, a proibição violava o direito à liberdade de expressão garantido pela Primeira Emenda constitucional dos EUA. A Suprema Corte acatou o argumento.

Como são considerados órgãos sem fins lucrativos, os Super PACs não precisam divulgar os autores das doações arrecadadas e, por isso, muitas vezes são financiados por corporações. “Não há como saber de onde vem o dinheiro usado pelos Super PACs nas campanhas”, disse David Schultz, professor da Universidade Hamline em St. Paul, Minnesota.

Segundo Steven Hatting, do Departamento de Ciência Política da Universidade de St. Thomas, também em Minnesota, existem atualmente nos EUA 400 Super PACs.

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