Federico Franco, que sucedeu a Lugo após impeachment na sexta-feira, pede apoio financeiro do Congresso para os próximos 14 meses de gestão

O novo presidente paraguaio, Federico Franco , substituiu nesta quarta-feira parte da cúpula militar e apresentou seu plano de governo ao Congresso em busca de apoio financeiro para os próximos 14 meses de gestão, após assumir o poder no lugar do destituído Fernando Lugo , com o Paraguai isolado diplomaticamente pelos vizinhos.

Mercosul:  Lugo rejeita sanções contra Paraguai afirmando que prejudicarão cidadãos

Novo presidente do Paraguai, Federico Franco, gesticula durante apresentação de seu novo governo ao Congresso em Assunção
AP
Novo presidente do Paraguai, Federico Franco, gesticula durante apresentação de seu novo governo ao Congresso em Assunção

Saiba mais: Entenda os reflexos da crise política no Paraguai

Franco, um médico liberal que foi eleito como vice-presidente há quatro anos, assumiu a presidência após o rápido processo de impeachment de Lugo por mau desempenho de suas funções na sexta-feira.

Vários governos da região se recusaram a reconhecer o novo presidente porque consideram que Lugo não teve garantias suficientes em seu julgamento político no Congresso, que lhe deu apenas duas horas para a defesa .

Franco visitou líderes militares na sua qualidade de comandante-chefe das Forças Armadas e ordenou mudanças no comando do Exército, da Marinha e no Regimento da Escolta Presidencial. Também se reuniu com autoridades da Câmara dos Deputados e do Senado juntamente com sua recém-nomeada equipe econômica.

Membro do Partido Liberal, Franco decidiu nomear um a um os integrantes de seu governo, e incluiu políticos do Partido Colorado, seus tradicionais rivais na cena paraguaia, para pedir-lhes respaldo nesta transição. No entanto, como ressaltou um diplomata latino-americano, Franco terá dificuldades de manter o apoio colorado que o alçou à presidência, pois à legenda rival "não interessa que tenha êxito" com as eleições tão próximas. "Vão lhe fazer oposição."

Em discurso sereno e amigável com o mercado, ele pediu a aprovação de créditos de organismos internacionais para US$ 480 milhões considerados vitais para financiar o Orçamento de 2012 e estimular a economia, que neste ano deve se contrair 1,5%, segundo dados oficiais.

Além disso, pediu aos parlamentares apoio para a instalação de uma fábrica de alumínio da multinacional Rio Tinto Alcan com um investimento de US$ 3,5 bilhões e anunciou a negociação de uma dívida com bancos europeus para liberar as reservas internacionais do país de eventuais embargos.

O novo presidente também solicitou que o Orçamento de 2013 não contenha aumentos nos gastos correntes e se complete o quórum no Banco Central com a nomeação de dois diretores cujos cargos estão vazios.

Os parlamentares se comprometeram perante Franco a nomear rapidamente um vice-presidente, disse o deputado Ramón Gómez. A Constituição prevê que o Congresso nomeie um vice-presidente se a mudança de governo ocorrer na parte final do mandato, que se estende até 15 de agosto de 2013.

Franco disse que sua prioridade seria "arrumar a casa" apesar das críticas dos países da região, muitos dos quais acreditam que houve no Paraguai uma ruptura democrática , e do próprio Lugo, que mantém reuniões constantes com seus colegas em um escritório do partido .

O ex-bispo disse na terça-feira, em entrevista à Reuters, que " só um milagre " poderia levá-lo de volta ao poder. Pouco antes, ele sugeriu que poderia ser um candidato na lista de senadores da coalizão esquerdista Frente Guasu nas eleições de abril. 

Missão da OEA

O Paraguai foi proibido de participar da cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasul) e do Mercosul - bloco econômico que o país integra com Argentina, Brasil e Uruguai -, que se reunirá na sexta-feira em Mendoza, e a Organização dos Estados Americanos (OEA) decidiu enviar uma missão para investigar o processo de impeachment.

Punição: Mercosul suspende Paraguai da próxima cúpula do bloco

Fernando Lugo, presidente cassado do Paraguai, fala com jornalistas dentro de carro na sede do partido País Solidário, em Assunção
AP
Fernando Lugo, presidente cassado do Paraguai, fala com jornalistas dentro de carro na sede do partido País Solidário, em Assunção

O chanceler paraguaio, José Félix Fernández Estigarribia, disse que a missão da OEA chegaria no domingo. "Aqui não existem campos de concentração ocultos. Deixe-os vir e revisar o que quiserem. Há o máximo respeito das autoridades paraguaias", afirmou o ministro a uma rádio local.

No encontro da Unasul e Mercosul, os líderes devem discutir possível sanções contra o Paraguai. Nesta quarta-feira, Lugo declarou-se contrário a quaisquer medidas nesse sentido, com o argumento de que prejudicariam os paraguaios .

Lugo anunciou manifestações pacíficas contra a sua deposição, principalmente no interior, onde tem uma base de apoio forte. Mas as manifestações não estavam cheias e na capital, Assunção, tudo transcorria conforme um dia normal.

Investigação: Secretário-geral da OEA irá ao Paraguai para analisar processo contra Lugo

Cerca de 2 mil pessoas, principalmente camponeses, protestaram em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil, enquanto centenas saíram às estradas dos departamentos de Concepción, San Pedro e Caazapá, com faixas de apoio ao presidente destituído e bandeiras paraguaiais.

Na capital, Assunção, o dia transcorria normalmente. "As pessoas estão confusas em função do que aconteceu. Não estava entre as prioridades do público que Lugo sairia do poder", disse à Reuters Enrique Chase, que dirige a consultoria Instituto de Comunicación y Arte (ICA).

Segundo Chase, a percepção era de que Lugo fazia uma boa gestão no campo econômico, mas não politicamente. "Ele teve mal-entendidos no manuseio das negociações com seu principal aliado, o Partido Liberal. Ele perdeu a bola", disse.

*Com Reuters e EFE

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.