Líder paraguaio quer desfazer mal-estar com Brasil e mais vizinhos estratégicos

Empossado na noite de sexta em meio a críticas por impeachment relâmpago que destituiu Lugo, Federico Franco afirmou que "não há ambiente de golpe" no país

iG São Paulo | - Atualizada às

O novo presidente do Paraguai, Federico Franco, disse neste sábado que espera manter com o país vizinho e a presidenta Dilma Rousseff relações harmônicas, assim como garantiu que preservará os direitos e a segurança dos brasiguaios (agricultures brasileiros que moram em território paraguaio). Ele avisou ainda que aguarda da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) apoio para governar.

AP
Presidente paraguaio, Federico Franco, tomou posse na noite de sexta-feira (22/6)

“Temos esperanças de manter as relações harmônicas e proporcionais com o Brasil”, destacou ele, que respondeu a várias perguntas de jornalistas brasileiros. Franco não acredita em sanções por parte do Brasil ao Paraguai. “Não acredito que o Brasil aplicará sanções, pois os mais afetados seriam os empresários brasileiros que investem no Paraguai, principalmente, em Ciudad del Este”, disse. “Eu descarto [o risco de sanções]. Sou uma pessoa otimista. Há muitos empresários brasileiros investindo hoje no Paraguai”, reforçou o presidente empossado na noite de sexta-feira.

Franco quer evitar o desconforto com os países vizinhos, principalmente com Brasil e Uruguai. Determinado a desfazer o mal-estar causado pela destituição do então presidente Fernando Lugo, Franco pretende procurar nos próximos dias a presidenta Dilma Rousseff e o presidente do Uruguai, José Pepe Mujica. Um dos receios de Franco é o eventual rompimento da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) com o Paraguai.

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Franco também se preocupa com a questão energética, uma vez que a Usina Itaipu Binacional é fundamental para o abastecimento de energia para o Paraguai e a economia do país. Segundo assessores, o ministro das Relações Exteriores, José Félix Fernández, vai procurar o chanceler brasileiro, Antonio Patriota.

Na sexta-feira, no fim da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio+20, Dilma disse que acompanha de perto e com atenção as mudanças no Paraguai. Porém, vários ministros manifestaram dúvidas sobre o processo de impeachment movido contra Lugo pela rapidez e a forma como ocorreu. Em apenas 24 horas, ele foi destituído do poder.

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, disse na sexta-feira que a impressão inicial que o governo brasileiro tinha era que havia ocorrido um golpe de Estado no Paraguai, pois o processo “foge do senso de procedimento geral de Justiça".

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse ter ficado impressionado com a rapidez do processo envolvendo Lugo. Segundo ele, foi um “processo incompatível com as regras do contraditório e da ampla defesa”. Até ontem à noite, os chanceleres da Unasul estavam em Assunção conversando com as autoridades paraguaias.

Novo chanceler

O novo ministro das Relações Exteriores paraguaio, Félix Fernández, também confirmou que Franco buscará recompor as relações do governo do Paraguai com seus vizinhos após o mal-estar causado pela destituição de Lugo. "Ratificamos perante a comunidade internacional o cumprimento do ordenamento jurídico constitucional. Respeitamos muitíssimo os presidentes de nossas nações irmãs e vamos tentar conversar com eles", acrescentou o ministro Fernández em declarações à emissora de rádio 970.

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Fernández disse que sua primeira atividade será entrar em contato com todos os países aliados do Paraguai para explicar a eles a situação vivida no país. O primeiro grande encontro internacional ao qual o novo governo deverá comparecer é a Cúpula que o Mercosul, bloco integrado por Paraguai, Uruguai, Brasil e Argentina, que será realizada na cidade argentina de Mendoza na quinta e na sexta-feira.

O processo de destituição de Lugo durou cerca de 24 horas: na quinta-feira a Câmara de Deputados aprovou submetê-lo a um julgamento político e na sexta-feira o Senado votou por retirá-lo de suas funções, após uma audiência na qual os advogados de Lugo tiveram duas horas para apresentar sua defesa.

Os governos de Equador, Venezuela, Argentina e Bolívia disseram que não reconhecerão o novo governo. O governo brasileiro está realizando consultas com outros países da Unasul antes de manifestar sua posição sobre o novo governo do Paraguai. "A ideia é ter uma posição pactuada, por isso estão sendo realizadas intensas consultas entre todos os membros da Unasul", explicou a fonte consultada.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que, por enquanto, não está prevista a divulgação de nenhum comunicado sobre a posição do país sobre o ocorrido no Paraguai. O chanceler brasileiro, Antonio Patriota, que retornou ao país após integrar a missão enviada pela Unasul à Assunção, é o responsável pelas consultas com os outros países.

O presidente Franco, em sua primeira coletiva de imprensa na noite de sexta-feira, disse que Fernández se encarregaria de explicar aos sócios da Unasul que a mudança no Paraguai foi "completamente constitucional", que existe calma, ordem e nenhum ambiente de movimento militar. "Não há ambiente de golpe, de bloqueio, não há militares nas ruas", disse Franco.

Ele respondeu a sete perguntas, abordando temas internos e externos, além de anunciar os nomes dos ministros do Interior, Carmello Caballero, e das Relações Exteriores, José Félix Fernández, além do chefe da Polícia Nacional, Aldo Pastore.

"Para os presidentes do Mercosul, quero dizer que compreendam a situação. Vamos fazer um esforço para normalizar", disse o novo presidente. “O importante para nós é manter uma boa relação com os países vizinhos”, acrescentou, deixando em aberto se pretende participar da reunião de Cúpula do Mercosul em Mendoza.

Franco enfatizou, pelo menos três vezes, que o governo segue e respeita a Constituição do Paraguai. A afirmação é uma resposta à Unasul, que levanta dúvidas sobre a legitimidade do processo de destituição de Lugo, como foi conduzido e a rapidez da ação. Nas ruas de Assunção, a capital paraguaia, os simpatizantes de Lugo também suspeitam do processo que o retirou do poder.

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Franco vêm optando por um tom mais conciliador e menos combativo. "A coisa mais importante a fazer é ficar no país para organizar a casa”, disse. Na tentativa de desfazer mal-entendidos, ele acrescentou que a imprensa tem papel fundamental, inclusive o de tranquilizar as pessoas”.

No entanto, o novo presidente foi categórico ao dizer que pretende combater de forma instransigente o grupo guerrilheiro Exército do Povo Paraguaio (EPP), pois o considera fora da lei. Segundo ele, da mesma forma agirá com aqueles que transgridem a legislação. “A tolerância será zero com quem está à margem da lei”, disse.

Franco mencionou o tema mais delicado da política interna paraguaia, que acabou agravando a manutenção de Lugo no poder: o apoio aos camponeses e à reforma agrária . O novo presidente disse que o tema é prioridade para ele e que associará reforma agrária à industrialização e à melhoria da qualidade de vida no campo. “É preciso garantir escolas e saúde, além de condições adequadas, para que as pessoas queiram ficar no campo”.

Trajetória

Aos 49 anos, o novo presidente do Paraguai é definido como um político "conservador" e "ambicioso". Ele deverá governar o país até agosto do ano que vem, quando está previsto que passe a faixa presidencial para o presidente eleito em abril de 2013. Segundo analistas, para governar ele deverá buscar alianças com outras legendas, como a UNACE, uma dissidência dos colorados criada pelo ex-general e agora político Lino Oviedo.

De família de políticos tradicionais no Paraguai, o novo presidente construiu uma história sólida e rígida de vida. Ele foi o segundo da família a ser vice-presidente no país, depois do irmão Júlio César Franco (2000-2002). Médico cardiologista, Franco mantém hábitos severos. Como seu antecessor Fernando Lugo, é católico praticante e gosta de ir à missa logo cedo aos domingos.

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Sistemático, Franco exige dos assessores e funcionários o cumprimento de horários. Mal assumiu o poder, marcou reunião para este sábado a partir das 8h. Em discussão, a formação do novo governo e as prioridades que serão adotadas. O novo presidente avisou que pretende construir um governo de coalizão nos próximos meses até as eleições de 2013.

Os desafios de Franco são conquistar a confiança da população paraguaia, que reúne um grupo considerável de admiradores de Lugo, e manter uma base leal no Congresso Nacional. A violência no campo e as cobranças dos camponeses pautam boa parte das reivindicações, depois de um conflito entre agricultores e policiais ter deixado 17 mortos e agravar a crise política do ex-presidente.

Não foi à toa que Franco nomeou, inicialmente, os ministros do Interior, das Relações Exteriores, além do chefe da Polícia Nacional. No Paraguai, as questões internas políticas são conduzidas pelo ministro do Interior e a Polícia Nacional administra as tensões relativas à segurança do Estado.

Para desfazer a imagem externa de ameaça de rompimento com a ordem e a democracia, ainda jovens nas Américas, Franco escolheu José Félix Fernández como chefe de chancelaria do país. Diplomata de carreira, Fernández é respeitado interna e externamente, o que pode facilitar o trânsito de Franco entre os chefes de Estado das Américas ainda resistentes a ele.

*Com Agência Brasil e EFE

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