'Um país sem memória não é nada', diz Patricio Guzmán

Documentarista chileno, homenageado com prêmio e retrospectiva, fala sobre a importância do resgate do passado

Mariane Morisawa, especial para o iG |

Divulgação
O diretor chileno Patricio Guzmán
O chileno Patricio Guzmán é autor de alguns dos mais belos trabalhos de resgate da memória do continente, com filmes como “A Batalha do Chile”, sobre o violento golpe militar que derrubou Salvador Allende em 1973, e “Nostalgia da Luz”, sobre um grupo de familiares que procuram no Deserto do Atacama os corpos de parentes desaparecidos durante a ditadura militar.

Ele veio ao Festival do Rio para uma retrospectiva de seus filmes e para receber o Prêmio Fipresci de Personalidade Latino-Americana. O diretor falou com exclusividade ao iG .

iG: Como se sente com esta homenagem do Festival do Rio?
Patricio Guzmán:
Me sinto bem contente. Na verdade, eu tinha sido convidado no ano passado, mas, como estava lançando “Nostalgia da Luz” em Paris, não consegui vir. Pensei que iam esquecer, porque isso acontece com freqüência. Mas me ligaram e estou muito feliz.

iG: Uma retrospectiva como essa provoca vontade de rever seus próprios filmes?
Patricio Guzmán:
Nunca os revejo. Na montagem, passamos tanto tempo com eles! Assisto um pedacinho ou outro, mas só. Estou bem feliz de mostrar meus longas aqui, porque só são conhecidos “A Batalha do Chile” e “Nostalgia da Luz”.

iG: Seus filmes recuperam a história trágica do Chile, principalmente a partir do golpe militar de 1973 que derrubou Salvador Allende. Por que isso é importante para você?
Patricio Guzmán:
A memória é um tema que não sai de moda. A memória não é abstrata nem invisível. Ela é a força vital de um país. Um país que não trabalha sua memória não é nada. A Espanha, por exemplo, é conhecida pelos vinhos e pelos times de futebol, mas não tem um papel importante no cenário europeu. No Chile, há um grave problema de memória também, tanto que o país não exerce um papel importante no continente, como o Brasil, a Venezuela e até Cuba.

iG: Mas o Brasil também não costuma resgatar muito sua memória.
Patricio Guzmán:
Sim, é grave. Ainda mais porque o Brasil, junto com Índia e China, está emergindo para ser tornar uma potência. Os 25 anos da ditadura militar passaram voando e não há quase nada que lembre isso. Eu me lembro quando no Chile pousou um avião com cem pessoas exiladas do Brasil. O país foi o primeiro a aplicar as torturas aprendidas na Escola do Panamá. Há alguns cineastas que trabalham essa memória, mas ainda são poucos. Um país sem passado é como uma edificação sem alicerces. Ele cai.

iG: No Chile há ficções também que tratam do passado do país.
Patricio Guzmán:
Algumas. Não importa se documentário ou ficção, resgatar a memória é importante. Há alguns jovens documentaristas que trabalham isso. É muito importante apoiá-los porque não creio nos historiadores, não creio nos heróis chilenos. Você vê aquelas estátuas e não sabe quem são aquelas pessoas. A história convencional conta a história dos vencedores. O México tem uma tradição de não esquecer os astecas e maias e a Revolução Mexicana. O país se sustenta em algo. No Chile, não há nada.

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