Embargo dos EUA a Cuba completa 50 anos como política obsoleta

ONG em Washington considera bloqueio 'remanescente da Guerra Fria' e Cuba estima em US$ 104 bi danos diretos entre 1962 e 2010

iG São Paulo |

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Embargo econômico foi imposto oficialmente pelo presidente John F. Kennedy em 1962
O embargo total americano sobre Cuba completa nesta terça-feira 50 anos sem sinais de que o presidente Barack Obama faça planos de pôr fim à medida, enquanto ativistas e analistas continuam denunciando que a prática é uma política "obsoleta" que prejudica principalmente a população da ilha.

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No início de 2011, Obama se valeu de uma ordem executiva para flexibilizar as restrições de viagens e envios de remessas a Cuba que foi adotada por seu antecessor, George W. Bush (2001-2009), mas deixou de pé o bloqueio unilateral contra a ilha imposto oficialmente em 7 de fevereiro de 1962 pelo então presidente John F. Kennedy (1961-1963).

Cabe ao Congresso americano derrogar o embargo, reforçado em 1996 pela Lei Helms-Burton, mas o governo de Obama condiciona seu apoio à eliminação dessa medida a que o regime do presidente Raúl Castro faça "mudanças" que ainda não aconteceram.

Segundo meios de comunicação oficiais cubanos, o embargo americano intensificou-se no governo Obama. A diretora de Assuntos Multilaterais do Ministério das Relações Exteriores de Cuba, Anayansi Rodríguez, negou que o governo Obama tenha impulsionado "flexibilizações" na aplicação dessa política, segundo uma entrevista divulgada pela agência cubana Prensa Latina.

"De maneira recorrente, a administração de Barack Obama manipula o discurso da suposta flexibilização, em prol de criar perante a comunidade internacional a imagem que agora corresponde à ilha dar passos rumo a melhores relações bilaterais", declarou Anayansi.

Anayansi advertiu que a flexibilização de Obama quanto à autorização de algumas categorias de viagens, remessas, e permissão a aeroportos para despachar voos charter a Cuba são "passos positivos", mas "não implicam um relaxamento das pressões do cerco".

Nesse sentido, insistiu que Cuba continua sem poder importar e exportar aos EUA, sem poder utilizar o dólar americano em suas transações, e sem acesso aos principais mecanismos internacionais para créditos e fundos, enquanto os cidadãos americanos comuns não podem viajar à ilha sem autorização do governo.

Para o Escritório de Washington para América Latina (WOLA, na sigla em inglês), uma ONG de direitos humanos, Cuba "está mudando" e experimentando "profundas transformações econômicas e políticas" às quais os Estados Unidos não podem ficar alheios.

"O embargo está defasado, é um remanescente da Guerra Fria", sustentou em comunicado o diretor de programas da WOLA, Geoff Thale, para quem a medida está "desatualizada e só prejudica o povo cubano, suas famílias nos Estados Unidos e os interesses americanos".

Thale, que acaba de visitar Cuba em uma "viagem de pesquisa", lembrou as reformas feitas pelo governo de Raúl Castro, que representam uma tímida e controlada abertura à economia privada e uma redução em massa do Estado como empregador.

Ele destacou a libertação de mais de uma centena de presos políticos desde 2010, graças a um processo de diálogo entre o governo da ilha e a Igreja Católica. "Em vez de ajustar a política dos EUA a de Cuba para adaptar-se ao mundo em transformação, os defensores do embargo se centraram em ajustar seus argumentos para preservar uma política obsoleta", lamentou o especialista.

O Congresso "não vai retirar o bloqueio da noite para o dia", mas os políticos "sensatos" devem trabalhar em favor do diálogo entre Cuba e os Estados Unidos, recomendou Thale.

A tarefa não é nada fácil, dado que as tentativas de aproximação entre ambos os países ficaram praticamente congeladas após a condenação em Cuba a 15 anos de prisão do americano Alan Gross, quem Havana acusa de espionagem e de participar de "planos subversivos" contra a ilha.

Também não ajuda a política linha dura contra o regime cubano que defendem importantes líderes republicanos no Congresso, nos últimos tempos, especialmente os pré-candidatos presidenciais desse partido com vistas às eleições de novembro.

O favorito a ser o candidato, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney, disse que se ganhar a presidência usará "todos os recursos possíveis" para permitir ao povo cubano alcançar sua liberdade "quando Fidel Castro morrer".

Outro aspirante, o ex-presidente da Câmara de Representantes Newt Gingrich, prometeu acabar com a "ditadura" dos irmãos Castro em quatro anos se chegar a Casa Branca.

Uma recente pesquisa da Universidade Internacional da Flórida aponta que 46% dos cubano-americanos se opõem ao embargo. Apesar dessa medida - Cuba estima os danos econômicos diretos entre 1962 e dezembro de 2010 em US$ 104 bilhões - o fluxo de pessoas e remessas é crescente.

Estima-se que em 2011, 300 mil cubano-americanos viajaram a ilha e esse número poderia chegar a 500 mil neste ano. Em 2010, as remessas recebidas na ilha, maior parte procedente dos EUA, superaram US$ 1 bilhão.

NYT
Carros são vistos estacionados em rua de Havana (29/07)

'Imperativo moral'

Líderes da Câmara dos Representantes dos EUA defenderam nesta terça-feira o embargo a Cuba como um "imperativo moral" para promover a transição democrática na ilha.

Em comunicado conjunto, os legisladores republicanos Ileana Ros-Lehtinen, David Rivera e Mario Díaz Balart e o democrata Albio Sires afirmam que, "além de impor pressões econômicas sobre o regime de Castro e exigir contas por ações contra interesses americanos, o embargo é uma postura moral contra a ditadura".

Ros-Lehtinen disse que o embargo tornou-se uma constante mostra de solidariedade com o povo cubano. "Mantenho a esperança que chegará a 'Primavera Cubana' enquanto mantivermos e fizermos cumprir as políticas (de apoio ao povo)".

Ela acrescentou que o embargo se manterá até que o governo de Cuba convoque eleições "livres, justas e transparentes", liberte todos os prisioneiros políticos e estabeleça a liberdade de expressão e de imprensa.

Díaz Balart reiterou sua acusação de que Obama insiste em oferecer "concessões unilaterais" a Cuba, embora, em sua opinião, o governo de Havana intensifique a repressão da dissidência.

Washington deve "fortalecer as sanções contra o regime" para privar o governo cubano de qualquer apoio financeiro e para respaldar os ativistas pró-democracia na ilha, acrescentou o parlamentar.

O democrata Sires considerou que a repressão em Cuba piorou a ponto de, em sua opinião, "os cubanos estão sofrendo mais do que nunca" pelo regime dos irmãos Castro.

Com EFE

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