Chávez, o militar 'socialista' que transformou a Venezuela

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Para os setores populares, o presidente venezuelano foi uma espécie de 'justiceiro' que redistribuiu a renda do petróleo; para seus opositores, foi o político que dividiu o país

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Soldado. Bolivariano. Socialista e anti-imperialista. Assim se autodefinia o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Considerado um dos mais polêmicos e importantes líderes da América Latina, teve um câncer como sua batalha final, encerrando os 14 anos de sua permanência no poder. Chávez é visto como o homem que transformou a história social e política da Venezuela.

Obituário: Morre aos 58 anos Hugo Chávez, presidente da Venezuela

AP
Venezuela chora segurando foto do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, contra o rosto do lado de fora de hospital militar em Caracas (06/03)

Cronologia 1: Chávez e sua luta contra o câncer

Cronologia 2:  Veja os principais momentos da trajetória política de Hugo Chávez

Para os setores populares, foi uma espécie de "justiceiro" que chegou à presidência para redistribuir a renda do petróleo, antes privilégio de uma minoria. Para seus opositores, foi o político que dividiu o país e atentou contra a propriedade privada, a liberdade de imprensa e a democracia.

O projeto maior de Chávez, a chamada "Revolução Bolivariana", moveu o tabuleiro da política venezuelana à esquerda. Polêmico, inspirado no prócer independentista Símon Bolívar, criticava em seus discursos as causas que teriam levado o país - quinto maior exportador mundial de petróleo - a manter a maioria da população na pobreza.

Com uma popularidade incomparável na história do país, o líder venezuelano criou um vínculo emocional com seus seguidores que foi além da política. Por alguns é visto como "pai", "irmão", "amigo" ou "filho".

Gritos de "Chávez, eu te amo" costumavam acompanhar comícios e atos públicos liderados pelo presidente. Para Alberto Barrera, autor da biografia "Chávez Sem Uniforme", o presidente estabeleceu "um carisma religioso e afetivo com parte da população". Ele acrescenta que Chávez podia ser comparado a um popstar. "Ele quis ser jogador de beisebol, mas não deu certo. Gostava de cantar, mas desafinava. Tentou um golpe de Estado e fracassou e, por fim, chegou à presidência e fez uma revolução", disse um simpatizante.

Veja a trajetória de Chávez em imagens:

Governo da Venezuela divulga fotos de Chávez ao lado de suas filhas em fevereiro de 2013. Foto: DivulgaçãoChávez manda beijo antes de embarcar em direção a Havana para nova cirurgia em dezembro de 2012. Foto: APChávez anuncia nova cirurgia contra câncer e indica Nicolás Maduro como seu sucessor em dezembro de 2012. Foto: APO presidente da Venezuela, Hugo Chávez, comemora reeleição em outubro de 2012. Foto: ReutersLíderes do Mercosul se reúnem para selar adesão da Venezuela ao bloco em julho de 2012. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaHugo Chávez usa binóculos dados por vice-premiê bielo-russo, Vladimir Semashko, em Caracas, em junho de 2012. Foto: APEm abril de 2012, Chávez parte novamente para Cuba ao lado da filha Rosa Virgínia. Foto: APApós nova cirurgia, Chávez retorna à Venezuela em ritmo de campanha em março de 2012. Foto: APPresidente da Venezuela Hugo Chávez conversa com o ator Sean Penn que visitou o palácio presidencial em Caracas, Venezuela, em fevereiro de 2012. Foto: APHugo Chávez e sua filha Rosa embarca em avião em direção a Cuba em outubro de 2011 para o presidente fazer exames. Foto: APChávez coloca 'chapéu da cura' oferecido por índia durante cerimônia em Caracas em setembro de 2011. Foto: APEm setembro de 2009, Hugo Chávez jogou softball antes de conceder coletiva. Foto: ReutersChávez dança com sua filha na varanda do palácio presidencial em julho de 2011. Foto: AFP PHOTOEm julho de 2011, Chávez cumprimenta partidários em cerimônia em Caracas. Foto: AFPChávez participa de missa por sua saúde em Caracas em julho de 2011. Foto: APChávez saúda partidários em Caracas depois de retornar de sua primeira cirurgia após descoberta do câncer em julho de 2011. Foto: APDilma Rousseff e Hugo Chávez conversam durante cerimônia de posse da presidente em janeiro de 2011. Foto: AEChávez cumprimenta Cristina Kirchner durante velório de Néstor Kirchner em outubro de 2010. Foto: APChávez se encontra com ex-jogador de futebol argentino Diego Maradona no Palácio de Miraflores, em Caracas, em julho de 2010. Foto: APPresidente da Síria, Bashar al-Assad, tem reunião com Hugo Chávez em junho de 2010. Foto: ReutersChávez e Vladimir Putin passam por tropas durante cerimônia em Caracas em abril de 2010. Foto: APHugo Chávez, presidente da Venezuela, na Conferência Mundial sobre as Alterações Climáticas e os Direitos da Mãe Terra, em abril de 2010. Foto: APPresidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e Chávez se encontram em Caracas em novembro de 2009. Foto: APEm outubro de 2009, o então presidente brasileiro Lula visitou Chávez em Caracas. Foto: AEEm setembro de 2009, Chávez encontra o cineasta Michael Moore no Festival de Veneza. Foto: AFPEm abril de 2009, na Cúpula das Américas, Obama troca um breve cumprimento com Chávez. Foto: APChávez conversa com o líder cubano Raúl Castro no encontro da ALBA, em Cumana, em fevereiro de 2009. Foto: ReutersFoto divulgada pelo jornal cubano Granma mostra Fidel Castro e Hugo Chávez de mãos dadas enquanto líder cubano se recuperava de cirurgia em agosto de 2006. Foto: APFidel participa de evento ao lado do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em fevereiro de 2006. Foto: APFoto divulgada pelo Palácio de Miraflores mostra Chávez ao lado do então líder líbio, Muamar Kadafi, morto em 2011, em Trípoli, em novembro de 2004. Foto: APChávez e sua então mulher Marisabel posam para foto ao lado da filha Rosa durante parada pelo Dia das Crianças em Caracas, em 2001. Foto: APEm foto sem data, Chávez posa com seus companheiros do fracassado golpe de 1992 enquanto estavam presos na cadeia Yare II, perto de Caracas. Foto: APEm foto sem data divulgada pelo Palácio de Miraflores, Hugo Chávez em seu tempo de serviço militar. Foto: APFoto sem data divulgada pelo Palácio de Miraflores mostra Hugo Chávez em uma foto familiar em Barinas, Venezuela. Foto: APFoto sem data divulgada pelo Palácio de Miraflores mostra Hugo Chávez (dir.) ao lado do irmão, Adan Chávez. Foto: AP

Proveniente de uma família humilde de origem camponesa e de professores primários, Chávez nasceu em 1954, no povoado de Sabaneta, em Barinas, no noroeste venzuelano. Cresceu em um casebre, onde foi educado pela avó materna.

No Exército, fundou o Movimento Bolivariano Revolucionário 200, que se tornou o alicerce de sua carreira política. Em fevereiro de 1992, o então tenente-coronel Chávez liderou um golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Perez.

Fracassada a intentona, Chávez foi preso. Em 1999 foi eleito presidente e promoveu uma Assembleia Constituinte que criou as bases de seu projeto político. Ele estabeleceu uma política nacionalista, atacou latifúndios e promoveu uma onda de nacionalizações em setores estratégicos - petróleo, siderurgia, telecomunicações, eletricidade e parte do setor alimentar.

Essas medidas teriam assustado investimentos estrangeiros e empresários locais que deixaram de apostar no desenvolvimento industrial do país por temor ao "comunismo".

Ao promover mudanças na Constituição, Chávez foi acusado de demagogia e oportunismo. Para seus opositores, as alterações eram parte de um plano para mantê-lo eternamente no poder. Chávez foi chamado de populista e autocrático, acusado de ameaçar a liberdade de imprensa e de utilizar a máquina estatal para perseguir aqueles que discordavam de sua "revolução".

Saiba mais: Veja especial de matérias do iG sobre Venezuela

Pobreza e economia

A estrutura econômica herdada de governos anteriores na qual a atividade produtiva se resumia praticamente à exploração de petróleo se manteve intacta na era Chávez. Não houve diversificação do campo produtivo e o principal motor da economia continuou sendo o petróleo.

"Chávez surgiu em uma Venezuela comandada por mais de 50 anos por uma elite política e empresarial acomodada pela bonança petroleira", disse o historiador Miguel Tinker Salas, professor de História Latino-Americana da Pomona College, da Califórnia. "Chávez canalizou a crise, que, de outra forma, poderia ter provocado um enfrentamento social", afirmou à BBC Brasil.

A criação das missões (programas sociais) de saúde e educação inaugurou em 2003 a cooperação com Cuba - estabelecendo a assistência de médicos e educadores em troca de petróleo. Essa aliança se tornou mais tarde o pilar de sustentação do governo e da popularidade do presidente.

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Mulher coloca vela em frente a uma imagem do presidente venezuelano, Hugo Chávez, ao lado de fora da Embaixada da Venezuela em La Paz, Bolívia (05/03)

Especial de 2012:
- 'Missões' imprimem caráter assistencial a governo Chávez
- Política econômica chavista mina produção e afasta investimentos
 

"Antes de Chávez, o único direito que nós, os pobres, tínhamos, eram as balas (de repressão)", afirmou à BBC Brasil a dona de casa Miriam Bolívar, enquanto aguardava notícias sobre a saúde do presidente na Praça Bolívar, em Caracas.

Na era Chávez, a pobreza na Venezuela caiu mais de 20%, de acordo com a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), e o país passou a registrar a menor desigualdade entre ricos e pobres entre nações latino-americanas, de acordo com relatório da ONU, com 0,41 no índice de Gini, que mede o grau de desigualdade na distribuição da renda domiciliar per capita entre os indivíduos de um país - quanto mais próximo de zero menor a desigualdade.

Apesar de se proclamar socialista, Chávez não conseguiu eliminar uma das maiores mazelas econômicas que afetam principalmente a população de renda mais baixa, a inflação. Com índices que chegam a 30%, a Venezuela tem a maior inflação da América Latina. Seu governo também falhou em não criar uma política econômica de longo prazo que fosse capaz de evitar a recessão. Além disso, o presidente não conseguiu acabar com a corrupção na administração pública nem reduzir os índices de criminalidade nas ruas.

Amor e ódio

Chávez foi um líder polêmico e o sabia. Na Venezuela polarizada entre chavistas e antichavistas, entre socialismo e capitalismo, elementos raciais e de classe social também foram determinantes para incrementar o "amor" e "ódio" em torno de sua liderança. Seus opositores acreditam que a polarização criada é maléfica para o país, pois apenas um setor da sociedade - os "vermelhos" - teria espaço.

"Chávez atacou o velho sistema de exclusão social que dominava a sociedade, mas em contrapartida desenvolveu um novo sistema de exclusão política", afirmou Barrera.

A divisão entre os venezuelanos se aprofundou durante a crise política de 2002-2003 que resultou do fracassado golpe de Estado contra Chávez. A intensa disputa se arrastou até 2004, quando Chávez saiu vitorioso nas urnas, depois de um referendo sobre seu mandato.

Em 2007, ele cancelou a concessão pública do canal privado RCTV - acusado de apoiar o golpe - , desencadeando uma onda de protestos. Chávez acusava os meios de comunicação privados de serem os porta-vozes da oposição interna e do governo dos Estados Unidos. A saída do ar da RCTV foi vista como um ataque à liberdade de imprensa.

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Caixão coberto pela bandeira venezuelana leva corpo do presidente Hugo Chávez durante cortejo fúnebre em Caracas (06/03)

A aprovação pelo Parlamento em 2009 de emenda que lhe permitiu reeleger-se sem limites de mandatos foi outro auge polêmico - que voltou a dividir a sociedade entre o "sim" e "não". Ex-aliada do governo, a historiadora Margarita López Maya critica o centralismo desenvolvido em torno da figura presidencial. "Em termos históricos, foi o rei que tivemos na Venezuela. Foi como Luis 14."

Diplomacia

Amparado pelo incremento dos preços do petróleo, Chávez fortaleceu a influência de sua diplomacia no continente. "Ele deixa uma projeção internacional nunca alcançada por outro líder venezuelano", disse à BBC Brasil o analista político Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis.

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Os Estados Unidos viam com ressalvas a influência de Chávez em outros países da América Latina. O presidente venezuelano costumava dar opiniões sobre eleições em países vizinhos, apoiava abertamente candidatos presidenciais e assinou multimilionários acordos de cooperação.

Chávez criou novos mecanismos de integração regional, como Petrocaribe e Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), orientados na venda de petróleo a preços preferenciais, em troca do pagamento em moeda, mercadorias ou serviços.

Crítico da política "imperialista", Chávez desafiou a influência americana na América Latina, tornando-se, ao lado de Fidel Castro, o principal inimigo dos Estados Unidos na região. Defensor de um "mundo multipolar", aproximou-se de figuras como o ex-líbio Muamar Kadafi e o presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad.

Fora da América Latina: Aliados ao redor do mundo relembram Chávez como 'bom amigo'

O estreitamento das relações entre Caracas e Brasília teve como marco os dois mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Neste período, o fluxo comercial foi triplicado e a aliança política consolidada, sobretudo para dirimir crises entre a Venezuela e o governo do colombiano Álvaro Uribe.

Na presidência, Chávez foi um grande incentivador do chamado "eixo de integração" entre Brasília, Caracas e Buenos Aires - no qual contou com o apoio do ex-presidente Lula, no Brasil, e do casal Kirchner, na Argentina.

Em 2012, Chávez colheu parte dos frutos desses apoios ao ver seu país dentro do bloco do Mercosul após uma manobra diplomática do Brasil e da Argentina que neutralizou a oposição paraguaia a essa integração.

Chávez-dependência

Os venezuelanos foram convocados às urnas em 17 eleições durante os mandatos de Chávez. Ele saiu derrotado apenas uma vez, quando pretendeu reformar 33 artigos da Constituição. Reeleito em outubro, o câncer impediu que assumisse seu quarto mandato.

Placas, murais e grafites espalhados por todo o país evocam seu rosto e suas frases. Nas casas mais humildes, a imagem do "comandante" divide o espaço com a foto das famílias nas paredes. Em seu testamento político, Chávez preparou a população para o que viria: sua quarta cirurgia poderia ser a batalha final contra o câncer.

Antes de enfrentá-la, apontou o vice-presidente Nicolás Maduro como seu potencial sucessor na liderança da "Revolução Bolivariana". Desde então, uma antiga ideia defendida por ele recobrou vida entre seus seguidores: "Eu sou um povo, todos somos Chávez."

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