Gleisi: mulher de ministro e pré-candidata

De olho no Senado, Gleisi Hoffmann garante que dará conta do recado se for eleita e descarta a vice na chapa com PDT

Andréia Sadi, iG Brasília |

A advogada Gleisi Hoffmann é pré-candidata ao Senado Federal pelo Estado do Paraná. Filiada ao PT desde 1989, Gleisi foi indicada ao cargo de diretora financeira da Itaipu Nacional e compôs a equipe de transição do governo do presidente Lula, em 2002. Com experiência em gestão pública, ela seria uma anônima no cenário político de 2010 se não fosse por um pequeno detalhe: é mulher do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.

Mas a paranaense não se incomoda com o posto e trilhou caminho próprio. Em 2006, se lançou para o Senado, mas não foi eleita. Em entrevista ao iG , contou que durante toda a campanha o fato de ser casada com o “Paulo”, como ela chama o ministro, era desconhecido da população. Atribuiu à teimosia o fato de não usá-lo como cabo eleitoral.

Divulgação
Gleisi Hoffmann vai trabalhar por uma vaga ao Senado

“Todo mundo ia dizer: vai ser eleita porque é mulher do ministro. Agora é isso. A imprensa nacional me trata como mulher do Paulo Bernardo. Eu milito há muito tempo na política, fiz uma opção de ser pública depois que ele e virei a mulher dele”, rebateu.

Pela segunda vez, Gleisi postula o cargo de senadora , mas ainda precisa definir a chapa no Estado. O PT propôs apoiar o senador Osmar Dias, do PDT, para o governo, mas ele ainda não bateu o martelo sobre sua candidatura.

Dias chegou a condicionar a sua candidatura a uma parceria com Gleisi para a vice, mas ela descarta. “Eu não me preparei para ser vice, governadora. Eu me preparei para ser candidata ao Senado. E garante: “Eu vou dar conta do recado.”

Confira os principais trechos da entrevista ao iG :

iG: Por que a senhora entrou para a política?

Gleisi Hoffmann : Bom , eu milito no PT desde 1989. Antes de militar no PT eu era filiada ao antigo MDB porque eu tinha ligação com o PCdoB. Era um partido clandestino e por isso era do MDB. Em 89, na campanha do Lula, eu me filiei ao PT. Minha história com a política vem do grêmio estudantil Colégio Nossa Senhora Medianeira.

Eu comecei a ter contato com os movimentos estudantil em nível nacional . Comecei a participar de reuniões locais e aí conheci o pessoal do PCdoB. E aí me encantei, achei que a política era um meio de mudar a vida das pessoas, resgatar a injustiça social e fui muito criada nos princípios cristãos. Pode até parecer engraçado. Eu fui para um partido comunista, mas é isso mesmo. Eu ia ser freira e fui para um partido comunista.

iG: A senhora ia ser freira?

GH : Ia. Porque estudei em colégio de freira muito tempo. E eu só não fui porque eu tinha que ir para um convento em Novo Hamburgo no Rio Grande Sul. Eu tinha 12 anos, mas meu pai não deixou porque achou que era muito longe.

iG: Quando ganhou corpo a ideia de disputar eleição?

GH: Foi em 2006 na minha primeira campanha para o Senado. Sempre atuei na assessorias das nossas bancadas, depois governos. E quando eu comecei a atuar na Câmara eu percebi que a gente tinha que se especializar em matérias de gestão pública. Então fui muito para área de orçamento público. Minha formação é em direito , mas fiz vários cursos nesta área.

Nunca tinha pensado em disputar eleição. Quando o presidente Lula ganhou, eu vim para Brasília fazer parte da equipe de transição. Durante o período que trabalhei no Congresso Nacional, eu fazia parte da equipe que ajudava a assessorar o presidente. Quando teve a equipe de transição , lembraram do meu nome e me chamaram.

Aí depois o Jorge Samek foi nomeado diretor-geral da Itaipu e me convidou para diretoria financeira. Fiquei lá quase quatro anos.

iG: Como foi esse período?

GH: Durante o tempo que eu estava no Paraná, eu sempre trabalhei muito a questão de gênero. Eu era diretora financeira, mas talvez por ser a única mulher da diretoria a parte de responsabilidade social da empresa deram para eu coordenar também. Fizemos vários programas na Itaipu, reequipamos nossos hospitais e trabalho de equidade de gênero dentro da empresa para que as mulheres pudessem ascender na carreira. Dilma ajudou muito nisso, porque o primeiro comitê público de igualdade de gênero surgiu no ministério de Minas e Energia.

iG: A senhora tem contato com a ex-ministra?

GH: Não tenho contato diário, mas conhecia ela na equipe de transição e quando fui diretora de Itaipu a gente conversava muito porque ela era ministra. Depois na Casa Civil a gente acabava tendo contato. Sempre quando vai a Curitiba a gente conversa, mas não sou de ficar ligando. Mas tenho bom relacionamento.

iG: Por que disputar o Senado em 2006?

GH: Precisávamos preparar pessoas para a disputa eleitoral em 2006. O Paulo era deputado federal e deixou de disputar porque o presidente pediu para ele continuar no ministério. Bom, aí surgiu a possibilidade de eu disputar um cargo. Aí eu falei : eu não vou disputar candidata a deputada federal porque as pessoas iam dizer que eu ia ganhar por causa do Paulo. Literalmente era porque eu ia entrar na vaga dele e todos os contatos políticos seriam dele. Decidi disputar um cargo que ninguém queria nem no PT nem outro partido que era o Senado.

iG: E como foi a campanha?

GH: Bom, o Álvaro Dias estava muito bem e nós ainda tínhamos o problema do mensalão que estava no nosso calcanhar ali. Aí fiz uma reunião, sai da Itaipu e disse que topava ir para o Senado. Eu achava que o PT tinha que falar de uma maneira mais ampla no Paraná para população sobre essas questões do mensalão e tudo que aconteceu. Passei a campanha inteira falando disso. E foi muito legal, onde eu chegava a primeira coisa era isso. O pessoal achava que eu era louca, o Paulo achava que era louca. Eu fiz a campanha inteira ninguém sabia que eu era mulher dele. Nunca utilizei a imagem do Paulo, nada.

iG: A senhora acha que o ministro como “cabo eleitoral” não ajudaria?

GH : É porque eu sou teimosa. Todo mundo ia dizer “vai ser (eleita) porque é mulher do ministro”. Agora é isso. A imprensa nacional me trata como a mulher do Paulo Bernardo. Eu milito há muito tempo na política, fiz uma opção de ser pública depois que ele e virei a mulher dele. A imprensa do Paraná já me conhece mais.

iG: Mas a senhora acha que este tratamento existe ainda?

GH: Trata assim. Eu não existo do ponto de vista da política e até entendo porque eu não tinha uma referência pública. Então é a mulher do ministro.

iG: A senhora acha que falta liderança no Senado?

GH: Acho que o Senado está uma Câmara de Deputados ampliada. Ele perdeu noção de Senado. O que é o Senado? É uma Casa representativa do Estado enquanto território e do conjunto da população. Não é de setores do Estado, categorias ou parte da população. Então um senador aqui precisa ser interlocutor dos interesses do Estado junto a União. Com todo respeito aos senadores Flavio Arns, Álvaro e Osmar Dias, acho que as atuações são setoriais.

iG: A senhora não terá uma bandeira?

GH: Eu terei várias bandeiras. Defesa dos interessess das mulheres, das crianças e adolescentes, da educação. Onde eu posso intervir para ajudar o Estado eu faço. O Senado é cargo de articulação maior, posso contribuir mais e aprender muito porque, se um dia eu quiser dar sequência a minha carreira política, eu terei bagagem política.

iG: Hoje a senhora se coloca como pré-candidata ao Senado? O que falta para a consolidar a candidatura?

GH: Sou pré-candidata ao Senado. Falta fechar aliança. O Osmar Dias sempre soube disso, desde o começo, nunca o enganamos. Ele acha que é projeto pessoal. Por que o meu projeto é pessoal e o dele não é? Ou do Orlando Pesutti? (PMDB) Por que eu sou mulher? Por que quero fazer palanque da Dilma? Queremos. E sempre falamos isso: queremos eleger a Dilma e boa bancada de senadores. O presidente disse a ela: não desejo o Senado que eu tive. Ele tem razão. Tivemos muito problemas lá. Cada senador é uma instituição, difícil de conversar.

iG: E a vice?

GH: Acho que posso ajudar mais como candidata ao Senado do que a vice. Eu não me preparei para ser vice, governadora. Eu me preparei para ser candidata ao Senado. Sei que, se for senadora, preciso aprender muito. Mas eu vou dar conta do recado.

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