Tablets substituem livros em escolas brasileiras

Equipamentos entram na rotina dos colégios em 2012, mas formação de professores e dispersão de alunos ainda são desafios

Priscilla Borges e Tatiana Klix, iG Brasília e São Paulo |

No Centro Educacional Sigma, em Brasília, a lista de material escolar do 1º ano do ensino médio ficou mais curta. Em vez de vários livros, os pais tiveram que comprar apenas um item – um tablet – e pagar mais R$ 1,1 mil pelos aplicativos com o conteúdo didático exigido para todas as disciplinas. A novidade com potencial de revolucionar a interatividade em sala de aula começa a se popularizar no País a partir deste ano, mas ainda esbarra em algumas dificuldades, como a falta de preparo dos professores para o uso da ferramenta e o potencial de dispersão que a internet tem sobre os estudantes.

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Em outras instituições em diferentes Estados, embora o equipamento ainda não seja obrigatório passou a ser não apenas aceito, mas estimulado. No Ceará, uma rede dá opção para os alunos: livros ou um tablet. Em São Paulo, um colégio criou um laboratório móvel com 30 equipamentos e outra investe em formação de professores para o uso da tecnologia.

Divulgação
Professores de SP passam por treinamento para uso de dispositivos móveis no parque Ibirapuera

Na instituição no Distrito Federal a substituição dos livros por dispositivos móveis será “testada” em grande escala – por cerca de 1 mil alunos das cinco unidades espalhadas pela cidade.

De acordo com o professor de Física André Frattezi, um dos entusiastas do uso da nova tecnologia, havia uma preocupação da direção da escola além de ganhos de aprendizado. A quantidade de livros carregada pelos alunos diariamente também era motivo de conversas com os professores. Alguns viram no tablet a solução para o problema.

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s Estados Unidos: Escolas adotam iPad como ferramenta didática

Frattezi conta que, depois de uma procura de material específico para a ferramenta nas editoras brasileiras, os professores perceberam que o desafio de inserir os tablets na sala de aula seria grande. Não encontraram material adaptado para eles no mercado e decidiram produzir o próprio conteúdo.

Com a ajuda de especialistas, cerca de 30 professores prepararam o material que será usado pelos estudantes. O professor faz questão de ressaltar que o conteúdo não é uma simples adaptação do que há em papel, mas há vídeos e gráficos interativos. Todo o investimento nessas tecnologias, segundo ele, justifica o preço pago pelos pais para adquirir esse conteúdo. “Com o tempo, os valores devem baixar”, diz.

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Estratégia diferente adotou o colégio Bandeirantes, de São Paulo, que optou por comprar 30 tablets para os professores usarem como laboratório móvel. Além disso, todas as apostilas usadas pela escola estão disponíveis em formato digital para os alunos que quiserem usar seus próprios dispositivos nas aulas.

“Não é uma imposição, mas uma opção. Estamos sendo cautelosos por enquanto, porque é preciso ter uma estratégia de mudança das aulas”, explica a professora Sílvia Vampré, coordenadora de tecnologia educacional do Bandeirantes. Para isso, um grupo de professores vai estudar as melhores práticas e orientar outros educadores.

Formação de professores

Reprodução
Educadores desenham pássaro do Twitter através de ferramentas de geolocalização no Ibirapuera
No colégio paulistano Lourenço Castanho, a preparação dos professores é o foco da inserção dos tablets em sala de aula. Uma formação de 38 horas está sendo realizada com um grupo de 27 educadores do ensino fundamental 2 (6º ao 9º ano) e médio, que posteriormente serão multiplicadores. As aulas são ministradas pela editora Editacuja, empresa de desenvolvimento de estratégias para dispositivos móveis para educação, e tem o objetivo de fazer com que os professores produzam seus próprios aplicativos, principalmente para atividades externas e de estudo do meio. O colégio também vai disponibilizar tablets para atividades eventuais.

Na primeira sessão, eles visitaram o parque Ibirapuera e realizaram mapeamento coletivo da área. Divididos em grupos, a partir de uma ferramenta de GPS, cada um foi para um ponto e juntos desenharam o pássaro símbolo da rede social Twitter, de onde enviaram fotos e informações sobre o local onde estavam a partir dos dispositivos móveis.

O diretor da Editacuja, Martin Restrepo, explica que os tablets permitem que professores e alunos deixem de ser apenas consumidores de conteúdos limitados e rígidos, mas possam construir um modelo editorial baseado na colaboração que atende necessidades específicas de cada escola.

“Com as ferramentas de interatividade, imagens animadas e geolocalização, qualquer lugar é transformado em sala de aula. É possível reinventar atividades como gincanas, trilhas de caça ao tesouro, que são extremamente educativas”, diz. No entanto, o engenheiro de sistemas eletrônicos alerta que um tablet na sala de aula não faz diferença se o professor for usá-lo apenas como PowerPoint. “O modelo pedagógico tem que mudar radicalmente”, defende.

Marcello Barra, sociólogo do grupo de estudos de Ciência, Tecnologia e Educação na Contemporaneidade do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), não é otimista nesse sentido e diz que os professores não estão preparados para os tablets e a infra-estrutura das escolas também não.

Para o pesquisador, os colégios ainda precisam ter redes de internet melhores e as editoras têm de produzir materiais didáticos adequados. “Mas o principal é que uma quantidade muito grande de professores não tem ideia de como se usa esse tipo de tecnologia”, afirma.

Internet dispersa
No Ceará, quatro escolas do Colégio Ari de Sá que começam este ano dando a opção entre o material convencional ou o tablet para seus alunos incluíram no treinamento aos professores aulas de controle disciplinar do equipamento. “Vamos ter um sistema de internet que o educador abre quando a aula exige. No restante do tempo, apenas os arquivos baixados poderão ser usados”, explica o diretor executivo Ari de Sá Cavalcante Neto. Entre 2 mil alunos do grupo educacional, 320 substituirão livros pelo dispositivo móvel e foram gastos R$ 300 mil entre desenvolvimento de softwares, licenças e compra de equipamentos para os professores para implantar a novidade.

A preocupação com o uso da internet nos tablets é comum em todas as escolas que experimentam a tecnologia. A professora Sílvia, do Bandeirantes, também em São Paulo, pondera que apesar das vantagens do uso dos tablets, o potencial de distração dos alunos é grande. “Com tablets, os alunos têm acesso à internet e ao Facebook muito facilmente. Não sabemos o impacto disso ainda”, conclui.

Escolas públicas
O Ministério da Educação (MEC) começou a se mexer para levar tablets às redes públicas de ensino. Na semana passada, o primeiro estágio de pregão eletrônico para a aquisição de 900 mil aparelhos foi concluído. Menina dos olhos do novo ministro, Aloizio Mercadante, quando ainda estava no Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, a proposta é criar núcleos de aplicação da tecnologia em sala de aula e não oferecer a todos os alunos.

Mau uso de computador:
Sem infraestrutura, laptops ficam guardados em escola de Brasília

Resta saber se essa tecnologia será realmente aproveitada nas salas de aula. Até hoje, as tentativas de universalizar laboratórios de informática ou laptops para cada aluno fracassaram. Não há laboratórios com computadores em todas as escolas, muito menos internet para que sejam utilizados. O programa Um computador por aluno chegou a poucos alunos.

No projeto piloto, 380 escolas foram contempladas com os primeiros 150 mil laptops. Depois, 372 municípios adquiriram mais 375 mil equipamentos.

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