Para Haddad, instabilidade jurídica prejudicou Enem

Ministro da Educação diz que gostaria de ter feito duas edições do exame antes de deixar a pasta, mas “faltou entendimento”

Adriano Ceolin e Priscilla Borges, iG Brasília |

O ministro ao Educação culpa as ações judiciais contra o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pelo cancelamento das duas edições da prova em 2012 . Em seu último dia de trabalho no cargo, Haddad ainda dá explicações para o recente anúncio do que era considerado a saída para evitar tantas polêmicas envolvendo o Enem.

Haddad candidato: Kassab está no fim da fila para alianças com o PT

Em entrevista ao iG , Haddad afirmou que gostaria de ter concluído essa mudança antes de sair da pasta, mas pondera que não se pode exigir tanto do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Para ele, a previsão feita em 2011 – que o exame seria aplicado em abril e outubro de 2012 – foi prejudicada pelas recorrentes ações judiciais contra a prova.

AE
Na despedida do ministério, Haddad diz que gostaria de ter investido mais na educação no campo
O ministro acredita que as polêmicas envolvendo a aplicação e a correção do exame fazem parte do processo de mudança e diz não temer que adversários políticos usem esses temas contra ele na campanha à prefeitura de São Paulo.

Antes de entregar o cargo a Aloizio Mercadante , nesta terça-feira, Haddad se mostra contente com o “legado de sua gestão”. “O que a gente deixa de mais importante é essa visão sistêmica da educação. Operamos da creche à pós-graduação. O governo nos deu condições para isso, com a compreensão de que ou o Brasil faz um investimento consistente em educação – e o financiamento só faz aumentar – ou nós vamos recair naqueles velhos dilemas: uma vez que nós não temos recursos, qual foco que nós vamos dar?”, comenta.

Confira os principais trechos da entrevista:

iG: Agora que deixa o cargo, como o senhor avalia sua gestão? O que queria ter feito e não fez?
Fernando Haddad: Nós avançamos na educação do campo. Mas a dívida educacional no campo é muito grande. Uma das grandes marcas da gestão do ministro Aloizio Mercadante, se Deus quiser, vai ser essa: lançar o Pronacampo, que organiza federativamente as interfaces necessárias para enfrentar esse problema. Eu gostaria de ter avançado mais no campo.

iG: Não gostaria de ter feito duas edições do Enem?
Haddad:
Sem dúvida. O fim do vestibular exigirá duas edições do Enem, mas você não pode exigir do órgão (o Inep) mais do que ele pode oferecer. O Inep ofereceu demais ao Ministério da Educação, passou a fazer o censo escolar aluno por aluno, avalia 60 mil escolas públicas e 15 mil cursos de graduação. Ele passou por uma transformação muito grande.

iG: Quando o edital do Enem 2011 foi lançado, estavam previstas duas edições do exame em 2012. O que fazia os senhores acharem, naquela época, que isso seria possível e agora não mais?
Haddad:
A pacificação da jurisprudência sobre o Enem. A cada semana se entra com uma ação nova que contraria a tese da ação da semana anterior. Uma hora é TRI (Teoria de Resposta ao Item, metodologia usada na elaboração do Enem ) não é boa, na outra ela tem de ser estendida para a redação. Uma hora as provas de redação têm de ser desconsideradas. No dia seguinte, elas têm de ser revistas. Então, embora o MEC tenha sido vitorioso em todas as ações até aqui, precisamos consolidar esse entendimento. Os vestibulares não sofrem um ataque assim.

iG: O senhor não acha, então, que o MEC poderia ter feito algo diferente antes de mudar o Enem, como explicar melhor o significado da nova metodologia?
Haddad:
Há algumas incompreensões que são parte do processo. É difícil exigir que alguém conheça a TRI, que só está disseminada nos Estados Unidos praticamente. Nós estamos construindo um sistema de seleção melhor do que o americano até, em virtude do Sisu (Sistema de Seleção Unificada). Primeiro, temos de buscar aperfeiçoamento contínuo. Lógico que algumas coisas poderiam ter sido diferente. Para citar um exemplo: havia um entendimento dos órgãos de controle que era preciso licitar o Enem e foi o que acarretou aquele problema de 2009. Ganhou a licitação, por menor preço, quem não estava preparado para fazer. Hoje, analisando depois, penso que deveríamos ter levado ao conhecimento do TCU e da CGU (Tribunal de Contas da União e Controladoria Geral da União) uma apresentação para eles entenderem que seguir aquela orientação era impossível. Hoje está pacificado, mas quantas ameaças foram feitas ao Inep? A posteriori é fácil dizer, mas naquele momento a mera menção da contratação por dispensa geraria uma ação judicial.

iG: O senhor teme que as falhas e os problemas do Enem sejam usados contra o senhor durante a campanha pela prefeitura de São Paulo?
Haddad:
Essa é uma decisão deles, mas estou tranquilo. Se essa for a estratégia deles, para mim está bem. Vamos discutir. Nós fizemos – justiça seja feita, com a ajuda da oposição – a maior reforma educacional da história do País. Aprovamos duas emendas constitucionais, mais de 50 projetos de lei estruturais para a educação. E tudo por consenso. A educação foi tratada pelo MEC, pelo governo e pela oposição como política de Estado. Temos de reconhecer isso.

iG: Durante a campanha, a política educacional de progressão continuada deve ser bastante discutida. O senhor concorda com essa política?
Haddad:
O Ideb é a expressão do nosso pensamento sobre o assunto. Ele combina proficiência nas provas tradicionais com indicadores de fluxo. A aprovação automática com queda de proficiência faz cair o Ideb. A repetência com melhoria de qualidade de proficiência faz cair também. O Ideb combina duas políticas desejáveis: a melhoria da proficiência das crianças nas disciplinas básicas de leitura e cálculo e o fluxo. O componente-chave, na minha opinião, é avançarmos para a educação em tempo integral, sobretudo para que aulas de recuperação possam ser oferecidas aos alunos que estão em risco de defasagem, antes que ela ocorra. Temos de resgatar esse conceito da recuperação durante o ano letivo.

iG: Melhorar a qualidade da educação também depende dos professores. Na sua opinião, há falha na formação dos professores e deveria criar uma carreira federal para eles?
Haddad:
O que está previsto no plano nacional de formação dos professores, que está quase concluído é: formação inicial gratuita, mesmo em instituições privadas com o Fies; bolsas de iniciação à docência, piso nacional do magistério. Sem salário convidativo, dificilmente a juventude olha com interesse para qualquer carreira. Isso está em curso. Falta completar a política com dois filtros. O primeiro é uma nota mínima no Enem para ingresso nos cursos de licenciatura. É óbvio que quem não aprendeu durante a educação básica dificilmente vai conseguir ensinar. A segunda coisa é a prova nacional para ingresso na carreira docente, prevista para este ano. No caso do Enem, falta uma última votação no plenário da Câmara, que deve ocorrer ainda este semestre. Os estudos sobre essa nota mínima estão sendo feitos pelo Inep, ainda não sabemos qual seria. Existem propostas de lei no Congresso para estabelecer diretrizes nacionais de carreira, mas a carreira em si é um assunto local.

    Leia tudo sobre: EnemHaddadministério da educação

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG