Para ex-alunos, escola pública preservou-se até no que não devia

Pessoas que estudaram nos anos 70, 80 e 90 encontraram antiga escola em condições melhores do que esperavam, mas faltou inovação

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 29/06/2011 07:00

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O convite do iG a ex-alunos do colégio estadual Ministro Costa Manso, em São Paulo, foi aceito com muita curiosidade. A proposta era que três gerações diferentes, de formados nos anos 1970, 1980 e 1990, fossem a salas de aula, bibliotecas, quadras, diretoria, pátio e o que mais a instituição tivesse para mostrar e respondessem o que mudou desde a época em que estavam lá.

Os depoimentos ajudam a ilustrar a trajetória do ensino público nas últimas décadas. A conclusão é de que a situação não é nem tão boa como gostariam, nem tão ruim quanto esperavam. “Recomendo a experiência”, comentou o engenheiro Carlos Raul Andrade Caldas, que frequentou as salas de aula da instituição entre 1966 e 1972.

Também fizeram o passeio a empresária Rossana Scuderi, de 44 anos, e o jornalista esportivo Everaldo Marques, de 32. Uma das mudanças percebe-se pelo tempo que os dois últimos frequentaram a instituição. Ela entrou em 1985 e saiu em 1987. Ele foi de 1994 a 1996. A divisão entre primário, ginásio e colegial, que começou no fim dos anos 70, fragmentou também a vida escolar que passou a ser em duas ou três instituições diferentes.

Fundada em 1957 e localizada no já promissor bairro paulistano Itaim Bibi, a Costa Manso foi uma das que se encarregou da última etapa, que era a mais nobre: até os anos 1980, só 14% das pessoas tinham acesso ao atual ensino médio.

Veja mais imagens do antes e depois da escola Costa Manso

Da falta à sobra de vaga

Os três convidados tiveram de disputar uma vaga na escola em sua época de estudante. Para Carlos, esta é a lembrança mais remota da instituição. “Não fui admitido de primeira e voltava todo dia com minha mãe para ver se a lista de espera andou”, conta. Rossana foi bem na prova e passou direto. A família dela tinha tradição ali, como comprovou ao encontrar a tia em uma das fotos mais antigas, da turma de 1962.

Já nos tempos de Everaldo, o critério de seleção havia mudado para ordem de chegada. O jornalista pegou fila para estudar. “Lembro de passar a noite acampado em frente ao portão com um amigo e as famílias”, conta. Ainda assim, ele ficou surpreso ao saber que atualmente a maior parte dos alunos não mora no bairro. Segundo ele, já havia uma migração da elite para a escola particular, mas a Costa Manso ainda atendia a vizinhança: ele próprio morava no final da mesma rua, onde o pai era zelador.

A atual diretora, Oneida Toniol Fioriti, que assumiu em 2004, conta que hoje as famílias do bairro matriculam os filhos em escolas particulares e as turmas são todas formadas por pessoas de outras regiões da cidade. “Tenho muitos alunos de Parelheiros (extremo sul da cidade), por exemplo.”
 

 

Estrutura física

A mudança no perfil dos estudantes foi a mais marcante para Rossana. Embora tenha encontrado quase tudo igual como havia deixado – móveis de madeira maciça, a parede de troféus esportivos, o pátio, a mesma disposição das estantes na biblioteca e até as pinturas de parede feita por alunos e professores durante os anos 1970 e restauradas recentemente – ela achou a “paisagem” diferente. “Vejo uma mudança brutal no público, são outros alunos e outra escola.”

“Vejo uma mudança brutal no público, são outros alunos e outra escola".”

Para Carlos, desde a década de 70 a estrutura física teve modificações um pouco maiores. As carteiras embutidas foram substituídas e os uniformes completos abolidos. No entanto, o que mais lhe chamou atenção foram as grades. Barras de ferro cercam a escola e são usadas também do lado de dentro para separar alas e reforçar a porta da sala de audiovisual. “Já tinha visto a fachada e me intimidado, mas entendi. Agora, dentro da escola é difícil de aceitar.”

O mais jovem do grupo também notou diferenças. A sala em que estudou no primeiro ano se tornou ambiente de formação de professores. “A lousa ficava aqui”, disse, apontando para os armários que agora estão lotados de material didático. Também gostou de saber que a quadra, que era esquecida em dias de chuva, agora é coberta.

Ensino

Nos dias de visita, estavam espalhados em uma sala exemplares de livros para os professores elegerem os que vão usar em 2012. As obras serão enviadas de graça pelo governo federal a todos os estudantes, o que foi uma novidade para os três. “A gente comprava tudo”, lembrou Rossana, enquanto Carlos notava que alguns deles eram de inglês e outros de espanhol. “No meu tempo a escola ensinava inglês e francês”, contou, lembrando que aprendeu o suficiente para se fazer entender 20 anos depois, quando conheceu a França. Já Rossana e Everaldo só tinham inglês.

O jornalista também ficou impressionado com o interesse de um grupo de alunos que produz uma revista interna e aproveitou sua presença na escola para entrevistá-lo, assim como com relatos da diretora de que eles estão acostumados a ouvir palestras e fazer cursos externos de idioma bancados por uma parceria privada. “Até onde pude perceber, existe uma tentativa de busca da qualidade.”

“Pelo que vi, acho que a educação seria melhor do que a que eu tive".”

 Ao final, os três tiveram a mesma reação. Acenavam a cabeça positivamente, felizes pela conservação, mas sem grande entusiasmo. Concluíram que a escola está bem, mas não o suficiente. Carlos, cuja filha hoje com 29 anos estudou em instituição particular, diz que não a colocaria em uma pública, Rossana, que tem um menino de 4 anos, também não pretende fazê-lo. Os dois reclamam da falta de atualização para as necessidades da vida moderna. “Hoje todo mundo passa o dia no computador, as escolas particulares estão adotando tablets e as crianças não podem mais ficar com giz e lousa, como no meu tempo”, resume o engenheiro.

Everaldo, que ainda não tem filhos, ficou na dúvida. “Pelo que vi, acho que a educação seria melhor do que a que eu tive".

<span>Escola estadual Ministro Costa Manso, uma das mais tradicionais da cidade de São Paulo, foi fundada em 1957</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>O engenheiro Carlos Caldas, de 56 anos, e a empresária Rossana Scuderi, de 44 anos, que estudaram lá, respectivamente nos anos 1970 e 1980</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>O jornalista esportiva, Everaldo Marques, de 32 anos, estudou na mesma escola nos anos 1990</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>Escola Costa Manso atendia população do bairro Itaim Bibi até os anos 80, mas agora recebe alunos de outras regiões</span> - <strong>Foto: Reprodução</strong> <span>Ao ver fotos antigas, Rossana encontra a tia na turma de 1962</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>Everaldo revê seu histórico escolar guardado no "arquivo morto": boas notas</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>Painel pintado por um ex-professor no final dos anos 1970 permanece intacto</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>As grades dentro e fora da escola incomodaram o engenheiro, que não as via em sua época</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>Everaldo gostou de saber que a quadra está coberta, mas lamentou o aro de basquete quebrado</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>Biblioteca por onde os três passaram continua praticamente a mesma</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>Meninas usavam uniforme específico para fazer educação física na década de 70</span> - <strong>Foto: Reprodução</strong> <span>Além de ser cercada, escola tem também grades que dividem áreas internas</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong> <span>Ex-alunos se surpreenderam com a conservação da escola Costa Manso</span> - <strong>Foto: Amana Salles/Fotoarena</strong>

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19 Comentários |

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  • Carmen Lucia Bargança | 30/06/2011 10:21

    Estudei no Instituto de Educação "Prof. Alberto Conte" de 1958 a 1964: uma experiência única e inesquecível. Mas, para entender a qualidade do ensino público na época é preciso contextualizar historicamente. Naquele período, havia SIM uma política pública de qualidade para a Educação. O "Convênio Escolar" construiu prédios escolares alinhados à pedagogia de Anísio Teixeira visando atender à população das regiões periféricas da cidade e não, às elites, como quer fazer acreditar o discurso demagógico.. \nO prédio, onde estudei, projetado por Tibau ( o mesmo arquiteto que projetou o Colégio Santa Cruz, o Planetário e teatros como o Paulo Eiró entre outros) era uma obra arquitetônica fantástica. Era, porque foi totalmente desconfigurado, por políticas improvisadoras. \nAssim, pensadores, gestores públicos, e educadores, naquele momento, tiveram visão estratégica e sistêmica e trabalharam em sinergia orientados por um intuito genuino, um propósito superior e uma visão de futuro para jovens e crianças paulistanas. \nEssa competência é tudo o que falta atualmente...

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  • Marciano souza | 29/06/2011 21:48

    Também sou ex aluno do costa manso e já sentia isso quando fui lá dar aula em 2008.\nQuando aluno, a tarde iamos na anne frank fazer pesquisas, iamos no cinema, ou na casa de alguém, todos moravam perto, as famílias se conheciam, os pais se falavam.\nHoje, cada aluno é um aluno, só se conhecem na escola e fora dela moram tão longe, que é difícil manter a amizade.

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  • Mauro | 29/06/2011 21:27

    Bom , acho que as escolas públicas de um modo geral vai de mal a pior, porque até os anos 90 preconizava-se ensino recíproco. Os alunos de hoje fingem que querem estudar e os professôres\ntambém adotam o mesmo.Não há interesses de ambas as partes, está uma avacalhação geral.\nOs professôres desestimulados por falta de salários compatíveis, com seu sacardócio, e os\nalunos sem estrutura no âmbito familiar, sócio econômico, não estão nem um pouco preocupados\nem absorver o pouco de aulas ministradas. Falta na rede pública bons professôres para demanda.\nTem escolas que findando o l.semestre nem tiveram avaliações de algumas disciplinas.\nTempos modernos, são êsses, que desmotivam tanto os professôres? Lógico eles são agredidos\npor alunos que mal os respeitam em sala de aula, agressão de toda sorte, entre alunos com alunos,e professôres, o que é isso? A escola pública parece-me um campo de guerra, ou concentração.Perdeu-se o respeito mútuo, com isso a decadência do ensino público.\nVai melhorar!!

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  • alexandre | 29/06/2011 18:46

    Bem, sou professor da rede pública e particular no RJ e vivo os dois lados. Posso falar por experiência própria que são estruturas e modos de trabalhar diferentes, pela estrutura, pela remuneração e pela participação dos pais no ensino dos seus filhos. Não podemos esquecer que o que está aí é o resultados da política implantada pelos representantes escolhidos pela sociedade. Se não sabe escolher, não pode reclamar. Enquanto o professor tiver que trabalhar em 05 escolas para se sustentar, acho que não ocorrerá mudanças significativas no futuro deste país. Basta ver outros países que investiram em educação e no educador....

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  • Cristina Vitória | 29/06/2011 17:47

    Não adianta , nesta altura, indicar culpados. Não só a escola pública, mas todos os serviços públicos neste país precisam de reformas e profissionais comprometidos com o que fazem.\nO que podemos e devemos fazer para mudar é votarmos melhor, cobrar nossos direitos e cumprir com responsabilidade e seriedade as nossas obrigações, a começar pela educação de base - a familiar.

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  • analucia giongo bresciani | 29/06/2011 17:44

    Estudei no Costa Manso entre 1966 e 1969, cursando o curso Clássico. Meus professores eram todos da USP, nunca aprendi tanto e com tanta qualidade quanto nesta época, saída de um colégio particular mediano, penei para me sair bem nesta escola. Entrei na Faculdade de Direito da Usp facilmente. O diretor da época era o professor Athos. Professor Maurice Moureau de francês, Dona Julieta de português, prof. Clóvis de inglês, e a fantastica Dona Mirtes de história, jamais me esquecerei desta escola.

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  • lelenux | 29/06/2011 17:29

    Ig deve ser ruim num ter boas noticias...

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  • Ju | 29/06/2011 16:34

    Infelizmente o ensino nas escolas públicas, está de baixa qualidade. Não é culpa do cidadão, nem classe média ou das pessoas de baixa renda. É culpa dos anos de governo em que as únicas preocupações são dinheiro no bolso.\nÉ evidente de que as escolas particulares são melhores, os professores são mais encorajados a trabalhar devido ao salário, não culpem os professores, pois com o salário que ganham não irão ter motivo algum para querer trabalhar.\nA educação é obrigação do governo e esta na Constiruição Federal no artigo 6º como direito social.\nEntra governo e sai governo, e está sempre a mesma coisa, infelizmente não há mais em quem votar e confiar. Uma vergonha e uma grande preocupação em relação aos anos que estão por vir!\nAcorda BRASIL!

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  • Emerson | 29/06/2011 16:29

    Na verdade a Escola pública começou ser destruida após o golpe militar de 64. Somente os melhores estudavam nas escolas públicas, porque eles tinham que provar o seu valor antes de entrar, nos testes de admissão, ensinava-se Latin, Frances, Calculo Diferencial Intergral para os alunos do científico.Hoje a Escola pública nao passa de uma covil de bandidos.E os poucos bons alunos das escolas públicas que tentam estudar são aterrorizados por bandidos.Porém o cumulo do absurdo e juízes mandarem bandidos, os tais liberade assistida. "Menores" que cometeram os mais diversos crimes para a escola pública.Porém eles não colocam seusfilhos para estudar no mesmo local.Pois pagam boas escolas particulares para seus filhos com o nosso dinheiro.Essa destruição premeditada da escola públicas esta deixando feridas incuráveis na socieade brasileira.Sem falar no desvio de verbas das escolas públicas por políticos etc. E agora o último ataque na educação esta ocorrendo na destuição das universidades públicas.Esse país se continuar da mesma forma estará condenado assim como todos nos.

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  • Josie Bambirra | 29/06/2011 16:29

    Infelizmente, passamos por um cenário triste atualmente na educação do nosso país. Tenho 32 anos, sou professora em Minas Gerais e posso dizer em letras garrafais O ENSINO VAI DE MAL A PIOR. A escola pública hoje atende praticamente a parcela carente da sociedade, se transformando em depósito de crianças cujos pais saem para trabalhar e lá encontram um lugar para deixar seus filhos. Raramente esses mesmos pais aparecem para saber do andamento dos seus. Os governos se negam a pagar o necessário a nós professores, falam que enviam recursos tecnológicos mas não existem profissionais para trabalhar com os alunos tais recursos, agressões físicas e verbais são recorrentes, armas, tráfico de drogas, enfim leitor tudo o que você imaginar acontece dentro de uma escola hoje. Os docentes se dividem em dois grupos: aqueles que estão na profissão por amor como a idiota que vos escreve ou aqueles que não conseguiram direcionar-se em outro seguimento profissional e a falta de professores em determinadas disciplinas permitiu-lhe "pegar" umas aulas. Agradeço a todos pela leitura. O link que se segue é a realidade da educação do país nele vos fala Amanda Gurgel, professora no Rio Grande do Norte. http://www.youtube.com/watch?v=yFkt0O7lceA

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