"Ninguém quer que a USP se abra rápido e perca a excelência"

Em entrevista ao iG, reitor da USP diz que é preciso fazer uma pausa no crescimento de vagas para modernizar os cursos atuais

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 21/09/2010 16:27

  • Mudar o tamanho da letra:
  • A+
  • A-

Cursos superiores que dêem mais "visão de mundo" aos alunos a partir da relação entre diferentes áreas é a meta do reitor da Universidade de São Paulo (USP), João Grandino Rodas, com as mudanças aprovadas pelo Conselho Universitário para revisão de currículos da instituição. As alterações já estão sendo analisadas pelas faculdades, inclusive com apoio orçamentário das pró-reitorias, e as primeiras modificações já devem ser percebidas em um ano ou um ano e meio, segundo o reitor.

Foto: AE

João Grandino Rodas, reitor da USP (arquivo iG)

Para o vestibular de 2011, não há alterações, mas os aprovados podem encontrar grades curriculares mais flexíveis e possibilidade de fazer aula em áreas diferentes. Para ele, antes de aumentar o número de vagas é necessário atualizar a infraestrutura. "Temos que fazer uma pausa no crescimento de pessoas para prover o que for necessário para modernizar e garantir o melhor para a comunidade que já existe. Não se faz mais sala de aula com lousa e giz", diz.

iG: Quais cursos precisam ser revistos com mais urgência. Algum poderá ser encerrado?
Rodas: Eles deverão ser modernizados, mas quem vai pensar na solução para cada curso é o gestor da unidade. Eu não gostaria de citar nenhum deles porque antes todos terão tempo de se avaliar, o que eles, aliás, fazem sempre, mas agora com esta nova diretriz de modernização e integração. A tônica é a seguinte: cada unidade deve se preocupar em rever seus cursos, sua infraestrutura para melhorar o que já existe.

iG: A infraestrutura atual não é suficiente?
Rodas: Tivemos um aumento de vagas nos últimos oito anos, o que é bom, mas também precisa ter mais biblioteca, mais professor, mais equipamento. Os alunos do curso noturno têm direito ao acesso a administração, bibliotecas e é nosso dever garanti-lo. Temos que fazer uma pausa no crescimento de pessoas para prover o que for necessário para modernizar e garantir o melhor para a comunidade que já existe. Hoje, a demanda por infraestrutura é muito maior do que há alguns anos, não se faz mais sala com lousa e giz. Precisa que seja sustentável. Mais alunos, mais funcionários, mais professores, também significa mais conflitos. Você vai criar uma insatisfação maior, vai aumentar antigos problemas. Não podemos – pura e simplesmente – aumentar o público, temos que dar o que eles precisam, senão as insatisfações crescem. E com razão.

iG: As frequentes greves enfrentadas pela universidade têm relação com este crescimento?
Rodas: Essas mudanças foram pensadas em prol da manutenção da excelência. Todos querem a USP pela referência que é. Ninguém quer que ela se abra rápido demais e perca isso. Claro que, no momento em que resolvemos problemas, também diminuímos a possibilidade de greve, o que é bom. Muita gente fala em crescer sempre, mas a USP quer garantir a qualidade. Não estou falando só do aspecto material, é necessário estudar também se um curso, por mais antigo e tradicional que seja, precisa se atualizar, se abrir para novas demandas. Foi isso que o conselho universitário colocou como diretriz.

iG: Quando as mudanças ocorrerão?
Rodas: Elas já está ocorrendo. As pró-reitorias e a reitoria estão dando ferramentas, inclusive orçamentárias, para que as unidades façam estudos com base em tudo isso e comecem já as mudanças.

iG: Pode haver mudanças no Vestibular 2011?
Rodas: Não, para o vestibular não muda nada. O que pode mudar é a grade curricular, aumentar a flexibilização em algum curso em que já se verificar uma oportunidade, mas ninguém quer uma mudança completa.

iG: O que significa maior flexibilização da grade curricular?
Rodas: As unidades é que proporão suas soluções, existem órgãos para isso que não são meramente figurativos. Mas uma possibilidade é que um aluno de uma faculdade possa fazer parte de seus créditos em outra, o que pode ser feito de um ano para o outro. Basta que a unidade resolva que um percentual "x" de seus créditos possa ser preenchido em outras áreas. Também podem ser feitos ciclos básicos, mas esta é uma questão complexa. O importante é que se pense isso. Os problemas que nós precisamos resolver no mundo não são só financeiros, ou só jurídicos, ou só filosóficos, a formação precisa dar visão de mundo.

iG: Existe um prazo para as faculdades se adequarem?
Rodas: Em uma universidade tão grande, certas unidades vão tomar a dianteira e outras, não. Mas existe uma concorrência no bom sentido que fará com que as outras também se modernizem. Acredito que em um ano ou um ano e meio as principais mudanças apareçam.

iG: O que ocorrerá com os cursos que não se adequarem?
Rodas: Todos precisam se adequar, nós não vivemos em um Apartheid, que dizia que era para cada um ter o desenvolvimento que conseguisse em separado, a universidade é uma congregação. Pertencer significa inserção e participação é o sentido universal da universidade, portanto todos devem se adequar, isso pode inclusive ter reflexos nas verbas suplementares destinadas as áreas.

iG: Quem se adequar pode receber mais dinheiro?
Rodas: As unidades têm seus orçamentos, mas existem também as verbas suplementares para projetos específicos. Normalmente distribuímos o dinheiro dentro de várias regras e uma certamente é satisfazer as diretrizes. A preferência é daquelas que já fizeram a sua lição de casa. Não é segredo que quem quiser se intitular a fazer projetos, precisa se modernizar.

    Notícias Relacionadas


    1 Comentários |

    Comente
    • Eudes | 22/09/2010 03:57

      "Não se faz mais sala com lousa e giz." Isso é só frase de efeito para a mídia.
      É óbvio que a parte experimental acompanha, mas a abordagem teórica se fazer em um quadro negro não há NADA de errado nisso.
      O prof quer usar uma apresentação mais "moderna"? É uma opção. Agora, se ele tiver de produzir tudo de forma inovadora, utilizando os recursos mais modernos, quem vai pagar esse trabalho extra só p/ se dizer que o ensino está modernizado? Duvido que o governo o faça!
      No Brasil, a mania de grandeza tem sido comum, mas a valorização do profissional, isso, não tem necessidade.
      Cuidado com "mudanças" meio que impostas pelo governo, hein? Vão encontrar algum "pseudo-especialista" p/ falar abobrinhas, como fazem com os ensinos médio e fundamental tentando avacalhar com os conteúdos disciplinares.

      Responder comentário | Denunciar comentário

    Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!




    *Campos obrigatórios

    Seu comentário passará por moderação antes de ser publicado


    Ver de novo