Não basta ampliar jornada escolar sem melhorar o uso do tempo

Tema de congresso internacional em Brasília nesta quinta, ampliação da carga horária escolar foi defendida pelo ministro Haddad

Priscilla Borges, iG Brasília |

Aumentar o tempo que as crianças e os adolescentes passam nas escolas é uma tendência no mundo. A afirmação é do professor Sergio Martinic, da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Chile. Estudioso do fenômeno em diferentes países, Martinic defende que as aulas sejam estendidas para cerca de cinco ou seis horas em todas as escolas, mas faz um alerta: o uso qualificado desse tempo é um grande desafio.

Dois dias depois de o ministro da Educação, Fernando Haddad, ter afirmado que o MEC estuda a ampliação da carga horária anual dos alunos no Brasil , Martinic lembrou que não há consenso sobre parâmetros ideais para esse movimento. Segundo ele, os sistemas têm oferecido de 800 horas e, em alguns casos, como na Argentina, chegando a 1,2 mil horas. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) os alunos têm entre 180 e 200 dias letivos.

O especialista participou nesta quinta-feira do Congresso Internacional “Educação: uma agenda urgente”, em Brasília. Martinic falou sobre a necessidade de se ampliar as horas de estudo oferecidas nas escolas e dos desafios que a ampliação da jornada escolar e o aumento de escolas integrais significam para os sistemas de ensino.

“O importante não é o tempo físico, objetivo, racional e administrativo. Já estamos em outra fase de discussão, que é o tempo relativo. Precisamos analisar de forma qualitativa como essas horas são utilizadas na escola. Essa deve ser a preocupação. As políticas precisam ser flexíveis e vincular essa extensão às realidades locais das crianças”, pondera o professor. Martinic ressaltou que a Finlândia possui carga horária escolar menor e bom desempenho educacional.

Na opinião do professor, as crianças e os adolescentes precisam estar mais expostos a espaços de aprendizagem que incluam atividades culturais, artísticas, esportivas e sociais. “Mas é preciso garantir aos estudantes descanso, tempo com a família e interação com a comunidade em que vive”, diz. Ele reitera ainda que as horas diárias de trabalho nas escolas não são gastas com aprendizagem. “Se perde muito tempo com outras coisas também”, comenta.

Vicent Defourny, representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, lembrou que não basta deixar o estudante mais tempo na escola. Para ele, é preciso repensar a configuração da escola e construir uma proposta pedagógica integrada à comunidade em que ela está inserida.

“Não basta ter aulas chatas de manhã e capoeira à tarde. Precisamos educar de forma integral utilizando esse tempo expandido na escola”, completou Priscila Cruz, diretora-executiva do Movimento Todos pela Educação.

Desafios dos gestores

Sem surpresas, as dificuldades apontadas por gestores e especialistas para tornar esse tipo de projeto uma realidade em todas ou na maioria das escolas brasileiras são as mesmas já enfrentadas atualmente por elas. Proposta curricular de qualidade, formação de professores, investimentos, infraestrutura escolar com quadras esportivas e equipamentos são desafios que precisam ser vencidos para colocar esse tipo de proposta em prática. “Temos de lembrar que há uma dificuldade de gestão do tempo escolar. O tempo já garantido não é respeitado e isso deve ser considerado na elaboração de projetos”, defendeu Anna Helena Altenfelder, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Danilo de Melo Souza, secretário estadual de Educação do Tocantins, ressaltou que, muitas vezes, as crianças brasileiras passam mais tempo se locomovendo para a escola do que dentro dela. “Os sistemas são muito irracionais e as escolas e os professores distribuem mal o tempo de aulas. É importante pensar no contexto dessas crianças, tão comprometidos com ações irracionais, para não nos prendermos aos formalismos da lei”, afirmou.

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