Exclusão da educação começa nos primeiros anos

Resultados de prova aplicada no início da vida escolar mostram que desempenho da rede particular é superior logo nos primeiros anos

Marina Morena Costa, iG São Paulo | 25/08/2011 12:17 - Atualizada às 17:37

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Pela primeira vez o Brasil aplicou uma avaliação para medir a qualidade da alfabetização dos estudantes e diagnosticar problemas logo no início da vida escolar. Os resultados são alarmantes e mostram que as desigualdades entre as redes pública e privada começam desde cedo.

Em Matemática, apenas 32,6% dos alunos de escolas públicas alcançaram o resultado esperado, enquanto 74,3% atingiram os objetivos desejados na rede privada. A diferença se repete em Português, que teve provas de interpretação de texto e uma redação. Em Leitura, 79% dos estudantes de escolas particulares aprenderam o que era esperado, enquanto 48,6% tiveram o desempenho ideal na rede pública. Na escrita, 82,4% das crianças que estudam em escolas particulares estão no nível desejado; já nas públicas, 43,9% alcançaram o mesmo resultado.

A prova batizada de ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização) foi aplicada pelo movimento Todos Pela Educação, que tem como uma das metas que toda criança seja alfabetizada até os 8 anos de idade. Para Priscila Cruz, diretora-executiva da entidade, a diferença entre as redes e entre as regiões tende a se ampliar ao longo da vida escolar, por isso o diagnóstico precoce das defasagens é importante.

O exame foi aplicado a 6 mil alunos que concluíram o 3º ano (2ª série) do ensino fundamental em 250 escolas públicas e particulares localizadas em todas as capitais do País e no Distrito Federal. "Mesmo as melhores notas não são boas, pois 100% das crianças deveriam ter atingido o mínimo esperado", reforça Priscila.

A avaliação seguiu a escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e teve como média 175 pontos – aprendizado ideal para a etapa da educação avaliada. Em Leitura, era esperado que os alunos conseguissem identificar temas de uma narrativa, localizassem informações explícitas, identificassem características de personagens e percebessem relações de causa e efeito, entre outras tarefas. Em Matemática, atingir no mínimo 175 pontos significa que os alunos têm, por exemplo, domínio da adição e subtração e conseguem resolver problemas simples.

Na redação, foram avaliadas três competências: adequação ao tema e ao gênero; coesão e coerência e registro (grafia das palavras, adequação às normas gramaticais, segmentação de palavras e pontuação). Para isso, as crianças foram solicitadas a fazer uma carta com no máximo 10 linhas. Em uma escala que vai de 0 a 100 pontos, o desempenho esperado dos alunos avaliados era de pelo menos 75 pontos - a medida foi criada especialmente para a Prova ABC, pois o Saeb não valia a escrita.

Cada aluno respondeu também a 20 questões de múltipla escolha de Leitura ou de Matemática – as crianças tiveram que responder a prova de apenas uma das disciplinas e todas fizeram a redação. A avaliação é uma parceria do movimento Todos Pela Educação com o Instituto Paulo Montenegro /IBOPE, a Fundação Cesgranrio e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

 

Brasil - Leitura    
Rede Pontuação (média 175) Alunos com desempenho adequado
 Pública  175,8 48,6%
 Particular  216,7 79,0%
 Total  185,8 56,1%
Brasil - Matemática    
Rede Pontuação (média 175) Alunos com desempenho adequado
 Pública 158,0  32,6%
 Particular  211,2  74,3%
 Total  171,1  42,8%
Brasil - Escrita    
Rede Pontuação (média 75) Alunos com desempenho adequado
 Pública  62,3 43,9%
 Particular  86,2 82,4%
 Total  68,1 53,4%
Fonte: Prova ABC

 

Regiões

Na média nacional do Brasil, a maioria dos estudantes (57,2%) não aprendeu o que era esperado em Matemática, ou seja, nem a metade dos alunos (42,8%) consegue fazer operações simples como contas de adição e subtração com dois algarismos. Em Leitura, 56,1% atingiram o desempenho ideal e na Escrita 53,4% apresentaram as competências mínimas exigidas.

A prova também registrou desigualdades entre as regiões brasileiras. O Sul, o Sudeste e o Centro ficaram acima da média nacional e tiveram percentuais de alunos com desempenho dentro do esperado superiores a 60% em português e próximos de 50% em matemática.

Já o Norte e o Nordeste ficaram abaixo da média e tiveram cerca de 43% dos alunos com nível adequado em Português. Em Matemática o desempenho foi pior: no Nordeste, 32,4% dos estudantes aprenderam o esperado e, no Norte, apenas 28,3% estão no nível adequado.

“Estes dados apontam que os baixos desempenhos em matemática apresentados pelos alunos brasileiros ao final do Ensino Fundamental, e posteriormente do Ensino Médio, começam já a serem traçados nos primeiros anos da vida escolar. Fato que nos coloca diante da necessidade de promover políticas públicas de incentivo a aprendizagem de matemática desde a alfabetização”, afirma Ruben Klein, consultor da Cesgranrio.

Desigualdades

Comparando a melhor média obtida em Matemática, na rede particular do Sul (224,9), com a pior, registrada na rede pública do Norte (145,4) há uma diferença de 79 pontos. Na porcentagem de alunos com aprendizagem dentro do esperado, a distância é de 64 pontos percentuais.

Para os responsáveis pela pesquisa, as diferenças socio-econômicas entre as redes (particular e pública) e entre as regiões brasileiras são a causa principal da desigualdade de desempenho apontada pela Prova ABC. "Isso explica, mas não justifica. Essa diferença social precisa ser superada, com mais recursos, mais incentivos e mais políticas públicas", diz Priscila.

Veja o desempenho das regiões em Matemática:

Norte    
Rede Pontuação (média 175) Alunos com desempenho adequado
 Pública  145,4 21,9%
 Particular  196,7 67,7%
 Total  152,6 28,3%
Nordeste    
Rede Pontuação (média 175) Alunos com desempenho adequado
 Pública 148,0  25,2%
 Particular  186,9  54,7%
 Total  158,2  32,4%
Sudeste    
Rede Pontuação (média 175) Alunos com desempenho adequado
 Pública  161,9 35,6%
 Particular  224,2 80,6%
 Total  179,1 47,9%
Sul    
Rede Pontuação (média 175) Alunos com desempenho adequado
 Pública  171,3 44,5%
 Particular  224,9 86,3%
 Total  185,6 55,7%
Centro-Oeste    
Rede Pontuação (média 175) Alunos com desempenho adequado
 Pública  167,1 40,6%
 Particular  204,2 78,9%
 Total  176,5 50,3%
Fonte: Prova ABC

 

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27 Comentários |

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  • Arlene Caldas | 25/08/2011 23:30

    Enquanto houver progressão continuada e os alunos forem aprovados nas séries inicias sem serem totalmente alfabetizados o nível de ensino caminhará para pior. E não é culpa de professores, mas sim de um sistema educacional imposto, em que os professores são obrigados\n a aceitar como método de ensino . A população é que deve estar atento e não permitir que seus filhos sejam promovidos sem ter aprendido nada. Quanto menos souber essa nova geração forma-se então mão de obra barata. E o interesse disso é de quem?

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  • antonio | 25/08/2011 22:56

    Há muito tempo a educacão necessita de melhorias, tanto de metodologia, como de estrutura fisica e recompensa ao professor. Continuando como está é muito bom para a classe dominante, pois quanto mais ignorante o povo, melhor pode ser manipulado.\nAssim como está o professor finge que ensina, o aluno finge que aprende e o País finge que se desenvolve. No final somos todos enganados.

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  • sandra santos | 25/08/2011 22:27

    A aprovação automática é a pior coisa que já fizeram. A meninada não tem mais medo de "repetir¨", e não quer se esforçar para aprender (aprender requer esforço sim). Os professores ficam sem armas para exigir dedicação dos alunos. E grande parte dos alunos chega no colegial sem saber tabuada, lendo e escrevendo com dificuldade. Onde vamos parar?

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  • Vera | 25/08/2011 22:11

    nenhuma politica publica substitui o estudo, fazer tarefas em casa, prestar atenção na aula, ninguém aprende sem esforço, os professores da rede estadual ao qual eu pertenço, tem que baixar o nivel da aula, quase a zero porque os alunos não querem fazer nada, para abrir o caderno e uma luta, não trazem os livros, não fazem os trabalhos, vão para a escola para fazer quealquer coisa menos estudar, seus herois são os traficantes ou DJ que não estudaram, ja na escola particular tem a familia por tras e os objetivos dos alunos são diferentes, na escola publica os cinco alunos bons por classe de 35 sofrem bulling por estudar....\n

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  • SUELI | 25/08/2011 21:34

    Su, concordo com vc que e puro preconceito do colega Burnie. Que bom que está se vendo a necessidade de avaliar as nossas crianças e assim possa melhorar essas diferenças no ensino.\nUm abraço.

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  • Paulo | 25/08/2011 21:28

    Gostei dos comentários e como alguns, também votaria na Dilma,alckimim,Lula e etc..;penso porém que ,se os políticos ainda erram na implantação e condução de uma da filosofia de educação escolar neste país é porque nossa participação como pais,filhos,alunos e ex-alunos,professores e toda a sociedade brasileira nos rendemos à velha "tese " de que o governo tem que se responsabilizar por tudo,até pela nossa falta de respeito por nós mesmos. Não podemos esquecer que a aprovação dos alunos do primeiro grau a qualquer preço foi grandemente aceita pelo professorado de todo o mpaís e pela população(vide comentários da época). Estamos pagando o preço disto na educação e de outros ,como na Justiça,Tributação etc..

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  • diana | 25/08/2011 20:52

    Pois é, foram mudar o que era perfeito em matéria de Ensino, modernizar e ficou tudo uma porcaria. Os alunos não se interessam mais por nada, não aprendem nada se não tiver uma internet por perto, os professores também não estão mais interessados, por conta dos baixos Salários e pela falta de Educação ds alunos. olocaram um Ministro que não entede nada de Educação. Faculdades sem expressão nenhuma. Educação Escolar foi muito bom ha 40 anos atrás, depois disso tudo virou uma bagunça. Isso é Brasil. Não se pode exigir muito se o prórpio Povo vota em quem não esta nem ai pra nada a não ser encher seu próprio bolso e ser um bom corrupto. Acho que as pessoas não deveriam reclamar nada. O povo tem que mudar se quiser melhorar, se não é disso pra pior. Cada um tem o Governo que merece!!!

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  • Margareth Bispo | 25/08/2011 20:47

    Isso que só foram no 3º ano (antiga 2ª série) e se aplicarem a prova no ensino médio é bem capaz de achar alunos que tbm não sabem nem matemática, nem português, quicá saibam escrever o nome!!!!

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  • Francisco | 25/08/2011 20:02

    É um disperdícios, sabem por que? Não precisava aplicar testes para sabermos que os resultados seriam esses ou piores. Qualquer pessoa, dirigentes, empresários que tenham um pouco de discernimento sabem que o que nossas crianças aprendem hoje não chega nem a 20% do que se aprendia no nosso tempo de escola. Querem um exemplo? No nosso tempo saia-se do ginásio sabendo extrair a raiz quadrada de qualquer número. Hoje isso é peça de museu, a cúbica então, é esqueleto pré-histórico. Hoje em dia tudo é proibido, até mandar criança estudar. Professor passar dever para casa não adianta mesmo, obrigações estão fora do contexto. Vivemos num país de faz de conta onde governos, autoridades, diretores, professores, pais e alunos, já aceitam isso como normalidade, não precisam se preocupar, é só deixar o tempo passar. Mesmo porque e pior para o Brasil, não tem como voltar ao que era antes. País onde grande parcela de seu povo, com tendência a aumentar, não pensa em melhorar com seu próprio sacrifício, é um país onde uma legião de cidadãos, durante a vida ativa vai viver a custa das bolsas e favores do governo e na velhice vão se abrigar as custas do falido INSS mesmo sem terem contribuído. Realmente brasileiro, vida de gado. povo marcado, povo feliz.

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  • e.a.f. | 25/08/2011 19:58

    É alarmante!!! Sou professor rede publica a 20 anos, e a coisa fica cada dia mas complicado..., vou dar exemplo de uma classe uma 5ª serie, ao longo deste ano, eu atinjo de uma classe de 32 alunos, apena 8 que estão com plena proficiência. Os outro não consigo saber o grau de potencialidade, alguns sei, pois foram meus alunos na 4ª e 3ª serie, nas na 5ª serie desconheço, por mais que tento um dialogo, primeiro nunca traz pra escola o mínimo do material que é oferecido pela secretaria do município ( então o material ele tem) nunca realiza em sala de aula produção que necessita deste material, aulas de bate papo ou roda de conversa invertem as falas, aulas lúdicas criam transtorno e diz não vou participar e se retira, ate em sala de vídeo o tempo todo pedido pra deixar as brincadeiras. Lição de casa não sabe que as tem, nunca fazem. E isso acontece com as outras disciplinas começando pelo material que nunca traz. Fico louco e vendo tudo desmoronar, mas me torno sem força para tamanha mudanças, que fazer? Quando a gente “briga” bastante ao invés de reagirem para uma mudança reagem para a raiva. Bola de papel voa, correr pular cutucar e uma constância. E têm uma fala assim ESTOU PRESENTE VIU PROFE. E diz vou passar mesmo pra serei seguinte, falar conscientizar da importância de saber para passar é argumentar no vazio. Eu vejo um caos, e não sei o que fazer uso minhas forças, meu argumentos. Gostaria muito de não precisar pensar como a fala de uma professora em um filme (não me lembro o nome do filme) "SE DE TODOS EU ALUNOS AQUI EU SALVAR UM ESTOU CONTENTE", não não quero morrer pensando que isso basta. Não quero uma bola magica mas uma realidade que fosse o chan chan da mudança...

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