Há uma semana, os alunos do primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual João Octávio dos Santos, no Morro do São Bento, em Santos, receberam uma avaliação de matemática inusitada. O professor Lívio aplicou problemas matemáticos com contextos de atividades ilícitas, como venda de drogas, roubo de carros, assassinato, armas e prostituição. Apesar de os pais de uma aluna terem denunciado o caso à Polícia e do docente ter sido afastado do cargo, o conteúdo não assustou os estudantes.
As questões que perguntavam sobre a quantidade de tiros que uma AK-47 pode dar sem ser recarregada e sobre o lucro da venda de heroína “batizada” com pó de giz não causaram espanto para os alunos entrevistados pela reportagem do iG. “Não vi nada de errado na hora que ele aplicou a prova. Só depois é que virou polêmica”, afirma Luan, de 14 anos. Marcelo, 15, e Kaiq, 14, também afirmam não ter encontrado problemas nas questões. “Achei normal”, declara Marcelo.
Para Talita, de 15 anos, o professor foi mal interpretado. “Ele queria mostrar que o crime não compensa. Acho que ele não tem relação nenhuma com criminosos”, diz a estudante. A colega Alice acredita que o professor queria chamar a atenção da turma. “E ele conseguiu, porque os meninos ficaram bem mais interessados”, conta a aluna de 15 anos.
Silvia Colello, professora doutora da Universidade de São Paulo (USP), avalia que foi o professor de matemática quem mal interpretou o principio de trazer a realidade para a escola. “A prova tem uma ideologia implícita, porque mostra sempre o ponto de vista do bandido. É ele quem lucra, quem vende, quem faz a ação. Não há nenhuma questão educativa, que abra espaço para a discussão, para o debate”, analisa a especialista em Psicologia da Educação.
Silvia avalia que a troca de bolinhas de gude, frutas e figurinhas – objetos costumeiramente usados em problemas matemáticos – por armas e drogas foi uma tentativa mal sucedida de deixar a prova “engraçada” e atrativa aos estudantes.
Em casa, a reação dos pais foi diferente da dos alunos. Quando souberam do teor da prova, muitos ficaram furiosos. “Minha mãe não entendeu o que ele (professor) fez”, diz Jéssica, 15 anos. Raquel da Silva Xavier, mãe de um aluno da 9ª série, achou a prova “um tremendo absurdo”. “A gente tenta com muito custo deixar nossos filhos fora disso e os problemas que ele deu eram todos parte desse mundo do crime”, reclama.
Segundo relatos de estudantes que preferiram não se identificar, o tráfico de drogas é uma realidade presente no cotidiano do bairro. As gírias e expressões utilizadas pelo professor Lívio na prova estão nas rodinhas de estudantes. A escola fica localizada no alto do Morro São Bento, bairro de classe média baixa de Santos. Em frente à instituição, há uma base da Polícia Militar.
Afastamento
Os alunos lamentam o afastamento do professor. A polêmica prova foi aplicada no primeiro dia de aula, 14 de fevereiro. No dia seguinte, Lívio pediu desculpas aos estudantes e disse que não gostaria mais de tocar no assunto. No terceiro dia de aula o docente foi afastado e desde então a turma está sem professor de matemática. A Secretaria de Educação informa que atribuição das aulas de matemática da turma irá acontecer no dia 24. Enquanto isso um professor substituto deve assumir as aulas. Nesta segunda-feira, os estudantes não tiveram aula de matemática, porque outros dois professores faltaram sem aviso. Segundo a Secretaria, a aula de hoje será reposta.
De acordo com os estudantes, a direção da escola não se pronunciou nem explicou o motivo do afastamento do professor. Para Silvia Colello, perde-se uma segunda oportunidade de discutir a criminalidade com os alunos. “A gente paga um preço alto por não debater essas questões. Trazer o conhecimento para o contexto do aluno é importante. Mas ao assumir que o contexto do aluno seja o do bandido, perde-se a oportunidade de educar”, afirma a pesquisadora.
Procurada pela reportagem, a direção da escola afirmou que não pode se pronunciar e que o caso está sob responsabilidade da Coordenadoria de Ensino do Interior da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo.
Em depoimento a Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise), nesta segunda-feira, a diretora da escola alegou que desconhecia o teor da prova de Lívio. De acordo com o delegado responsável pelo caso, Francisco Garrido Fernandes, a diretora afirmou que não conseguiu conversar com o professor, pois logo após a polêmica ele foi afastado do cargo pela Secretaria de Educação e entrou com um pedido de licença médica.
A Dise também irá ouvir o docente, mas segundo Fernandes, Lívio ainda não foi encontrado para receber a intimação de depoimento. A reportagem também não o localizou. O professor poderá responder por apologia do crime.
Veja as questões aplicadas aos alunos do primeiro do ensino médio da Escola Estadual João Octávio dos Santos:
Pelo amor de DEUS como que alguem pode falar que isso é errado,ele apenas quis ensinar mostrando a realidade,isso que é revoluçao,esse metodo de ensino que já vem de decadas e decadas não ensina nada ainda mais em escola publica,agora trazer a realidade pra dentro da escola isso é válido e muito parábens Professor livio,tinhamos que trocar todos os conservadores que se dizem mestres aff.
Responder comentário | Denunciar comentárioTodos os dias a mídia escrita falada e televisionada esbanja reportagens onde esse assunto é tratado de forma normal. O professor apenas colocou questões matemáticas para explicar de forma mais interessante em sala de aula, o que os alunos já vêm em sua sala de estar.
Sr era pra chamar a atenção para a compreenssão da matemática o objetivo foi alcançado.
Hipocrisia em auto grau, deixem pelo menos um professor com dignidade espor sem balelas o que realmente está acontecendo no pais para que os adolecentes não caiam nas mãos de bandidos. Se o governo não tem coragem pelos menos não atrapalhe dizendo que isso não pode!
Responder comentário | Denunciar comentárioNo mínimo algum engraçadinho mandou o tal e-mail zoação com os corintianos e/ ou favelados, e disse pro professor tentar 'fazer valer' ( Você é professor de matemática, aplique esta prova e veja se os alunos respondem essas questões). Mas o engraçadinho esqueceu de avisar que o professor era pra fazer uma espécie de brincadeira com os alunos e não chamar de Prova.
Quase certo que esse alunos não tem internet ou e-mail, se tivessem algum iria dizer pro professor que "Pô essa piada eu recebi por e-mail.
Parabens para a Professora Maria, que fez um retrato perfeito do ensino. Fui professor de matemática por mais de 17 anos e Diretor de Escola por mais de 20 anos numa mesma escola.
Responder comentário | Denunciar comentárioGostaria que as pessoas que se posicionam contra este professor tentassem ministrar uma semana de aula (de que componemnte curricular quisessem) nas condições que temos que tarbalhar atualmente, somado a isto o desinteresse real dos alunos (devido ao próprio sistema) e a realidade deprimente da periferia (drogas, prostituição, assaltos...). O prof contextualizou a infeliz realidade onde esta escola está inserida e acredito que isso não foi "jogado" aos alunos e sim, trabalhado! Já passou da hora da sociedade "acordar"!!!
Responder comentário | Denunciar comentárioAcredito que foi correto o afastamento do professor sim, pois esta forma de ensinar não condiz com a pedagogia em que se deve ensinar. Ser professor é ser ao contrario, disso. Se ele discutisse cada problema e exposse a seus alunos a gravidade do trafico, suas consequencias aí sim até talvez poderia ser bem interpretado, acho que nossos filhos vão pra escola para aprender a ser cidadão criticos, e não aprender mistura de drogas nem como fazer programas. Sou a favor de que ele pague por este ato impensável
Responder comentário | Denunciar comentárioEsta prova de Matemática foi resultado da pressão que os atuais professores sofrem de coordenadores, supervisores e direção. Nos dizem constantemente: professores, os alunos estão desinteressados, suas aulas e avaliações tem que ser "contextualizadas", ligadas ao cotidiano dos seus alunos. Pois então, foi o que este coitado deste professor fez. O cotidiano do Morro de São Bento, infelizmente, como muitos outros locais é o descrito na prova. Ele passou da medida, procurou interessar seus alunos e despertou a ira de pais que parecem ignorar o meio em que vivem ou pensam que, se apenas não falarmos no mal, ele desaparece. Ledo engano. Seria válido terem usado o fato para ampliar a discussão sobre a violência que permeia nossa vida, melhor orientar o mestre (não em capacitações tolas que não preparam o professor para o diário da vida pedagógica) e dar melhores condições materiais para evitar que um professor ainda tenha que passar questões na lousa para que seus alunos copiem e entreguem avaliações (documentos formais) em folhas arrancadas de caderno.
Responder comentário | Denunciar comentárioMuito interessante está reportagem. Banalização do crime é um erro que deve ser repudiado.
Responder comentário | Denunciar comentárioAcho engraçado (como muitas coisas em nosso país) como a nossa sociedade encara determinadas atitudes isoladas com uma visão tão hipócrita. A mídia diariamente coloca "goela abaixo" Big Brother e outros programas que nada acrescentam em nossa vida, tornando-a um verdadeiro teatro, entorpecendo à todos com factoides e pura manipulação, empurrando à todos para esta vala comum que nosso país vive. O "Jesus Cristo" do mês agora será este professor, que com seu salário miserável, tem a missão de lecionar matemática para a rede pública, criando uma ferramenta e/ou forma extraída do cotidiano brasileiro afim de, pelo menos, manter atenção dos alunos (provavelmente mais de 50 na mesma sala) para atingir seu objetivo.
Façam um introspecção à respeito... qualquer canal aberto hoje em dia, passa estas situações criadas pelo professor (e outras muito piores) enquanto você está almoçando e/ou jantando com a sua família...
Quer saber realmente o que o governo está ensinando na escola para o seu filho? Tenha coragem e assista o vídeo do "Kit" contra o preconceito que o MEC criou, "entubando" o dinheiro dos seus impostos... - http://www.youtube.com/watch?v=LPlbWbFtEFU
Finalizo por aqui... ainda creio em uma sociedade justa e perfeita... em ambas...
Obs.: O carnaval está chegando... mas aí não tem problema, né? A sociedade já aceita que seu filho menor de idade assista todo mundo se "roçando" nú...
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