Equador fecha o cerco a universidades particulares

País está reestruturando o sistema educacional desde 2009 e vai anunciar o fechamento de faculdades no mês que vem

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Não há paredes cobertas por trepadeiras na Universidade de Alfredo Perez Guerrero. Tampouco campos de futebol. O câmpus inteiro se encaixa em quatro pequenos edifícios em um modesto bairro residencial de Quito, no Equador. Em frente à entrada principal em uma rua movimentada – entre uma loja de móveis e outra que vende carros e aviões de brinquedo – uma preocupação tem sido constante nas conversas dos alunos que ali se concentram nos intervalos: “O que vamos fazer se o governo fechar a nossa universidade?”

Para o presidente do país Rafael Correa , que ataca as “universidades de garagem”,
as exigências que está impondo às universidades são tardias. "O Equador tem provavelmente as piores universidades da América do Sul", afirmou. Instituições mal qualificadas atendem a um total de 69.500 estudantes e "estão enganando seus alunos porque não têm os elementos mínimos necessários para garantir excelência acadêmica", disse.

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O governo de Correa, um ex-professor de economia, está reestruturando o sistema educacional – que inclui 71 universidades e 621,000 estudantes – de maneira abrangente. Esse esforço começou no final de 2009, quando realizou uma avaliação das universidades do país, classificando-as com notas de A a E.
Neste ano, pela primeira vez, a admissão nas 29 universidades públicas do país que recebem cerca de 70% de todos os alunos será baseada em um teste de aptidão. Este método está destinado a substituir um sistema caótico e muitas vezes injusto em que muitos estudantes entravam nas universidades apenas porque conheciam pessoas que poderiam ajudá-los com a inscrição. Outros ficavam em filas durante horas para conseguir vagas.

Ao contrário do exame SAT realizado nos Estados Unidos (o Enem norte-americano), essa prova irá medir as habilidades básicas de aprendizagem ao invés do conhecimento geral, e o governo espera que isso possa ajudar a aumentar o acesso à universidade entre os alunos mais pobres, incluindo os grupos indígenas. Uma nova Constituição, aprovada em 2008, eliminou a taxa de matrícula nas universidades públicas, um ato que foi considerado como mais um passo para tornar a educação mais acessível aos pobres.

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O governo também está buscando melhorar a qualidade do ensino. Em 2017, todos os professores deverão ter pelo menos um mestrado, e muitos serão obrigados a ter doutorado.
Isso não vai ser uma tarefa fácil. Alguns educadores dizem que os objetivos colocados pelo governo são muito ambiciosos. Apenas três universidades no Equador oferecem cursos de doutorado e acabam concedendo apenas um total de 20 por ano, de acordo com René Ramírez, secretário do Departamento de Educação Superior.

"Estamos tentando fazer uma mudança radical em um curto espaço de tempo", disse Ramírez.

Além de querer melhorar o número de professores qualificados, o governo também lançou um ambicioso programa de bolsas. Alguns anos atrás, o país concedia bolsas de estudo para cerca de 20 alunos por ano para que pudessem participar de cursos de pós-graduação no exterior. No ano passado, 1.070 estudantes conseguiram as bolsas. Este ano, Ramírez espera que esse número ultrapasse 3.000.

Até recentemente, o oposto estava ocorrendo. Nos últimos 20 anos, uma indústria caseira nasceu em torno da criação de pequenas universidades privadas. Com praticamente nenhuma regulamentação, a qualidade dessas instituições era muitas vezes muito baixa - embora seus lucros fossem bastante altos.

Depois que elas passaram pela classificação no final de 2009, as escolas deficientes receberam um prazo para fazer melhorias antes de passar por uma nova rodada de avaliações, que foram encerradas recentemente. Os resultados serão anunciados no mês que vem.

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Reitor Jorge Enriquez Paez diz que fez adaptações para atender a exigências do governo, mas nem todas foram possíveis
Ainda assim, existe uma expectativa de que pelo menos algumas dessas universidades sejam fechadas. O governo prometeu que a maioria dos alunos dessas escolas será transferida para outras instituições.

"Eu não acho que eles vão ser capazes de encontrar espaço para todos esses alunos", disse Pamela Medina, uma estudante do segundo ano de medicina na Universidade Cristã da América Latina, em Quito, uma das únicas que oferece o curso que forma médicos, mas que não foi aprovada na avaliação feita pelo governo.

Todas as universidades que obtiveram resultados insatisfatórios na avaliação foram criadas na década de 1990, e os seus administradores disseram que isso as colocava em desvantagem.

"Foi muito injusto comparar uma universidade jovem com as universidades mais antigas usando os mesmos parâmetros e exigências", disse Susan Cordero, reitora da Universidade de Otavalo, uma universidade que foi criada oito anos atrás.

Na Universidade de Alfredo Perez Guerrero, em Quito, os estudantes disseram que a mensalidade de cerca de R$ 2.000 (US$ 1.100) por semestre é mais baixa do que a de muitas outras escolas. Eles também elogiaram o número pequeno de alunos nas turmas, que muitas vezes têm 10 ou menos estudantes por classe.

Jorge Enriquez Paez, reitor da escola, disse que fez várias mudanças para atender os padrões impostos pelo governo, inclusive a compra de mais computadores para os alunos. Mas ele disse que apenas um quinto dos professores da escola trabalhavam em período integral, um número bem abaixo da meta do governo de 60%.

Enriquez diz que criou a escola com suas próprias economias, pois acredita nos jovens de seu país. "Isso é o trabalho de uma vida e não apenas um negócio", defende. "Eu sou um sonhador."

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Alunos se preocupam com suas vagas em universidade de Quito ameaçada pelo governo

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