Responsáveis por vestibulares dizem que miojo e Palmeiras teriam impacto negativo em notas, mas uso do “trousse” e “rasoavel” também poderia ser desculpado

As contestações sobre a correção de redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), surgidas após a divulgação de textos com erros ortográficos como “trousse” e “rasoavel” avaliados com nota 1.000, poderiam se repetir em outros vestibulares se os espelhos de provas fossem divulgados. O iG consultou quatro universidades – USP, Unicamp, UnB e UFRGS –, que explicaram seus critérios de avaliação e, à exceção da UnB, admitiram que poucos erros gramaticais podem passar sem punição. A fuga do tema, como ocorreu nos textos do Enem que apresentavam uma receita de miojo e o hino do Palmeiras , poderia zerar a nota, mas também é um critério subjetivo.

As redações do Enem:
- Candidato coloca hino do Palmeiras em redação do Enem
- Correção do Enem ignora erros como "trousse" e receita de miojo

O maior vestibular do Brasil, a Fuvest, seleciona alunos para a Universidade de São Paulo (USP), mas não define previamente os pontos da redação que serão atribuídos ou descontados. Segundo a coordenação, no entanto, “evidentemente” gramática e ortografia são relevantes. Já casos de fuga do tema são analisados pela banca que pode anular ou descontar pontos.

Candidato coloca hino do Palmeiras em redação do Enem
Reprodução
Candidato coloca hino do Palmeiras em redação do Enem

A redação na Fuvest é parte da prova dissertativa de Português e o candidato tem ciência apenas de sua pontuação total. Além disso, ele não pode pedir detalhes da correção ou para ver o “espelho” do texto, logo, não sabe se um erro foi ou não considerado na sua nota final.

No caso da Comvest, que faz o vestibular da Unicamp, erros de gramática e concordância podem ser desconsiderados se o grupo de corretores julgar que foram irrelevantes diante do restante do texto. A quantidade de problemas que merecerá desconto na nota é combinada entre os professores que fazem parte da banca depois que começam a ler as redações.

A universidade do interior de São Paulo aumentou a transparência da correção no último ano, mas o candidato continua sem ter acesso à correção. A universidade exige dois textos e, até 2012, divulgava apenas a nota final pelo conjunto. No processo seletivo de 2013 separou a pontuação atribuída a cada uma das composições.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os textos dos candidatos do vestibular são corrigidos duas vezes, uma para avaliar o conteúdo, a estrutura e a expressão linguística e outra para observar redação como um todo. Tanto a argumentação quanto o estilo são avaliados em itens específicos de uma planilha, mas erros de ortografia fazem com que os candidatos percam menos pontos que erros de pontuação, semântica e sintaxe e morfossintaxe. Segundo a assessoria de imprensa, o candidato pode ter até dois erros de ortografia e não sofrerá nenhum desconto. Nos demais itens, cada erro acarreta um desconto. Erros de sintaxe e morfossintaxe têm peso ainda maior.

Opinião: Erro gramatical não é problema na redação do Enem

Podem anular uma redação os seguintes itens: fuga ao tema, texto que não seja uma dissertação e com menos de 30 linhas. Caberia aos corretores decidir se a receita de miojo, por exemplo, configura o desrespeito a esses itens.

Tolerância zero a erros

Na Universidade de Brasília (UnB), qualquer erro de grafia, acentuação ou concordância é descontado da nota final da redação do candidato. A fórmula não é muito simples. Primeiro, os avaliadores medem a qualidade do conteúdo do texto para verificar se ele não fugiu ao tema, se respeitou os direitos humanos, apresentou bons argumentos.

Essa é chamada de macro avaliação. Ela é a mais importante, mas não exclui a micro avaliação. Nessa fase, o corretor avalia cada linha escrita pelo candidato para saber se há erros que ferem a norma culta da língua. Cada mancada é contabilizada (e esclarecida no espelho da redação) e, depois, dividida pela quantidade de linhas que o candidato escreveu.

Correção do Enem:
- As etapas pelas quais as redações passam
- Teste mostra os critérios de avaliação

O erro de quem escreveu menos tem mais peso. A nota final é calculada diminuindo da nota de conteúdo os pontos perdidos com erros de grafia. “São concepções teóricas de avaliação dos textos diferentes (a da UnB e do Enem). Passa por uma avaliação do que é aceitável ou não dentro da língua portuguesa”, diz o decano de graduação da UnB, Mauro Rabelo.

Rabelo diz que a UnB mudou as regras, acrescentando a micro avaliação, especialmente por causa da pouca diferença entre candidatos selecionados para cursos mais concorridos. “Esse tipo de correção é muito demorado”, admite. Além disso, o decano diz que redações contando a receita do miojo, por exemplo, poderiam não ser desclassificadas na UnB.

“Se o restante da redação, de algum modo, se relaciona ao tema, ele não pode ser desclassificado. Ele perderia muitos pontos em conteúdo e dependeria um pouco da rigidez dos avaliadores”, afirma.

A UnB é a única universidade consultada que concede vistas da redação aos candidatos e a possibilidade de recurso. 

*Com reportagem de Cinthia Rodrigues, Priscilla Borges e Tatiana Klix

    Leia tudo sobre: Enem
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.