Eles não prestaram vestibular, mas entraram na Unicamp

Programa de inclusão da Universidade de Campinas busca aluno que seria “desperdiçado” por estudar em escola ruim

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 28/05/2011 07:00

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Alex Tomás de Aquino, de 17 anos, não se inscreveu no vestibular para a Universidade de Campinas (Unicamp) no ano passado. Apesar de se destacar entre os alunos do 3º ano do ensino médio da escola estadual Álvaro Cotomacci, na mesma cidade, ele imaginava que não teria chance de conseguir uma vaga na instituição de nível superior que mais admira, concorrendo com estudantes de cursinhos e das melhores escolas do País.

Foto: Cinthia Rodrigues

Alex e restante da turma em seu 1º ano na Unicamp, mesmo sem prestar vestibular

A história é muito parecida com a de Talita Nicacio, Josiane dos Santos, Yasmin Almeida, Anderson Pimentel e da maioria dos alunos da primeira turma do Programa de Formação Interdisciplinar (Profis) da Unicamp, que começou este ano. Todos foram selecionados por ter o melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em comparação aos colegas que cursaram a mesma escola – e não a candidatos em geral.

O formato gerou críticas por ser um programa de inclusão que restringia o público à cidade de Campinas. No ano passado, a Justiça vetou uma iniciativa da Universidade Federal do Rio de Janeiro que tentava destinar 20% das vagas apenas a estudantes de escolas públicas fluminenses.

Na Unicamp, no entanto, o reitor Fernando Costa diz que o principal objetivo não é ajudar os alunos das escolas públicas a entrar na universidade, mas o contrário: garantir que a academia não perca os maiores talentos por eles não estudarem em boas escolas. No projeto piloto em andamento, com apenas 120 vagas, a abrangência territorial teria de ser pequena para que não voltasse a haver uma seleção entre escolas, em vez de alunos. “Se eles tiveram o melhor desempenho possível naquelas condições, muito possivelmente serão ótimos estudantes de nível superior também.”

Crítico do vestibular como única forma de admissão, ele espera que o Profis dê pistas de como a Unicamp e outras instituições brasileiras possam incluir seleções mais criativas e inteligentes. “A verdade é que se um estudante fizer cursinho ano após ano, uma hora ele passa, mas muitas pessoas com potencial podem ser desperdiçadas por não terem feito uma escola que proporcionasse o mínimo”, explica.

Se eles tiveram o melhor desempenho possível naquelas condições, muito possivelmente serão ótimos estudantes de nível superior também”

O projeto não deixa de ser de inclusão. Dados preliminares da equipe de acompanhamento do Profis mostram que o porcentual de negros inscritos na instituição pelo programa é cinco vezes maior do que a média pelo vestibular. O mesmo ocorre com a renda familiar. Enquanto entre os 3 mil alunos que ingressam na universidade pelo vestibular apenas 9% tem renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos, essa é a faixa de rendimento em que estão 47% dos ingressantes pelo novo programa.

“O perfil da turma tem a mesma diversidade do jovem desta idade no Estado de São Paulo”, diz o pró-reitor de Graduação, Marcelo Knobel.

Curso superior básico

Se não teriam conhecimentos básicos para passar no vestibular, no entanto, também faltaria a estas pessoas o mínimo para acompanhar um curso superior. Entra aqui a segunda meta e a justificativa do nome Programa de Formação Interdisciplinar. Em vez de ingressar diretamente em um carreira, os estudantes recebem uma formação geral superior básica, outra ideia que o reitor gostaria de ver expandida.

Para Costa, o aluno da Unicamp se forma com excelentes bases técnicas em sua área, mas falta uma formação geral, que seria de se esperar de uma pessoa com curso superior em uma das melhores instituições latino-americanas. O problema é que futuros médicos não têm aulas de literatura, economia ou história, assim como os matemáticos nunca cursam evolução, bioética ou produção de texto e assim por diante com as restrições de cada carreira. “O nosso sonho era que pudéssemos dar uma base geral para todos os alunos e começamos por esses”, diz Costa.

Durante dois anos, eles têm aulas de linguagens, ciências humanas e artes, matemática, ciências exatas e tecnologia e ciências biológicas e da saúde. A intenção não é que consigam ser aprovados no vestibular, pois ao final todos têm vagas garantidas na graduação. Os que obtiverem as melhores notas no programa escolherão primeiro que carreira cursar.

Foto: Cinthia Rodrigues Ampliar

Interesse e empenho da turma é elogiado pelos professores

Os professores participantes estão extasiados com a turma. “Foi a coisa mais empolgante que já vi em 35 anos dando aula”, diz Alcir Pécora, que deu um curso de literatura universal para o grupo. A aula era a última da sexta-feira – que costuma ser a mais esvaziada – e um colega avisou que houve um murmúrio de lamentação quando a turma soube que o programa incluia literatura.

“Nós até pensamos em fazer algo mais fácil, mais próximo da realidade deles, mas depois concluímos o seguinte: vamos dar o que há de melhor”, lembra. Foi escolhido trabalhar poemas do Canzoniere, de Francesco Petrarca. Assim mesmo, no original em italiano. “Levei três aulas de duas horas e, quando acabou, vários choravam. O acesso a uma obra deste nível tem uma força incrível”, lembra.

Knobel afirma que há relatos semelhantes de professores das diversas áreas. “Eles estão aproveitando a cultura de primeira a que finalmente têm acesso”, diz.

Alex, do início desta reportagem, conta que entre os motivos para não prestar vestibular no ano passado estava o fato de não se sentir preparado para a universidade. “Mesmo que eu tivesse chance de passar, eu sabia que faltavam conhecimentos básicos”, diz, comemorando o projeto piloto. Este mês, ele voltará à escola em que estudou para falar do programa. “Vou recomendar a todos que tentem, é uma grande oportunidade.”

Talita Nicacio, de 18 anos, pondera que há pontos negativos. Por se tratar de um programa piloto, a turma tem alguma insegurança de que tudo funcionará bem. Além disso, sentem um preconceito de outros estudantes. “A gente vê alunos daqui discriminando o nosso curso, mas no geral há mais prós do que contras. O conteúdo é muito bom e a vivência no campus vai nos dar um amadurecimento que pode nos levar a um aproveitamento muito melhor da faculdade”, diz.

O reitor aposta que sim. “Se destes 120, metade estiver entre os primeiros alunos da universidade vamos ter demonstrado que o vestibular precisa ser repensado.”

Foto: Cinthia Rodrigues

Talita, Josiane e Yasmim, de diferentes escolas públicas, elogiam conteúdo e vivência no campus

 

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    100 Comentários |

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    • Eudes | 12/06/2011 21:43

      Antes que digam, não há pq eu ter preconceito. Mas a verdade da falta de preparo vai aparecer.\nÉ claro que o vestibulando quer que o vestibular acabe. Ele quer entrar no curso que escolher e pronto, independente de ter o conhecimento para isso.\nAqui no Brasil, quer se comparar ao sistema norte americano de ingresso sem vestibular, se esquecendo que é outro povo, com outra cultura e outros valores.\nA maioria, por ex., acredita que é a escola estadual pública que não tem qualidade e por isso os alunos não chegam ao vestibular. Na verdade, a maioria dos alunos do ensino médio da escola pública não se esforçam nem o mínimo suficiente para passar num curso razoável. Quando tem bom prof., recheiam os seus boletins de notas vermelhas, que são mascaradas no final do 3º ano no histórico escolar com um 5,0 que esse prof é OBRIGADO A DAR se ele passar "PROMOVIDO PELO CONSELHO". E são a maioria das escolas.\nDisso ninguém quer comentar!\nO que vai ocorrer e a MÍDIA NÃO VAI COLOCAR OUTRA MATÉRIA AQUI, POR EX.??? Infelizmente UM OU OUTRO vai conseguir acompanhar o 1º ANO e eles vão desistir do "PROJETO".\nÉ, infelizmente, continuam a buscar uma RECEITA FÁCIL para a escola de QUALIDADE.\nÉ como querer NOCAUTEAR um CAMPEÃO MUNDIAL SEM TREINAR: NÃO VAI DAR!!!

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    • Giselaine | 02/06/2011 21:47

      É uma pena que todas as Universidades boas do país não ajam assim. A USP, por exemplo, está dificultando seu vestibular. O sistema educacional brasileiro não é como o de outros países e alunos de redes públicas de educação não estão no mesmo patamar que alunos que puderam cursar um ensino de qualidade a vida inteira. Os meus professores estão em greve porque não são reconhecidos. Os vestibulares não retirarão a matéria das aulas que eu não tenho e o governo continua na mesma. Fico feliz pela iniciativa da Unicamp. Tenho amigos que prestarão seu vestibular.\n\nBoa sorte com o projeto.

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    • Emerson D.E. | 01/06/2011 17:19

      Graças à Deus as tão "faladas" universidades estão reconhecendo os talentos menos reconhecidos desse país. Quem disse que alunos de escolas públicas não conseguem? Sabe o que penso ? Nessas universidades somente os que são de classes mais favorecidas possuem condições para estudar e seguir em busca de suas carreiras mas; infelizmente; não levam a sério.Enquanto há pessoas como eu que sempre sonhei em cursar uma dessas e meus pais não têm condições financeiras para "bancar" os custos de uma faculdade. Ah; que tristeza de saber que existem pessoas desperdiçando seus maravilhosos tesouros que Deus os dá.

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    • Cristina | 01/06/2011 13:07

      Agradeço e parabenizo a UNICAMP pela iniciativa de tirar da vida dos estudantes um periodo tão dificil e estressante como o vestibular. Penso que isso deveria acontecer desde os primeiros anos do ensino médio, prepará-los para o ensino superior, como foi dito pelo professor de literatura os alunos são avidos por conhecimento é só terem oportunidade. Sou mãe de aluno do PROFIS e me sinto muito a vontade para dizer que realmente a universidade esta fazendo o melhor e tenho certeza que estes alunos são vencedores.

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    • Luciana Lucena | 31/05/2011 15:16

      Muito boa a iniciativa da UNICAMP. É uma forma de rever o vestibular e também de estimular a muitos jovens o ingresso em um curso superior. Esse é o papel da Universidade pública. Parabéns a equipe da UNICAMP!

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    • jose carlos | 29/05/2011 16:20

      Isso prova que o ideal seria que esses alunos tivessem a oportunidade de frequentar escolas que lhes desse condições de cursar um curso superior em pé de igualdade com seus concorrentes mais abastados. Se conseguem fazer ocurso superior com o conhecimento que obtiveram nessas escolas ditas de "segunda" então o vestibular não esta servindo para nada. Que se revise o vestibular ou então alguma coisa nesse curso n~çao esta funcionando visto que exige-se no vestibular um determinado nível e lá no curso esse nível não se justifica! O que não pode é poartir para o casuismo tipo "educação continuada" sem reprovação!

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    • Marcio Fontes | 29/05/2011 07:39

      É,essa idéia é bem antiga no entanto agora esse reitor teve a coragem de implantar, pode ser o começo para uma boa formação e aproveitamento do curso superior,pois o que tem de advogado,médico,engenheiro...que não sabem escrever,falar...é vergonhoso!quem sabe esses novos estudante possam fazer a diferença.E outros reitores possam sair do discurso barato e cretino e mudar o entendimento de "cotas" e implantar "ações afirmativas" de verdade.Taí uma boa forma de avaliar estudante e acabar com a indústria de cursinhos e escolas milionárias.

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    • Marcelo Freitas | 29/05/2011 06:49

      Parabéns UNICAMP por mais este pioneirismo !!! Acredito que este projeto tem tudo para dar certo. Vocês tiveram iniciativa e coragem de desenvolver pontencialidades e não apenas "terminar de polir" o que já vem "quase pronto". PARABÉNS !!!

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    • João Costa | 29/05/2011 05:46

      Esplêndido á iniciativa tomada pela UNICAMP,em quanto estava lendo,fiquei até emocionado vendo a postura de tal Universidade. Agora sei porque está entre as melhores do Brasil,pena morrar tão longe e não ter condicões financeiras para poder participar,pois,sou de Belém PA,onde minha trajetoria como estudante é de 100% escola pública("DE FATO",pois,costumo dizer que existem as pseudo escolas pública como: Institutos federais,escolas militares e Escolas de Aplicação das Univ. Federais para filhos dos funcionarios). Hoje estou no meu quarto ano na luta contra o VESTIBULAR,para vê se almejo uma vaga de MEDICINA na UFPA,pois cota até tem,mas não são preenchidas por alunos de escola pública DE FATO...Mas pode contar de uma coisa,eu posso até não fazer minha graduação na UNICAMP,mas meu mestrado em Genética será aí,FATO......Obrigado

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    • Regina | 29/05/2011 02:57

      Parabéns, Reitor. Alguém precisa repensar esse Pais e ter a coragem de começar um novo projeto para os jovens. Desejo lhe sucesso.

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