Colégio Pedro II em Niterói tem paredes de madeira em sede provisória há 5 anos

Em greve há um mês e apesar das condições, unidade de escola tradicional do Rio de Janeiro tem bom resultado no Enem 2010

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Parede de madeira improvisada do colégio tem buraco sobre cartazes. Alunos reclamam do barulho
Professores e servidores do Colégio Pedro II estão em greve desde 15 de agosto. Um dos pleitos é a aquisição de uma sede definitiva para a unidade de Niterói. Os 519 alunos enfrentam as más condições do prédio improvisado onde estão instalados.

O colégio funciona provisoriamente em um Ciep (Centro Integrado de Educação Pública) cedido – informalmente – pelo governo do Estado, desde 2008. As paredes das salas de aula são de compensado de madeira pintado de verde, o palco do auditório é feito com tampos de mesa e os estudantes suam em salas abafadas e sem ar-condicionado.

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Aluna Juliana Costa mostra a porta improvisada na parede de madeira
“As paredes que dividem as salas do corredor são de madeira e se ouve tudo o que se passa no corredor e nas outras classes, atrapalhando a concentração. Tem portas que não fecham; outras não têm maçaneta, e os quadros são de giz. Como o prédio é um Ciep de concreto, muito quente, o calor é insuportável, e os ventiladores das salas não dão vazão. Só a biblioteca, as salas dos professores, de vídeo e o auditório têm ar-condicionado”, disse Juliana Costa, 16 anos, do 2º ano do Ensino Médio.

A escola tem como marca o improviso, na tentativa de minimizar as más condições. As portas nas paredes de madeira são baixas (cerca de 1,85m) e têm buracos no alto, para melhorar a circulação de ar.

Em uma sala destinada à projeção de filmes, a tela branca foi literalmente pintada, com tinta, na parede verde. “As janelas, de vidro, precisam ser tapadas com papel pardo para conseguirmos ver o quadro. Os banheiros nem sempre têm papel higiênico, muitas vezes temos de pedir, e quase nunca têm sabão”, disse Juliana.

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Palco do auditório, improvisado com tampos de mesas no Pedro II em Niterói
O Pedro II foi fundado em 1837, como a primeira escola secundária do Império, e é um dos mais tradicionais colégios públicos do País, conhecido pela excelência no ensino. Os cerca de 12.000 alunos são divididos entre 14 unidades pelo Rio de Janeiro. A escola em Niterói foi criada em 2006, como parte de um plano de expansão do Colégio Pedro II, no governo do ex-presidente Lula. Foram inauguradas ainda uma sede em Realengo e outra em Duque de Caxias.

“Quando chegamos aqui, o prédio estava em situação deplorável. O terceiro andar era um depósito. Pusemos as divisórias de madeira porque a parede só ia até a metade”, disse o diretor da escola, Marcelos Caldeira, que reconhece os problemas. Professor de História do Pedro II desde 1992, ele dirige a unidade há um ano. “O ensino é bom, mas a estrutura limita e dificulta o estudo”, opinou Carolina Sarzeda, 16 anos, aluna do 2º ano.

O desempenho de destaque no Enem 2010 confirma a avaliação de Carolina. Apesar das instalações físicas precárias, o Pedro II-Niterói foi o 159º no ranking de escolas que tiveram participação de mais de 75% dos alunos no exame, sendo o 58º entre os 1.166 colégios do Estado do Rio e o quinto colocado em Niterói – cidade com o maior IDH do Rio e terceiro melhor no País. Com 683,42 pontos, obteve o terceiro melhor desempenho entre as unidades do colégio de nível médio. O colégio em Niterói só tem Ensino Médio.

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Frederico reclama das condições da escola
“Temos uma posição consolidada: em Niterói, nos últimos três anos, desde que formamos a primeira turma, ficamos em sétimo, quarto e quinto, em 2010. Tivemos uma medalha de ouro, uma prata e seis menções honrosas na Olimpíada de História do Brasil da Unicamp; na OBMEP, foram 17 menções honrosas este ano e já tivemos uma medalha de ouro”, afirmou Marcelos.

Os estudantes são na maioria de Niterói e São Gonçalo – município vizinho –, mas também de Maricá, Itaboraí e Magé.

Problema estrutural

A direção da unidade admite os problemas. “Reconhecemos que o prédio realmente não é adequado para o projeto do colégio – o Ciep foi projetado para o ensino fundamental –, entendemos que tem problemas, mas muito já foi feito para melhorar as condições. O prédio não é uma instalação definitiva. Estamos permanentemente buscando uma área, mais adequada, para nos instalarmos definitivamente. Não é o ideal, mas também não é o caos.”

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Em sala de filmes, a tela foi pintada a tinta branca na parede
Estudantes ironizam a nome oficial de “unidade escolar descentralizada de Niterói”. “Deveria se chamar ‘unidade escolar marginalizada de Niterói’”, disse Frederico Lemos, 17, do 3º ano. “Na próxima propaganda eleitoral na TV, eles vão mostrar a unidade de Realengo, que é nova, mas vão esconder a nossa”, completou.

Não faltam equipamentos eletrônicos de apoio. Há dois laboratórios de computação, com CPUs novas, máquinas modernas para reproduzir provas e fazer cópias, TVs e projetores – quatro salas têm projetores fixos e há uma TV móvel –, por exemplo, mas a escola se ressente das condições físicas do prédio.

A unidade conta laboratórios de ciências, com bonecos anatômicos, a cozinha tem fogões e coifas recém-comprados e sete ônibus servem para o transporte de alunos para eventos.

Vandalismo

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Colégio tem laboratório de Ciências e de computação, com material novo
O diretor da escola atribuiu parte dos problemas ao “vandalismo” de alunos. “Quando pegamos a unidade, teve obra no vestiário da quadra. Por incrível que pareça, em um mês já tinham depredado duas portas. Toda semana, praticamente, precisamos trocar um assento de vaso sanitário. O que ocorre é que existe uma situação de depredação. É comum ver no banheiro feminino rolo de papel inteiro no vaso. Não falta papel, isso não procede, mas é mau usado”, disse Marcelos.

Quando o iG visitou a escola, na quinta-feira (15), havia papel em todos os banheiros, e o diretor mostrou uma pilha de rolos de papel higiênico no almoxarifado. “Claro, eles sabiam que a imprensa vinha”, disse a aluna Juliana Costa.

Busca por área para nova sede

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Com adesivos em apoio à greve, alunos protestam contra o estado da escola
O Pedro II negocia a cessão definitiva de uma área contígua, que era um quartel do Exército e passou para o Estado do Rio. Os recursos já estão separados. “Queremos a área do batalhão do Exército desativado, ao lado. São 40.000 metros quadrados, em comparação aos cerca de 8.000 nossos”, disse Marcelos, que sonha com o local para construir a futura sede.

Coincidentemente, a nova unidade em Realengo fica em um terreno onde funcionava uma fábrica de cartuchos do Exército.

Talvez então os alunos do Pedro II de Niterói possam cantar, com mais conforto, a sua tradicional “Tabuada”, hino extra-oficial dos alunos. “Ao Pedro Segundo, tudo ou nada? Tudo! Então como é que é? Tabuada! Três vezes nove, vinte e sete. Três vezes sete, vinte e um. Menos doze ficam nove. Menos oito fica um! Zum! Zum! Zum! Paratimbum! Pedro Segundo!”

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