Alunos acusam reitor de universidade federal de racismo

Em declaração, reitor da Federal do Recôncavo Baiano culpa "cor, renda e formação" do trabalhador pela desestrutura. Veja vídeo

Cinthia Rodrigues e William Castanho, iG São Paulo |

Estudantes da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) acusam o reitor, Paulo Gabriel Nacif, de racismo ao justificar a falta de estrutura da instituição. Em uma declaração gravada durante uma reunião com uma comissão de alunos que solicitava melhorias ele citou a cor e a renda dos trabalhadores como justificativa para os problemas.

Na declaração completa ele diz: "A interiorização vista de diversas formas por vocês tem que ser concebida também do ponto de vista de formar uma relação de servidores técnicos administrativos, formar uma relação de gestores, que não é só o reitor. Então, assim, a universidade funciona precariamente mesmo. Sabe, uma universidade que nasce no interior, cujos trabalhadores são dos interiores... Se a gente for ver pela cor do trabalhador, se a gente for ver pela renda do trabalhador que nós temos na UFRB a gente vai ver que.... a formação do trabalhador, a gente vai ver que aqui tem um desafio maior".

Os estudantes da UFRB fizeram uma paralisação e ocupação da instituição por 40 dias com uma pauta de 101 pedidos. Entre eles, biblioteca básica, professores e quadra para aulas de esportes. Uma comissão de dez alunos foi composta para a negociação e gravava a conversa com o reitor no último dia 6 de outubro quando ele fez a justificativa que foi interpretada como racista.

"O problema de estrutura não tem nada a ver com os funcionários, muito menos com a cor deles", diz Ezilda Ferreira Barreto, 23 anos, aluna do 4º período de Serviço Social que estava presente na reunião. De acordo com a estudante, nesta reunião a reitoria se propôs a atender parte das reivindicações e a desocupação dos prédios ocorreu no dia 10. Nesta segunda-feira, 17, os estudantes retomaram as aulas e haverá uma reunião nesta terça-feira para debater a declaração do reitor.

"Vídeo editado cuidadosamente"

Em nota divulgada no site oficial da UFRB , o reitor afirma que o vídeo no qual aparece teria sido "editado cuidadosamente para ocultar o contexto" das suas colocações e acusa um grupo de alunos, "alguns legítimos militantes de partidos e outros coletivos políticos" pela divulgação na internet.

Em entrevista ao iG, ele afirmou que falou o que está gravado e repetiria, mas dentro de um contexto. ( Leia aqui entrevista concedida nesta terça-feira ).

Nacif diz que a edição publicada do vídeo não permite ver que ele foi impedido de completar seu raciocínio e que na verdade, tentava expressar seu "orgulho pelos nossos trabalhadores e da nossa história de luta que dura quase meio milênio". Chamado de "racista" pelos presentes à reunião e "Hitler" em outras ocasiões, o reitor classificou o episódio como "lamentável".

O reitor diz também que por "ser oriundo de família negra e pobre", conhece o real significado do racismo e que faz parte do seu cotidiano combater essa prática. Para Nacif, as acusações não passam de agressões e calúnias, e informou que vai tomar todas as "medidas cabíveis" para reparar os danos causados à sua honra e à imagem da instituição.

Primeiro reitor da UFRB

A página da UFRB que traz o perfil de Nacif diz que ele nasceu no sul da Bahia e com meses de vida foi com a família para Teodoro Sampaio, no Recôncavo Baiano, onde passou toda sua infância. Fez carreira acadêmica na Federal da Bahia (UFBA) e foi convidado a ser o primeiro reitor da UFRB em 2007 para um mandato que se encerraria neste ano.

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